" O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza. Mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota, de água, bastam para matá-lo. Mas, mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria mais nobre do que quem o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso"
O Jansenismo, pode ser definido sob duas perceptivas:
1. Conjunto de princípios estabelecidos por Cornélio Jansênio (1585-1638), bispo de Ipres condenado como herege pela Igreja Católica, que enfatizam a predestinação, negam o livre-arbítrio e sustentam ser a natureza humana por si só incapaz do bem.
2. Movimento político que se originou do jansenismo
teológico e, estimulado pela oposição dos religiosos da abadia de Port-Royal a
Luís XIV, prolongou-se por todo o sec. XVIII.
JANSENISMO NO BRASIL
A obra "Jansenismo no Brasil"do Padre Amarildo José de Melo, revela como o
fenômeno do jansenismo marcou profundamente o catolicismo, sobretudo no Brasil.
O autor aponta a centralização da moral no pecado, o medo da condenação, a
moral sexual repressiva, dentre outras questões, como consequências diretas desse
fenômeno. Além de mostrar a influência do jansenismo na formação do ethos
católico brasileiro, o livro revela que o fenômeno pode estar voltando com
outras cores e expressões.
Segundo ele, o jansenismo chegou ao Brasil
via Portugal, ainda no século XVIII. Na Metrópole, a novidade ganhou força nos
tempos do Marquês de Pombal, cuja reforma pedagógica impôs nas escolas
primárias o uso da tradução do Catecismo de Montpellier, elaborada
pelo bispo de Évora, Dom João Cosme da Cunha (1715-1783). E, não obstante
fosse mais que sabido que tal Catecismo havia sido condenado pela
Igreja em 21 de janeiro de 1721, o alvará de 9 de outubro de 1770,
publicado na chancelaria mor, o oficializaria.
RELIGARE: CONHECIMENTO E RELIGIÃO SOBRE JANSENISMO NO BRASIL
O Jansenismo deixou marcas
profundas na moral cristã moderna e influenciou decisivamente o ethos católico
brasileiro. A centralização da moral no pecado, o rigor, o medo da condenação,
os escrúpulos de consciência, a dependência da confissão, a estreita ligação
entre a confissão e a eucaristia, são alguns de seus sinais, junto com uma
moral sexual repressiva. Uma soteriologia profundamente expiatória integra a
base desta antropologia teológica. Mas o Jansenismo tem também injunções
políticas, marcantes na Europa e no Brasil. Longe de ser página virada na
história, ele continua como hermenêutica de vida, presente na atualidade. E
pode estar voltando hoje com outras cores e expressões.
Amarildo José de melo, é natural de Araújos-MG, é doutor
em História da Teologia Moral pela Academia Alfonsiana deRoma; mestre em
Teologia; licenciado em Filosofi a; membro da Sociedade Brasileira de Teologia
Moral (SBTM); professor de Teologia Moral no Instituto Santo Tomás de Aquino
(ISTA-BH) e no Instituto Dom João Resende Costa (IDJ da PUC-Minas). Presbítero
da diocese de Divinópolis-MG.
De acordo com Edgar Morin, o pensamento dos Pensamentos de Pascal inscreve-se no entrecruzamento de uma cultura europeia que, desde a Renascença, opõe fé e dúvida, razão e religião. No seio da cultura europeia, a cultura francesa foi aquela em que o debate/combate entre essas diversas instancias se conduziu de maneira mais radical, e Pascal foi aquele que incluiu em seu próprio espírito esse combate que se opões os espíritos na França. Em lugar de enxergar a fé, a dúvida, a razão, a religião como instâncias inimigas e naturalmente exclusivas, identificou nela elementos conflituosas, mas também complementares de sua própria tragédia interior.
Em Pascal, a oposição entre a ordem absurda da fé e a ordem empírico-racional da ciência acompanha-se de uma complementaridade dialógica de uma e de outra. Fé, dúvida, razão, religião se reencontram, se entrecombatem e se alimentam uma da outra. A grandiosidade de Pascal é ter tornado seu enfrentamento complementar e fecundo. Essas características deveriam ter permitido reconhecer melhor a unidade complexa da obra pascaliana. Em lugar disso, o que se tem sobre essa obra são visões parciais e separadas uma da outra.
MORIN, Edgar. Meus filósofos. 2a edição. Traduzido por Edgard de Assis Carvalho e marisa Perassi Bosco. - Porto Alegre: Sulina, 2014.
Data
de Nascimento:19
de junho de 1623 em Clermont (agora Clermont-Ferrand), Auvergne, França
Morreu
em:19
de agosto de 1662 em Paris, França
De acordo co Edgar Morim (1921), em seu livro Os Meus
Filósofos, Blaise Pascal é o maior pensador, o mais próximo (ao mesmo tempo que
Heráclito). Pascal é para ele as verdades mais fulgurantes que surgem
bruscamente no fluxo descontínuo dos “Pensamentos”, e, afirma que o fato dessa
obra não ter sido acabada aumenta sua grandiosidade.
Segundo ele, algumas obras são grandiosas porque não
formam terminadas. No caso dos “Pensamentos” de Blaise Pascal, sua forma
aforística confere-lhes uma violência singular, como se vê em Nietzsche. De
Acordo com Morim, se os “Pensamentos” tivesse sido concluídos, empobreceria a
própria obra, uma vez que teria adquirido uma forma racionalizadora. O que
definiu a originalidade dos Pensamentos, foi a morte prematura de seu autor.
