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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Conhecimento e Religião sobre Jansenismo no Brasil


JANSENISMO:

O Jansenismo, pode ser definido sob duas perceptivas: 

1. Conjunto de princípios estabelecidos por Cornélio Jansênio (1585-1638), bispo de Ipres condenado como herege pela Igreja Católica, que enfatizam a predestinação, negam o livre-arbítrio e sustentam ser a natureza humana por si só incapaz do bem.

 2. Movimento político que se originou do jansenismo teológico e, estimulado pela oposição dos religiosos da abadia de Port-Royal a Luís XIV, prolongou-se por todo o sec. XVIII.

JANSENISMO NO BRASIL
A obra "Jansenismo no Brasil"do Padre Amarildo José de Melo, revela como o fenômeno do jansenismo marcou profundamente o catolicismo, sobretudo no Brasil. O autor aponta a centralização da moral no pecado, o medo da condenação, a moral sexual repressiva, dentre outras questões, como consequências diretas desse fenômeno. Além de mostrar a influência do jansenismo na formação do ethos católico brasileiro, o livro revela que o fenômeno pode estar voltando com outras cores e expressões.

Segundo ele, o jansenismo chegou ao Brasil via Portugal, ainda no século XVIII. Na Metrópole, a novidade ganhou força nos tempos do Marquês de Pombal, cuja reforma pedagógica impôs nas escolas primárias o uso da tradução do Catecismo de Montpellier, elaborada pelo bispo de Évora, Dom João Cosme da Cunha (1715-1783). E, não obstante fosse mais que sabido que tal Catecismo havia sido condenado pela Igreja em 21 de janeiro de 1721, o alvará de 9 de outubro de 1770, publicado na chancelaria mor, o oficializaria.

RELIGARE: CONHECIMENTO E RELIGIÃO SOBRE JANSENISMO NO BRASIL 


O Jansenismo deixou marcas profundas na moral cristã moderna e influenciou decisivamente o ethos católico brasileiro. A centralização da moral no pecado, o rigor, o medo da condenação, os escrúpulos de consciência, a dependência da confissão, a estreita ligação entre a confissão e a eucaristia, são alguns de seus sinais, junto com uma moral sexual repressiva. Uma soteriologia profundamente expiatória integra a base desta antropologia teológica. Mas o Jansenismo tem também injunções políticas, marcantes na Europa e no Brasil. Longe de ser página virada na história, ele continua como hermenêutica de vida, presente na atualidade. E pode estar voltando hoje com outras cores e expressões. 

VER: 
http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/viewFile/7224/6704
Amarildo José de melo, é natural de Araújos-MG, é doutor em História da Teologia Moral pela Academia Alfonsiana deRoma; mestre em Teologia; licenciado em Filosofi a; membro da Sociedade Brasileira de Teologia Moral (SBTM); professor de Teologia Moral no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA-BH) e no Instituto Dom João Resende Costa (IDJ da PUC-Minas). Presbítero da diocese de Divinópolis-MG.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Blaise Pascal [Filosofia Moderna]


De acordo com Edgar Morin, o pensamento dos Pensamentos de Pascal inscreve-se no entrecruzamento de uma cultura europeia que, desde a Renascença, opõe fé e dúvida, razão e religião. No seio da cultura europeia, a cultura francesa foi aquela em que o debate/combate entre essas diversas instancias se conduziu de maneira mais radical, e Pascal foi aquele que incluiu em seu próprio espírito esse combate que se opões os espíritos na França. Em lugar de enxergar a fé, a dúvida, a razão, a religião como instâncias inimigas e naturalmente exclusivas, identificou nela elementos conflituosas, mas também complementares de sua própria tragédia interior. 

Em Pascal, a oposição entre a ordem absurda da fé e a ordem empírico-racional da ciência acompanha-se de uma complementaridade dialógica de uma e de outra. Fé, dúvida, razão, religião se reencontram, se entrecombatem e se alimentam uma da outra. A grandiosidade de Pascal é ter tornado seu enfrentamento complementar e fecundo. Essas características deveriam ter permitido reconhecer melhor a unidade complexa da obra pascaliana. Em lugar disso, o que se tem sobre essa obra são visões parciais e separadas uma da outra. 