Morim afirma:
Li Pascal muito cedo e hoje
compreende o que me pascalizava e me pascaliza para sempre: é o laço
extraordinário e complementar entre a fé, a razão, a dúvida; combate,
complementaridade que sempre foram os meus. (MORIM, 2014, p. 53)
Certa ocasião, Morim foi convidado a proferir uma sessão
de abertura na Universidade Blaise Pascal em Clermont-Ferrand, ele ficou
surpreso, pois, constatou que, Pascal havia sido dividido em fragmentos
separados uns dos outros: Pascal Polêmico, Pascal Jansenista, Pascal estudioso,
Pascal escritor.
De acordo com Bem Roger (2001, p, 11), como polêmico, “Pascal
é lido como o autor da obra-prima cartas Provinciais, um violento ataque a
corrupta teologia e moral relaxada dos jesuítas e seus aliados na Igreja
Católica.” Quanto ao Pascal jansenista, segundo Rossi (2004, p. 120), “é óbvio
que não se pode falar de uma verdadeira conversão de Pascal ao jansenismo, mas
de forte e crescente interesse por essa doutrina, vista por ele como freio
salutar ao pensamento libertino e as ilusões de uma razão sempre menos
instrumento e sempre mais fim e escopo indevido do homem”. Entretanto, essa
tese de Rossi, parece não ser a mesma de outros estudiosos de Pascal. Jacques Attali
defende que a conversão aconteceu duas ou três vezes na vida de Pascal.
Pascal conheceu o evangelho por influência do jansenismo:
um movimento dentro da igreja, fundado pelo bispo holandês Cornelius Jansen
(1585–1638), que preconizava uma reforma católica com base na igreja primitiva
e uma espiritualidade interior. O que muitos designam como a primeira conversão,
data de uma altura que o pai de Pascal sofreu um acidente. Dois jovens médicos
afetos ao jansenismo que cuidaram dele, introduziram na família pascal, as
ideias defendidas pelos jansenistas, vinculadas principalmente a Antoine Arbauld
e Sint Cyrram. Neste sentido, podemos afirmar que, a principal influência sobre
o pensamento religioso de Pascal veio do jansenismo, um movimento católico
francês que enfatizava a experiência religiosa pessoal e especialmente a
conversão súbita como capaz de colocar a alma em relação direta com Deus.
Pascal foi tocado o que lhe levou a converter ao jansenismo tendo arrastado
toda a família com ele.
Já a segunda conversão aconteceu em uma data precisa (23
de novembro de 1654, numa segunda-feira à noite, “das dez e meia da noite, mais
ou menos, até cerca de meia-noite e meia”) e em um lugar determinado (em seu
quarto, enquanto lia a sós a oração sacerdotal de Jesus, em João 17). Na mesma
ocasião, ele registrou essa experiência em um pedaço de pergaminho. Como esse
escrito estava costurado no forro do seu casaco, quando morreu, oito anos
depois, supõe-se que Pascal o tenha carregado na roupa o tempo todo.
Pascal é classificado como “gênio” precoce, uma vez que,
desde cedo demonstrou uma inteligência que o colocava em um lugar distinto das
outras crianças da sua idade. Ele foi um gênio precoce da geometria e da
física, aos 12 anos publicou seu primeiro ensaio sobre o som, aos 14 já
frequentava o círculo dos eruditos, aos 16 escreveu o Ensaio sobre as Cônicas,
aos 19 concebe a máquina de calcular. Entre outras obras, destacamos os
Pensamentos, publicados após a sua morte. Mas a unidade de Pascal, segundo
Morim, permanece mal conhecida, sem dúvida porque, em si mesma, inclui a
presença de componentes aparentemente antagônicos.
Em lugar de enxergar a fé, a dúvida, a razão e a religião
como instâncias inimigas e mutuamente exclusivas, identificou nelas elementos
conflituosos, mas também complementares de sua própria tragédia interior. Em
Pascal a oposição entre a ordem absurda da fé e da ordem empírico-racional da
ciência acompanha-se de uma complementaridade dialógica de uma e de outra.
Fé, dúvida, razão, religião se encontram, se
entrecombatem e se alimentam uma da outra. A grandiosidade de Pascal é ter
tornado seu enfrentamento complementar e fecundo. Essas características
deveriam ter permitido reconhecer melhor a unidade complexa da obra pascaliana.
Em lugar disso, o que se tem sobre essa obra são visões parciais e separadas
uma da outra.
Referências
ROSSI,
Roberto. Introdução à Filosofia: histórias e sistemas. - 2ª Ed. Edições Loyola,
São Paulo, Brasil, 2004.
ROOGERS,
Bem. Pascal: elogio do efêmero. Tradução de Luiz Felipe Pondé. – São Paulo :
Editora UNESP, 2001.- (Coleção grandes filósofos).
MORIM,
Edgar. Meus filósofos. - 2ª edição. Traduzido por Edgard de Assis Carvalho e
Mariza Perassi Bosco.- Porto Alegre: Sulina, 2014.
Hoje, 19 de Agosto de 2016, comemoram-se os
354 anos da morte de Blaise Pascal. Pascal morreu aos 19 de agosto de 1662 com apenas 39 anos e deixou uma
obra prodigiosamente fecunda tanto no domínio das ciências, da filosofia, da
política e da teologia, tendo escrito nos últimos anos de sua vida uma Apologia
ao Cristianismo. Algumas fontes apontam para a causa da morte como
tuberculose, mas foi feito uma necrópsia em seu corpo e foi detectado graves
problemas de estômago e foi constatado que seu cérebro estava bastante
danificado, o que se sugere um câncer de estômago que se alastrou até o
cérebro. Em vida, Pascal sofria fortes dores de cabeça e de fato ele teve os
sintomas de tuberculose antes da morte.