MORIN, Edgar. Meus filósofos. 2a edição. Traduzido por Edgard de Assis Carvalho e marisa Perassi Bosco. - Porto Alegre: Sulina, 2014. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Pascal: como reconhecer a unidade complexa na obra pascaliana?

Data de Nascimento:19 de junho de 1623 em Clermont (agora Clermont-Ferrand), Auvergne, França 
Morreu em: 19 de agosto de 1662 em Paris, França
De acordo co Edgar Morim (1921), em seu livro Os Meus Filósofos, Blaise Pascal é o maior pensador, o mais próximo (ao mesmo tempo que Heráclito). Pascal é para ele as verdades mais fulgurantes que surgem bruscamente no fluxo descontínuo dos “Pensamentos”, e, afirma que o fato dessa obra não ter sido acabada aumenta sua grandiosidade. 

Segundo ele, algumas obras são grandiosas porque não formam terminadas. No caso dos “Pensamentos” de Blaise Pascal, sua forma aforística confere-lhes uma violência singular, como se vê em Nietzsche. De Acordo com Morim, se os “Pensamentos” tivesse sido concluídos, empobreceria a própria obra, uma vez que teria adquirido uma forma racionalizadora. O que definiu a originalidade dos Pensamentos, foi a morte prematura de seu autor. Morim afirma:

Li Pascal muito cedo e hoje compreende o que me pascalizava e me pascaliza para sempre: é o laço extraordinário e complementar entre a fé, a razão, a dúvida; combate, complementaridade que sempre foram os meus. (MORIM, 2014, p. 53)   
 
Certa ocasião, Morim foi convidado a proferir uma sessão de abertura na Universidade Blaise Pascal em Clermont-Ferrand, ele ficou surpreso, pois, constatou que, Pascal havia sido dividido em fragmentos separados uns dos outros: Pascal Polêmico, Pascal Jansenista, Pascal estudioso, Pascal escritor.

De acordo com Bem Roger (2001, p, 11), como polêmico, “Pascal é lido como o autor da obra-prima cartas Provinciais, um violento ataque a corrupta teologia e moral relaxada dos jesuítas e seus aliados na Igreja Católica.” Quanto ao Pascal jansenista, segundo Rossi (2004, p. 120), “é óbvio que não se pode falar de uma verdadeira conversão de Pascal ao jansenismo, mas de forte e crescente interesse por essa doutrina, vista por ele como freio salutar ao pensamento libertino e as ilusões de uma razão sempre menos instrumento e sempre mais fim e escopo indevido do homem”. Entretanto, essa tese de Rossi, parece não ser a mesma de outros estudiosos de Pascal. Jacques Attali defende que a conversão aconteceu duas ou três vezes na vida de Pascal.

Pascal conheceu o evangelho por influência do jansenismo: um movimento dentro da igreja, fundado pelo bispo holandês Cornelius Jansen (1585–1638), que preconizava uma reforma católica com base na igreja primitiva e uma espiritualidade interior. O que muitos designam como a primeira conversão, data de uma altura que o pai de Pascal sofreu um acidente. Dois jovens médicos afetos ao jansenismo que cuidaram dele, introduziram na família pascal, as ideias defendidas pelos jansenistas, vinculadas principalmente a Antoine Arbauld e Sint Cyrram. Neste sentido, podemos afirmar que, a principal influência sobre o pensamento religioso de Pascal veio do jansenismo, um movimento católico francês que enfatizava a experiência religiosa pessoal e especialmente a conversão súbita como capaz de colocar a alma em relação direta com Deus. Pascal foi tocado o que lhe levou a converter ao jansenismo tendo arrastado toda a família com ele. 
    
Já a segunda conversão aconteceu em uma data precisa (23 de novembro de 1654, numa segunda-feira à noite, “das dez e meia da noite, mais ou menos, até cerca de meia-noite e meia”) e em um lugar determinado (em seu quarto, enquanto lia a sós a oração sacerdotal de Jesus, em João 17). Na mesma ocasião, ele registrou essa experiência em um pedaço de pergaminho. Como esse escrito estava costurado no forro do seu casaco, quando morreu, oito anos depois, supõe-se que Pascal o tenha carregado na roupa o tempo todo.

Pascal é classificado como “gênio” precoce, uma vez que, desde cedo demonstrou uma inteligência que o colocava em um lugar distinto das outras crianças da sua idade. Ele foi um gênio precoce da geometria e da física, aos 12 anos publicou seu primeiro ensaio sobre o som, aos 14 já frequentava o círculo dos eruditos, aos 16 escreveu o Ensaio sobre as Cônicas, aos 19 concebe a máquina de calcular. Entre outras obras, destacamos os Pensamentos, publicados após a sua morte. Mas a unidade de Pascal, segundo Morim, permanece mal conhecida, sem dúvida porque, em si mesma, inclui a presença de componentes aparentemente antagônicos.

Em lugar de enxergar a fé, a dúvida, a razão e a religião como instâncias inimigas e mutuamente exclusivas, identificou nelas elementos conflituosos, mas também complementares de sua própria tragédia interior. Em Pascal a oposição entre a ordem absurda da fé e da ordem empírico-racional da ciência acompanha-se de uma complementaridade dialógica de uma e de outra.

Fé, dúvida, razão, religião se encontram, se entrecombatem e se alimentam uma da outra. A grandiosidade de Pascal é ter tornado seu enfrentamento complementar e fecundo. Essas características deveriam ter permitido reconhecer melhor a unidade complexa da obra pascaliana. Em lugar disso, o que se tem sobre essa obra são visões parciais e separadas uma da outra. 
        
Referências
ROSSI, Roberto. Introdução à Filosofia: histórias e sistemas. - 2ª Ed. Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2004.
ROOGERS, Bem. Pascal: elogio do efêmero. Tradução de Luiz Felipe Pondé. – São Paulo : Editora UNESP, 2001.- (Coleção grandes filósofos).
MORIM, Edgar. Meus filósofos. - 2ª edição. Traduzido por Edgard de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco.- Porto Alegre: Sulina, 2014.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O LEGADO DE BLAISE PASCAL


Hoje, 19 de Agosto de 2016, comemoram-se os 354 anos da morte de Blaise Pascal. Pascal morreu aos 19 de agosto de 1662 com apenas 39 anos e deixou uma obra prodigiosamente fecunda tanto no domínio das ciências, da filosofia, da política e da teologia, tendo escrito nos últimos anos de sua vida uma Apologia ao Cristianismo. Algumas fontes apontam para a causa da morte como tuberculose, mas foi feito uma necrópsia em seu corpo e foi detectado graves problemas de estômago e foi constatado que seu cérebro estava bastante danificado, o que se sugere um câncer de estômago que se alastrou até o cérebro. Em vida, Pascal sofria fortes dores de cabeça e de fato ele teve os sintomas de tuberculose antes da morte. 



NASCIMENTO: 19 de Junho de 1623 - Clermont-Ferrand, França.
MORTE: 19 de agosto de 1662 - Paris, França.
CAUSA DA MORTE: Câncer no estômago.

De nacionalidade francesa, Blaise Pascal Pascal, matemático, físico, inventor, escritor e filósofo cristão. Foi uma criança "prodígia" que foi educado pelo pai. Os primeiros trabalhos dele foram em ciências naturais e aplicadas onde ele trouxe contribuições importantes ppara o estudo de fluídos e esclareceu os conceitos de pressão e vácuo. generalizando o trabalho de Evangilista Torricelli. Pascal também escreveu em defesa da religião, sua obra mais importante é de caráter teológico conhecido como Pensées (Pensamentos) publicada após sua morte. Pascal é listado como um dos melhores polemistas franceses de sua época, especialmente e, em particular, pela sua falta de artificio, ele impressionava seus leitores com o uso da lógica e pela força de sua dialética. 