NASCIMENTO: 19
de Junho de 1623 - Clermont-Ferrand, França.
MORTE: 19 de
agosto de 1662 - Paris, França.
CAUSA DA
MORTE: Câncer no estômago. De nacionalidade francesa, Blaise Pascal Pascal, matemático, físico, inventor, escritor e filósofo cristão. Foi uma criança "prodígia" que foi educado pelo pai. Os primeiros trabalhos dele foram em ciências naturais e aplicadas onde ele trouxe contribuições importantes ppara o estudo de fluídos e esclareceu os conceitos de pressão e vácuo. generalizando o trabalho de Evangilista Torricelli. Pascal também escreveu em defesa da religião, sua obra mais importante é de caráter teológico conhecido como Pensées (Pensamentos) publicada após sua morte. Pascal é listado como um dos melhores polemistas franceses de sua época, especialmente e, em particular, pela sua falta de artificio, ele impressionava seus leitores com o uso da lógica e pela força de sua dialética.
Educação de Pascal
O pai de Blaise Pascal, Étienne Pascal, teve uma educação
ortodoxa e decidiu educar seu filho na mesma direção. Ele decidiu que seu filho
não devia estudar matemática antes dos 15 anos, por isso, todos os materiais
foram retirados de sua casa. Pascal, no entanto, era curioso sobre tudo isso e
começou a trabalhar em geometria com a idade de 12 anos. Ele descobriu que a
soma dos ângulos de um triângulo são dois ângulos retos. Quando seu pai
descobriu isso cedeu e deu Pascal um texto de Euclides.
Pascal Cientista
Pascal foi educado por seu pai, que lhe deu
uma formação científica e humanística, mas, inicialmente seu interesse estava
focado em matemática e física. Aos 14 anos ele participava de reuniões
científicas do Padre Mersenne que pertencia a ordem religiosa dos Mínimos e sua
casa em Paris era um ponto de encontro frequente para Fermat, Gassendi, e
outros intelectuais. No entanto, ele não manifesta tanto interesse em ciência
como Descartes; muito mais cético sobre o possível alcance do nosso
conhecimento sobre a natureza, concebia a ciência como uma atividade destinada
a apontar resultados aproximados de alguma coisa, capaz de orientar a ação
humana, mas não é capaz de expressar a essência última das coisas. Aos 16 anos,
ele escreveu seu "Ensaio Sobre as Cônicas", com a idade de 18
inventou uma máquina de calcular e realizou inúmeros experimentos científicos
expostos no "Tratado sobre o peso da massa de ar" e o "Tratado
Sobre o Equilíbrio dos Líquidos”. Seus trabalhos são relacionados com problemas
diversos da matemática e da física, o trabalho influenciou decisivamente o
posterior desenvolvimento da ciência do seu tempo.
Ele pode ser considerado como o fundador do
cálculo das probabilidades, formulado em 1654 como Geometria do Acaso em sua
correspondência com Fermat. O Tratado do Triangulo Aritmético, prolonga essas
ideias e mostra a importância do triângulo em questões como o cálculo combinado
e o cálculo da potência de um binômio. A partir dessa data, ele interrompeu
quase completamente seu trabalho científico, embora ele contribuiu em 1658 com
outra obra fundamental "Lettres A. Dettonville contentant quelques unes de
ses invenções de geometrie" que resolve vários problemas relacionados com
a ciclóide que tinha proposto aos mais importantes cientistas de sua época e
nenhum deles conseguiu desvendar.
Seu pensamento é determinado pelo seu status
de cientista que desconfia da razão para abraçar os problemas fundamentais da
vida e sua profunda religiosidade onde encontra a salvação para não cair na
filosofia do absurdo. Isso o leva a admitir dois princípios do conhecimento: o espírito
geométrico (razão), orientada as razões científicas e o espirito de finesse
(coração), que são na forma de intuições princípios básicos para a compreensão
da vida e até mesmo os princípios fundamentais que começa toda a ciência.
Pascal filósofo e
teólogo
Sua doutrina filosófica é destinada a uma
Apologia do Cristianismo. Em 1646 entra em contato com a religião através das
obras de A. Arnauld. Converteu-se ao jansenismo e arrastou com ele toda a sua
família. Em 1654, após um período dedicado à vida mundana, acontece a segunda
conversão como resultado de uma segunda experiência religiosa que ocorreu na
noite de 23 de Novembro do mesmo ano. Ele intensificou sua religiosidade e
juntou-se à comunidade dos solitários de Port-Royal. A partir deste centro
religioso e intelectual foi realizada uma série de polêmicas com os jesuítas,
em torno do pecado e da graça, onde interveio Pascal com a publicação das
suas famosas "Cartas Provinciais" verdadeiros monumentos da
literatura francesa e mundial. A sua filosofia é um tratado contra o
intelectualismo cartesiano, cuja finalidade foi exclusivamente apologética,
podemos citar a teoria das duas faculdades de conhecimento, sua ideia do homem
como situado entre dois infinitos, superando o ceticismo e o paradoxo humano
pela fé, sua teoria de que o valor supremo é a santidade suas concepções são
principalmente expressas nas Cartas de "Louis de Montalte" a um
provincial sobre a moral, política e religião.