Educação de Pascal

O pai de Blaise Pascal, Étienne Pascal, teve uma educação ortodoxa e decidiu educar seu filho na mesma direção. Ele decidiu que seu filho não devia estudar matemática antes dos 15 anos, por isso, todos os materiais foram retirados de sua casa. Pascal, no entanto, era curioso sobre tudo isso e começou a trabalhar em geometria com a idade de 12 anos. Ele descobriu que a soma dos ângulos de um triângulo são dois ângulos retos. Quando seu pai descobriu isso cedeu e deu Pascal um texto de Euclides.

Pascal Cientista

Pascal foi educado por seu pai, que lhe deu uma formação científica e humanística, mas, inicialmente seu interesse estava focado em matemática e física. Aos 14 anos ele participava de reuniões científicas do Padre Mersenne que pertencia a ordem religiosa dos Mínimos e sua casa em Paris era um ponto de encontro frequente para Fermat, Gassendi, e outros intelectuais. No entanto, ele não manifesta tanto interesse em ciência como Descartes; muito mais cético sobre o possível alcance do nosso conhecimento sobre a natureza, concebia a ciência como uma atividade destinada a apontar resultados aproximados de alguma coisa, capaz de orientar a ação humana, mas não é capaz de expressar a essência última das coisas. Aos 16 anos, ele escreveu seu "Ensaio Sobre as Cônicas", com a idade de 18 inventou uma máquina de calcular e realizou inúmeros experimentos científicos expostos no "Tratado sobre o peso da massa de ar" e o "Tratado Sobre o Equilíbrio dos Líquidos”. Seus trabalhos são relacionados com problemas diversos da matemática e da física, o trabalho influenciou decisivamente o posterior desenvolvimento da ciência do seu tempo.

Ele pode ser considerado como o fundador do cálculo das probabilidades, formulado em 1654 como Geometria do Acaso em sua correspondência com Fermat. O Tratado do Triangulo Aritmético, prolonga essas ideias e mostra a importância do triângulo em questões como o cálculo combinado e o cálculo da potência de um binômio. A partir dessa data, ele interrompeu quase completamente seu trabalho científico, embora ele contribuiu em 1658 com outra obra fundamental "Lettres A. Dettonville contentant quelques unes de ses invenções de geometrie" que resolve vários problemas relacionados com a ciclóide que tinha proposto aos mais importantes cientistas de sua época e nenhum deles conseguiu desvendar.

Seu pensamento é determinado pelo seu status de cientista que desconfia da razão para abraçar os problemas fundamentais da vida e sua profunda religiosidade onde encontra a salvação para não cair na filosofia do absurdo. Isso o leva a admitir dois princípios do conhecimento: o espírito geométrico (razão), orientada as razões científicas e o espirito de finesse (coração), que são na forma de intuições princípios básicos para a compreensão da vida e até mesmo os princípios fundamentais que começa toda a ciência.



Pascal filósofo e teólogo

Sua doutrina filosófica é destinada a uma Apologia do Cristianismo. Em 1646 entra em contato com a religião através das obras de A. Arnauld. Converteu-se ao jansenismo e arrastou com ele toda a sua família. Em 1654, após um período dedicado à vida mundana, acontece a segunda conversão como resultado de uma segunda experiência religiosa que ocorreu na noite de 23 de Novembro do mesmo ano. Ele intensificou sua religiosidade e juntou-se à comunidade dos solitários de Port-Royal. A partir deste centro religioso e intelectual foi realizada uma série de polêmicas com os jesuítas, em torno do pecado e da graça, onde interveio Pascal com a publicação das suas famosas "Cartas Provinciais" verdadeiros monumentos da literatura francesa e mundial. A sua filosofia é um tratado contra o intelectualismo cartesiano, cuja finalidade foi exclusivamente apologética, podemos citar a teoria das duas faculdades de conhecimento, sua ideia do homem como situado entre dois infinitos, superando o ceticismo e o paradoxo humano pela fé, sua teoria de que o valor supremo é a santidade suas concepções são principalmente expressas nas Cartas de "Louis de Montalte" a um provincial sobre a moral, política e religião. 

De acordo com Pascal, razão e coração são dois caminhos igualmente válidos do saber, e talvez o segundo é superior à abstração racional, como expõe, dizendo: "Conhecemos a verdade não só com a razão, mas também com o coração" e "o coração tem razões que a razão não conhece". Ambos conduzem a verdade, mas com lógica e mecanismos diferentes. Através do coração a realidade é atingida em sua singularidade e mesmo Deus se manifesta ao homem através do coração. Nesta demonstração e aceitação de Deus através do coração Pascal chama de fé, princípio necessário para viver como homens e alcançar a divindade. Mediante esta fé e este conhecimento por sentimento não se opera só como uma parte do homem, como ocorre com o conhecimento abstrato e racional.

No entanto, a fé e a captação de Deus é o mais importante para a vida do homem, mas, não é concedida gratuitamente e sem esforço, há que buscá-lo com determinação. Esta busca é realizada com base no reconhecimento da grandeza e da miséria do homem, que está entre o infinito e do nada. O ponto de partida é, portanto, reconhecer os limites que o homem se encontra. Tal reconhecimento é sempre doloroso e uma prova disso é a "diversão" pela qual o homem chega a uma extroversão ou diversão, para escapar de si mesmo. O homem precisa voltar para si mesmo, e, reconhecer suas próprias limitações, buscar a Deus e aceitar as razões do coração que o colocou em contato com Ele.

Pascal Político

A reflexão política de Pascal incide sobre aquilo que os homens não deixam de apresentar no espaço social, ou seja, signos, visando legitimar sua autoridade face aos demais. Ele é considerado um extraordinário teórico da política, mas ainda desconhecido, uma vez que, seu pensamento político encontra-se dissolvido em diversos fragmentos na sua obra maior, Pensées, (Pensamentos), e por isso, durante muito tempo sua erudição política permaneceu desconhecida do grande público. Pascal se vê na pele de um sociólogo e político, um cidadão integrado na sociedade de sua época preocupado com a política e com os governantes, que no final da sua vida pronuncia palavras que mais tarde seriam transformados na obra que hoje conhecemos como “Os três Discursos sobre a condição dos Grandes”.

Pascal analisa o mistério que marca a condição humana, revelando “uma sensibilidade aguda para o fato de que o homem parece ser, um ser que, quando exposto a demasiada luz, se dissolve”. O conhecimento das coisas é um conhecimento do meio (milieu), isto é, um conhecimento das aparências. Ele submete todo tipo de atitude e conhecimento a uma contingência irremediável. o que nos leva a verificar que a "insuficiência humana" é algo passível de ser constatada de forma empírica em todas as dimensões da vida humana. "A hipótese explicativa do mito da queda é uma forma de iluminar um fato que por si só se impõe", ou seja, o ser humano é empiricamente corrompido.

Sobre a matéria dos “grandes”, presente nos Três discursos Sobre a Condição dos Grandes, editados postumamente por Pierre Nicole, pode-se concluir que, ao contrário de alguns, temerosos de um Pascal revolucionário, seu discurso político é legitimado pelas bases clássicas, que são claras em autores anteriores. Para Pascal, prevenir qualquer revolta é a garantia da paz no Estado. Para tanto, não basta a arte do bem governar: é preciso usar a força. Ora, como a força não se deixa manipular por se tratar de uma qualidade palpável, ao passo que a justiça se presta a isso, por ser uma qualidade espiritual, manipula-se a justiça para justificar a força. Esvaziado o velho conceito de justiça: "dar a cada um o que lhe é devido", esta passa a ser o disfarce da força. Os homens passaram a conviver em paz, apesar da concupiscência. Mas, para que essa convivência seja pacífica, é preciso adequar a justiça ao reino da concupiscência.