De acordo com Pascal, razão e coração são
dois caminhos igualmente válidos do saber, e talvez o segundo é superior à
abstração racional, como expõe, dizendo: "Conhecemos a verdade não só com
a razão, mas também com o coração" e "o coração tem razões que a
razão não conhece". Ambos conduzem a verdade, mas com lógica e mecanismos
diferentes. Através do coração a realidade é atingida em sua singularidade e
mesmo Deus se manifesta ao homem através do coração. Nesta demonstração e
aceitação de Deus através do coração Pascal chama de fé, princípio necessário
para viver como homens e alcançar a divindade. Mediante esta fé e este
conhecimento por sentimento não se opera só como uma parte do homem, como
ocorre com o conhecimento abstrato e racional.
No entanto, a fé e a captação de Deus é o
mais importante para a vida do homem, mas, não é concedida gratuitamente e sem
esforço, há que buscá-lo com determinação. Esta busca é realizada com base no
reconhecimento da grandeza e da miséria do homem, que está entre o infinito e
do nada. O ponto de partida é, portanto, reconhecer os limites que o homem se
encontra. Tal reconhecimento é sempre doloroso e uma prova disso é a
"diversão" pela qual o homem chega a uma extroversão ou diversão,
para escapar de si mesmo. O homem precisa voltar para si mesmo, e, reconhecer
suas próprias limitações, buscar a Deus e aceitar as razões do coração que o
colocou em contato com Ele.
Pascal Político
A reflexão política de Pascal incide sobre
aquilo que os homens não deixam de apresentar no espaço social, ou seja,
signos, visando legitimar sua autoridade face aos demais. Ele é considerado um
extraordinário teórico da política, mas ainda desconhecido, uma vez que, seu
pensamento político encontra-se dissolvido em diversos fragmentos na sua obra
maior, Pensées, (Pensamentos), e por isso, durante muito tempo sua erudição
política permaneceu desconhecida do grande público. Pascal se vê na pele de um
sociólogo e político, um cidadão integrado na sociedade de sua época preocupado
com a política e com os governantes, que no final da sua vida pronuncia
palavras que mais tarde seriam transformados na obra que hoje conhecemos como
“Os três Discursos sobre a condição dos Grandes”.
Pascal analisa o mistério que marca a
condição humana, revelando “uma sensibilidade aguda para o fato de que o homem
parece ser, um ser que, quando exposto a demasiada luz, se dissolve”. O
conhecimento das coisas é um conhecimento do meio (milieu), isto é, um
conhecimento das aparências. Ele submete todo tipo de atitude e conhecimento a
uma contingência irremediável. o que nos leva a verificar que a
"insuficiência humana" é algo passível de ser constatada de forma
empírica em todas as dimensões da vida humana. "A hipótese explicativa do
mito da queda é uma forma de iluminar um fato que por si só se impõe", ou
seja, o ser humano é empiricamente corrompido.
Sobre a matéria dos “grandes”, presente nos Três
discursos Sobre a Condição dos Grandes, editados postumamente por Pierre
Nicole, pode-se concluir que, ao contrário de alguns, temerosos de um Pascal
revolucionário, seu discurso político é legitimado pelas bases clássicas, que são
claras em autores anteriores. Para Pascal, prevenir qualquer revolta é a
garantia da paz no Estado. Para tanto, não basta a arte do bem governar: é
preciso usar a força. Ora, como a força não se deixa manipular por se tratar de
uma qualidade palpável, ao passo que a justiça se presta a isso, por ser uma
qualidade espiritual, manipula-se a justiça para justificar a força. Esvaziado
o velho conceito de justiça: "dar a cada um o que lhe é devido", esta
passa a ser o disfarce da força. Os homens passaram a conviver em paz, apesar
da concupiscência. Mas, para que essa convivência seja pacífica, é preciso
adequar a justiça ao reino da concupiscência.
Pensées (Pensamentos) de Pascal
A obra Pensamentos é de autoria de pascal,
mas o título foi conferido pelos editores que publicaram o texto após a sua
morte. Toma-se como edição mais importante a de 1670, que já aparece com a
indicação de 2ª edição, porque no ano anterior havia sido publicada a primeira,
mas com pequena tiragem e restrita ao seu conteúdo. Isso não é difícil de
explicar, uma vez que pascal deixou como textos inéditos grande número de
pastas contendo ideias, reflexões, pensamentos opiniões lançados no papel sem
ordem alguma que o faziam parte de um projeto de um livro destinado a fazer uma
apologia da religião cristã. Ante a morte permatura de pascal, célebre como
cientista e pensador, os editores se empenharam em publicar seus escritos, mas
se depararm com um acumulo impressionante de esboços, textos dispersos e
muitos, inclusive, incompletos e interrompidos. Decidiram, no entanto, publicar
a obra. conferindo certa ordem às anotações do autor, e concordam em dar à obra
o título de pensamentos.
Por essas razões, as primeiras edições
divergem entre si. Além do mais cada editor conferia aos papeis deixados pelo
autor a ordem que bem entendia e acrescentava alguns pensamentos a mais que o
outro. Depois de dois séculos de diferentes edições, apareceu em 1897 a edição
de Brunschvicq, considerada como definitiva durante décadas por muitos
pesquisadores e estudiosos. Em 1951, porém, a questão foi reaberta com a edição
de Lafuma, organizada de forma diferente, embora o conteúdo fosse o mesmo. As
edições posteriores de outros editores respeitam ora uma ora outra das duas
anteriores, com diferenciações irrelevantes. Ad edições desses últimos anos
reproduzem a de Brunschvicq, indicando a numeração dos pensamentos constante
daquela de Lafuma, ou vice versa.
Referências:
CASTILLO, Carlos. El Legado
de Blaise Pascal. Publicada em 14 de dezembro de 2011. Disponível em: < http://ellegadodeblaisepascal.blogspot.com.br/>,
acessado em 19/08/2016.
ROCHA,
Arlindo Nascimento. Uma Leitura Atual
Sobre a Construção Política e Social na Filosofia de Blaise Pascal. In:
Rev. Parlamento e Sociedade. São Paulo, v. 2 n. 3, p. 53-69, jul./dez. 2014.
Disponível em: <http://www.camara.sp.gov.br/escoladoparlamento/wp-content/uploads/sites/5/2015/05/REVISTA_PARLAMENTO_SOCIEDADE_2015_WEB.pdf
>, acesso em 19/08/2016.
SILVA, A. G. PASCAL: Cientista e Filósofo Místico. São Paulo: Lafonte, 2011. (Coleção
Filosofia Comentada).
1633 - Pascal, aos 10
anos, estuda geometria por conta própria e escreve "Traité des sons"
(tratado sobre os sons).
1638/39 - Aos 15 e 16 anos, Pascal elabora o "Traité dês sections coniques"
(tratado sobre as secções cênicas) e publica, com espanto do mundo científico,
os "Essais pour lês coniques" (ensaios para os cones).
1640/42 —
Pascal trabalha na construção da sua máquina aritmética. Primeiro abalo grave
de sua saúde.
1644 — Pascal faz
presente de um exemplar da sua máquina aritmética ao "Grande Conde"
(Luiz II).
1646 — Primeira
"conversão" de Pascal pelos jansenistas, La Bouteillerie e Deslandes.
Pascal "converte" sua genial irmã Jacqueline.
1647- 23 de setembro
— Pascal tem, em Paris, uma entrevista com o célebre filósofo Descartes.
1647 - 4 de outubro — Pascal publica o seu tratado sobre o vácuo
"Nouvelles éxperiences touchant lê vide".
1647 — Polêmica com o
Jesuíta Noel sobre a teoria do vácuo.
1647/51 —
Pascal elabora o "Tratado sobre o vácuo".
1648
- janeiro - Primeiras relações diretas de Pascal com Port-Royal.
1648 - setembro — Pascal
publica o célebre esboço sobre o equilíbrio dos líquidos "Récit de Ia
grande éxperience de 1'équilibre dês liqueurs".
1649 - 22 de maio — É concedida a Pascal patente de invenção para sua
máquina aritmética. 1651 — Princípio
das relações de amizade de Pascal com o duque Roannez.
1651
- 24 de setembro — Morte do pai de
Pascal.
1651 -
17 de setembro — Pascal escreve a célebre "Lettre sur Ia mort".
1652 -
14 de março — Pascal oferece à rainha Cristina da Suécia um exemplar da sua
máquina de somar, acompanhado de uma carta dedicatória.
1652, - 8 de julho — Pascal fabrica o modelo definitivo da sua máquina
aritmética, que se acha atualmente no Conservatório de Artes e Ofícios, de
Paris.
1652 ou 1653 — Pascal escreve os célebres pensamentos sobre o amor
"Discours sur les passions de 1'amour".
1653 - 6 de junho —
Pascal escreve os tratados sobre os líquidos e sobre o peso da massa
atmosférica, "Traité dês liqueurs", "Traité de Ia pesanteur de
Ia masse de l'air".
1654 — Pascal escreve os
tratados sobre o triângulo aritmético e sobre a ordem numérica, "Traité du
triangle arithmetique", "Traité dês ordres numériques". Escreveu
ao mesmo tempo uma série de pequenos trabalhos matemáticos e geométricos, em
latim.
1654 - junho-outubro —
Correspondência de Pascal com o célebre físico Fermat. 1654 — Acidente na ponte
de Neuilly.
1654 -
23 a 24 denovembro — Profunda
experiência religiosa de Pascal, início da sua "conversão" definitiva
à vida espiritual.
1654/55 —
Pascal escreve um tratado sobre o espírito da geometria, "Traité de
1'esprit géometrique".
1655 — Pascal associa-se aos eremitas de Port-Royal dês
Champs.
1655 - 19 de janeiro
— Carta de Jacqueline a seu irmão Blaise sobre a conversão dele. 1655 -
dezembro — Pascal em Paris.
1655
— Pascal entretém-se com o grande M. de Sacy sobre a vida cristã 22 de maio — É
concedida a Pascal patente de invenção para sua máquina aritmética.
1656 - 23 de janeiro
— Pascal publica a primeira das suas famosas "lettres Provinciales".
1656 — Correspondência de Pascal com Mlle.
Roannez, irmã do duque Roannez, sobre a vida espiritual.
1657 - 24 de março —
Pascal publica a sua última (18ª) "Lettre Provinciale".
1657 - 6 de setembro — A Congregação Romana do
Index condena as "Lettres Provinciales".
1657/62 — Pascal trabalha na
sua Apologia da Religião, intitulada, mais tarde, pelos editores,
"Pensées".
1658 - 11 de junho — Pascal institui o
concurso sobre a "roulette" ou a ciclóide (1).
1658 - 25 de novembro — Apuração do concurso
sobre a ciclóide.
1658/59 — Diversos
trabalhos de Pascal sobre matemática e geometria. '
1658 ou 1659 — Pascal expõe, numa conferência,
o plano da sua Apologia da Religião ("Pensées").
1656, fevereiro — Expulsão das monjas e dos
eremitas de Port-Royal.
1661 - 6 de outubro — Morte de Jaqueline, irmã
e conselheira espiritual de Pascal.
1662 - janeiro — Pascal estabelece a primeira
empresa de omnibus em Paris e obtém para a mesma carta patente da autoridade
pública. 1662 - 3 de agosto — Testamento espiritual de Pascal.
1662 - 19 de agosto —
Morte piedosa de Blaise Pascal, com 39 anos de idade. ROHDEN, Humberto. Pascal: O Homem que Apelou da Razão Para o Coração e De Roma Para Deus. 3a Ed. União Cultural Editora Ltda. - São Paulo, 1981, p. 18.
É bom, senhor, que saibais o que se vos deve a fim de que não pretendais exigir dos homens o que não vos é devido; pois isso é uma injustiça visível: e contudo ela é muito comum àqueles de vossa condição, porque desta eles ignoram a natureza.
Há no mundo dois tipos de grandezas; pois há grandezas
de estabelecimento e grandezas naturais. As grandezas de estabelecimento dependem da vontade
dos homens que acreditaram com razão dever honrar alguns estados e a eles
atribuir alguns respeitos. A dignidade e a nobreza são desse gênero. Em um país
são honrados os nobres, noutro os plebeus; neste aqui os primogênitos, naquele
outros os caçulas. Por que isto? Porque aprouve aos homens. A coisa era
diferente antes do estabelecimento; após o estabelecimento ela se torna justa,
porque é injusto perturbá-la.
As grandezas naturais são as que são independentes da
fantasia dos homens, porque elas consistem nas qualidades reais e efetivas da
alma e do corpo, qualidades que tornam uma ou outro mais estimável, como as
ciências, a luz do espírito, a virtude, a saúde, a força.
Devemos
alguma coisa a uma e a outra dessas grandezas; mas como são de uma natureza
diferente, devemo-lhes também diferentes respeitos.
Às grandezas de estabelecimento, devemo-lhes respeitos
de estabelecimentos, isto é, algumas cerimônias exteriores que devem ser, não
obstante, acompanhadas, segundo a razão, de um reconhecimento interior da
justiça dessa ordem, mas que não nos fazem conceber alguma qualidade real
naqueles que honramos desse modo. É
preciso falar aos reis de joelhos; é preciso manter-se em pé no quarto dos
príncipes. É
somente uma tolice e uma baixeza de espírito recusar-lhes esses deveres.
Mas para os respeitos naturais, que consistem na
estima, nós os devemos somente às grandezas naturais; e devemos, ao contrário,
o desprezo e a aversão às qualidades contrárias a essas grandezas naturais. Não é necessário, porque sois duque, que
eu vos estime; mas é necessário que eu vos saúde. Se sois duque e honnête
homme,[1]
farei o que devo a uma e a outra dessas qualidades. Não vos recusarei absolutamente as cerimônias que
vossa condição de duque merece, nem a estima que merece a de honnête homme. Mas se fôsseis duque sem ser
honnête homme, eu vos faria ainda justiça; pois vos cumprindo os respeitos
exteriores que a ordem dos homens atribuiu a vosso nascimento, não deixaria de
ter por vós o desprezo interior que mereceria a baixeza de vosso espírito.
Eis em que consiste a justiça desses deveres. E a injustiça consiste em atribuir os
respeitos naturais às grandezas de estabelecimento ou em exigir os respeitos de
estabelecimento para as grandezas naturais. M. N... é um maior geômetra que eu;
nessa qualidade ele quer me preceder: eu lhe direi que disso não entende nada.
A geometria é uma grandeza natural; ela requer uma preferência de estima; mas
os homens não lhe atribuíram nenhuma preferência exterior. Passar-lhe-ei, portanto,
adiante; e o estimarei mais que eu, na qualidade de geômetra.[2]
Do mesmo modo se, sendo duque e igual, vós não vos contentásseis que eu me
mantenha às claras diante de vós, e que quisésseis ainda que eu vos estimasse,
eu vos pediria mostrar-me as qualidades que merecem minha estima. Se o fizésseis, ela vos seria adquirida,
e eu não vos a poderia recusar com justiça; mas se não o fizésseis, seríeis
injusto ao ma solicitar, e seguramente não a teríeis alcançado, fósseis o maior
príncipe do mundo.
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[1]Honnête homme: o
equivalente, no francês do século 17, ao nosso “homem de bem”; é a influência,
sobre a idade clássica, do spoudaíos ou do andrós agathoû aristotélicos. Em
outras palavras, é o indivíduo socialmente considerado bom e virtuoso.
[2]Isto é, sendo M. N. maior geômetra que eu, posso anteceder-me a ele,
exteriormente, em honras exteriores; porém, reconhecendo-o como maior geômetra,
devo reconhecer esta sua qualidade natural à qual devo estima. O contrário
disso seria injustiça.
Nota:
**De acordo com Antônio G. Da Silva, "o segundo discurso adverte contra o defeito de se considerar senhor de tudo e acima de todos. pouco importando as qualidades e virtudes que devem honrar a pessoa de todo o governante, ao exigir o respeito e a submissão dos outros, o dignitário deve cultivar o respeito que deve a seus semelhantes e subalternos". Já para Henrique Barrilaro Ruas, "dá-se a separação implacável entre o que vem de Deus e o que é obra do homem: o que Deus nos dá, e merece portanto o respeito dos outros; o que a sociedade nos atribui, e apenas implica um respeito conencional. De novo, a perfeita dicotomia. Como se nenhum significado tivesse que a sociedade fosse, afinal, obra de Deus".
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Referências
SILVA, Antônio G. da. Pascal: Cientista
e Filósofo Místico. – São Paulo: Lafonte, 2012.151p. (Coleção pensamentos &
vida; v, 9).
PASCAL, Blaise. Pensamentos sobre
política: Três discursos sobre a condição dos poderosos. Textos escolhidos
e apresentados por André Comte Sponville; tradução Paulo Neves. – São Paulo:
Martins Fontes, 1994.104p – (Coleção Clássicos).
PASCAL, Blaise. Três discursos
sobre a Condição dos grandes; apresentação e tradução e notas de João Emiliano
Fortaleza de Aquino. Revista de Filosofia do mestrado acadêmico em filosofia da
UECE.- Fortaleza, v. 2 n. 4, Verão de 2005, p 201, 214.
“Tomando como ponto de partida uma passagem da
epístola de São João, Cornelius Jansenius redige seu "Discurso da Reforma
do Homem Interior" mais como obra devocional que como tratado teológico. O
autor demonstra seu pessimismo em relação à natureza humana e discorre sobre a
dependência absoluta da graça divina como único meio de vencer o pecado”.
De acordo com Andrei Venturini, tradutor da obra para o português, "a obra Discurso da Reforma do Homem Interior, de Cornelius Jansenius, descreve minunciosamente o itinerário do orgulho da alma humana depois da queda adâmica. A edição bilíngue que se apresenta permite ao leitor o contato com a imagem da tradução francesa, realizada por Roberto Arnauld d' Andilly e publicada em 1644. O texto original foi redigido em latim, em 1628, a fim de executar a reforma de um monastério beneditino". Ainda segundo ele, "a edição francesa assume uma grande importância por ter influenciado aquele que é considerado um dos herdeiros do pensamento de jansenius, a saber, Blaise Pascal. Esta obra que aguçaria consideravelmente o jovem de 23 anos que, mais tarde seria reconhecido como o grande representante do moralismo francês, esta arte que desenvolve detalhadamente as reviravoltas da concupiscência presente na irracionalidade do ser humano" [...]
Palestra de apresentação do livro "Discurso da Reforma do Homem Interior" com os professores: Luiz Felipe Pondé e Andrei Venturini Martins que traduziu e comentou a obra.
Cornelius Jansenius
Cornelius Otto Jansenius ou
Cornelius Otto Jansen, também conhecido como Jansênio (1585-1638), foi um filósofo e teólogo nederlandês. Fundou
o jansenismo, doutrina que prega o rigor moral. Iniciou seus estudos em 1602,
na Universidade de Louvain, da qual se tornou professor a partir de 1617,
liderando a teologia agostiniana, contra os jesuítas.
Em 1635, indicado pelo rei
da Espanha, tornou-se bispo de Ypres, na região flamenga da Bélgica. Morreu 3
anos depois. Jansenius, reforçando Baius, reagiu contra o antigo otimismo
pelagiano a respeito da vontade humana, tal como Agostinho e a Igreja oficial
já o haviam feito no Medievo.
Tais idéias agora reacendiam dentro do espírito
da Renascença e com os jesuítas, notadamente Molina. A radicalização da posição
agostiniana vinha ocorrendo desde Lutero e Calvino. Por isso a escola teológica
jansenista tomou o aspecto de protestantismo dentro da Igreja Católica. Teve
desdobramentos com base nos escritos de Jansênio, sobretudo após sua vida, com
Arnauld e Nicole, ao mesmo tempo cartesianos. Jansenismo Apesar de ser um
movimento teológico fundado na doutrina de Santo Agostinho sobre a
predestinação humana, o jansenismo prestigiou o cartesianismo, principalmente a
partir do Convento de Port-Royal, em Magny-les-Hameaux, a sudoeste de Paris.
O
rigorismo moral dos jansenistas não conflitava com o cartesianismo porque o
Descartes simplesmente se omitira sobre a ética e a política. Além disto
importa advertir-se que Agostinho é uma fonte comum a Descartes e ao
jansenismo.
O jansenismo
Segundo Luiz Felipe Pondé, "a abadia francesa de Port-Royal ficou
conhecida por ter abrigado intelectuais como Antoine Arnauld, Jean Racine e
Blaise Pascal. Estabelecida em Paris entre 1625 e 1626, a abadia, que passou
mais de quatro séculos no Vale de Chevreuse, ao sul de Versailles, tornou-se um
centro jansenista. Isso devido à influência de Jean Duvergier de Hauranne, o
abade de Saint-Cyran, que estudara em Louvain, onde fez amizade com o teólogo
holandês Cornelius Otto Jansen. Juntos fundaram a corrente conhecida como
jansenismo".
Esse movimento, baseado nas obras de Santo
Agostinho, buscava de forma extremamente austera o resgate da disciplina e da
moral religiosa. A polêmica de seus fundamentos estava no fato de os
jansenistas criticarem a ênfase na responsabilidade humana em detrimento da
iniciativa divina defendida por luteranos e calvinistas. Para eles, o homem já
nascia predestinado à condenação ou à salvação, independentemente de suas
ações. Desse modo, acusavam os jesuítas de buscarem brechas nos dogmas
católicos.
A participação de intelectuais importantes no
jansenismo deu ao movimento um forte caráter político. Por isso, acabou
desarticulado na França em 1705 por Luís XIV com aprovação do Papa Clemente XI.
Posteriormente, os jansenistas acabaram se concentrando principalmente na
Holanda e na Itália.
Pascal e o Jansenismo
Aos 58 anos de idade, o pai de Pascal quebrou o quadril
quando escorregou e caiu em uma rua gelada de Rouen. Pascal escolheu
dois dos melhores médicos da França, que estavam trabalhando localmente,
para o tratamento de seu pai, o que fizeram com sucesso ao longo de três meses.
Durante esse tempo, eles se tornaram amigos próximos da família.
Ambos os médicos eram jansenistas e tornaram-se
muito influentes, o que levou a uma espécie de "primeira conversão"
de Pascal, que começou a escrever sobre temas teológicos no decorrer do
ano seguinte. Seu pai morreria cinco anos mais tarde, e logo depois sua irmã Jacqueline anunciou
que iria se tornar postulante no convento jansenista de Port-Royal. Pascal ficou
desapontado, mas, no fim, com o coração pesado, permitiu que ela fosse. Isso
envolveria o fato de assinar mais da metade da herança e fez com que ele visse
o convento com desconfiança, a princípio, alegando que ele agia como uma seita
com o controle sobre sua irmã.
Entretanto, tudo isso mudou quando, em 23 de
novembro 1654, entre as 22h30min e as 0h30min, Pascal pareceu ter
tido uma intensa visão religiosa. Isso teve um impacto tão grande sobre ele que
imediatamente ele registrou a experiência - abrindo suas notas com as seguintes
palavras: "Fogo. Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos
filósofos e estudiosos... ". E concluiu citando o Salmo 119,16: "Eu
não me esquecerei da tua palavra. Amém".
Essa experiência foi tão importante que ele costurou
com cuidado o documento em seu casaco e sempre o transferia quando trocava de
roupa; mas, foi descoberto apenas por acaso depois de sua morte. Ele renovou
sua crença e seu compromisso religioso e em seguida foi fazer um retiro de duas
semanas em Port-Royal. Ele se tornou um visitante regular e começou a
escrever suas Cartas Provinciais, que foram efetivamente um ataque
sistemático contra os jesuítas, a partir de uma perspectiva jansenista. Elas
provaram ser imensamente populares, amplamente divulgadas e muito prejudiciais
para a Companhia.
Referências
JANSENIUS, Cornelius. Discurso da Reforma do Homem Interior. Comentário e tradução Andrei Venturini Martins; prefácio de Ricardo Riali Taurisano. - Sã Paulo: Filocalia, 2016
PONDÉ, Luiz Felipe. Na tragetória e obra do francês Blaise Pascal é impossível pensar sem a presença de Deus. In: Revista Cult. http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/meditacoes/2010
Instituto Humanitas Unisino (2014). O Jansenismo de Pascal. Disponível em :<http://www.ihu.unisinos.br/noticias/529733-o-jansenismo-de-pascal> Acesso em 09/06/2016.
JANSENIUS Otto Cornelius. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=OqR8qLtKeKM> Acesso em 09/06/2016
"Tédio é aquele fantasma que fica atrás da porta e a
qualquer momento pode nos encontrar. E como tentamos escapar dele? Procurando
desesperadamente por diversão. Blaise Pascal já previa que, no futuro, seriamos
dominados por lazer, barulho e juventude. Para o filósofo e escritor Luiz
Felipe Pondé, Pascal acertou em cheio".
O SER HUMANO NÃO PASSA DE DISFARCE, MENTIRA E HIPOCRISIA
Andrei Venturini Martisn
"Imagine se todos os homens
resolvessem falar a verdade. Isso seria possível ou ao menos suportável? Para o
filósofo Blaise Pascal o ser humano nada mais é do que disfarce, mentira e
hipocrisia. O professor e autor Andrei Venturini Martins discute, nesse vídeo,
a necessidade de mentir e o fato da verdade ser insuportável".
AS VERTIGENS DA RAZÃO E O MISTÉRIO DA FÉ - KERKEGAARD E PASCAL
Franlin Leopoldo e Silva
"Pascal e Kierkegaard, que viveram tempos muito
distintos da história da Europa, partilhavam a experiência radical de uma razão
que, em seus desdobramentos, atinge enfim seus limites, seus abismos, e não se
detém em suas bordas, mas neles se precipita corajosamente. A aposta de Pascal
e a ironia de Kierkegaard não são apenas criações teóricas geniais, mas
sobretudo experiências vividas, vertigens da razão que, com temor e tremor,
confronta os mistérios do sagrado e da fé".
PASCAL, FIDEÍSTA?
Flávio Fontenelle Loque
"Conferência 'Pascal
Fideísta' do professor de história da filosofia moderna da UNIFEI Flávio
Fontenelle Loque no II Colóquio sobre Ceticismo realizado na Biblioteca
Nacional.
[...] Numa entrevista a Revista CULT (2010) o filósofo, Luiz
Filipe Pondé, afirma que, “na França, Pascal é muito conhecido e estudado, mas
fora não tanto. Na Inglaterra e no Japão existem alguns scholars pascaliano,
mas, existem poucos trabalhos importantes publicados sobre Pascal fora da
França”.[1] Em
França podemos destacar alguns autores que ao longo dos anos dedicaram ao
estudo de sua obra como Jean-Louis Bischoff, Henri Gouhier, Gérard Lebrun,
Jacques Attali, Zacharie Bere, entre outros. No Brasil conhecemos algumas
traduções desses autores, mas, contamos também com alguns scholares pascalianos
e uma crescente produção acadêmica (artigos, dissertações e teses) nos últimos
anos. Entre esses scholars podemos destacar os seguintes: Jackson de
Figueiredo, Franklin Leopoldo e Silva, Luis Felipe Ponde, Luis César Olívia
Guimarães, Ivinil Parraz, Andrei Venturini Martins, entre outros [...] (ROCHA, A.N.2016, p. 8).
[1]PONDÉ,
Luiz Felipe. Na trajetória e obra do francês Blaise Pascal é impossível pensar
sem a presença de Deus. Revista Cult – Meditações. São Paulo, 2010, março de
2010. Disponível no seguinte endereço eletrônico: <
http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/meditacoes/ >. Acesso em
11/11/2014.