Pensées (Pensamentos) de Pascal

A obra Pensamentos é de autoria de pascal, mas o título foi conferido pelos editores que publicaram o texto após a sua morte. Toma-se como edição mais importante a de 1670, que já aparece com a indicação de 2ª edição, porque no ano anterior havia sido publicada a primeira, mas com pequena tiragem e restrita ao seu conteúdo. Isso não é difícil de explicar, uma vez que pascal deixou como textos inéditos grande número de pastas contendo ideias, reflexões, pensamentos opiniões lançados no papel sem ordem alguma que o faziam parte de um projeto de um livro destinado a fazer uma apologia da religião cristã. Ante a morte permatura de pascal, célebre como cientista e pensador, os editores se empenharam em publicar seus escritos, mas se depararm com um acumulo impressionante de esboços, textos dispersos e muitos, inclusive, incompletos e interrompidos. Decidiram, no entanto, publicar a obra. conferindo certa ordem às anotações do autor, e concordam em dar à obra o título de pensamentos.

Por essas razões, as primeiras edições divergem entre si. Além do mais cada editor conferia aos papeis deixados pelo autor a ordem que bem entendia e acrescentava alguns pensamentos a mais que o outro. Depois de dois séculos de diferentes edições, apareceu em 1897 a edição de Brunschvicq, considerada como definitiva durante décadas por muitos pesquisadores e estudiosos. Em 1951, porém, a questão foi reaberta com a edição de Lafuma, organizada de forma diferente, embora o conteúdo fosse o mesmo. As edições posteriores de outros editores respeitam ora uma ora outra das duas anteriores, com diferenciações irrelevantes. Ad edições desses últimos anos reproduzem a de Brunschvicq, indicando a numeração dos pensamentos constante daquela de Lafuma, ou vice versa.  




Referências: 

CASTILLO, Carlos. El Legado de Blaise Pascal. Publicada em 14 de dezembro de 2011. Disponível em: < http://ellegadodeblaisepascal.blogspot.com.br/>, acessado em 19/08/2016.

ROCHA, Arlindo Nascimento. Uma Leitura Atual Sobre a Construção Política e Social na Filosofia de Blaise Pascal. In: Rev. Parlamento e Sociedade. São Paulo, v. 2 n. 3, p. 53-69, jul./dez. 2014. Disponível em: < http://www.camara.sp.gov.br/escoladoparlamento/wp-content/uploads/sites/5/2015/05/REVISTA_PARLAMENTO_SOCIEDADE_2015_WEB.pdf >, acesso em 19/08/2016.

SILVA, A. G. PASCAL: Cientista e Filósofo Místico. São Paulo: Lafonte, 2011. (Coleção Filosofia Comentada).     



quarta-feira, 29 de junho de 2016

principais Fatos da Vida de Blaise Pascal


1623 - 19 de junho — Nascimento de Blaise Pascal.
1633 - Pascal, aos 10 anos, estuda geometria por conta própria e escreve "Traité des sons" (tratado sobre os sons).
1638/39 - Aos 15 e 16 anos, Pascal elabora o "Traité dês sections coniques" (tratado sobre as secções cênicas) e publica, com espanto do mundo científico, os "Essais pour lês coniques" (ensaios para os cones).
1640/42 — Pascal trabalha na construção da sua máquina aritmética. Primeiro abalo grave de sua saúde.
1644 — Pascal faz presente de um exemplar da sua máquina aritmética ao "Grande Conde" (Luiz II).
1646 — Primeira "conversão" de Pascal pelos jansenistas, La Bouteillerie e Deslandes. Pascal "converte" sua genial irmã Jacqueline.




1647- 23 de setembro — Pascal tem, em Paris, uma entrevista com o célebre filósofo Descartes.
 1647 - 4 de outubro — Pascal publica o seu tratado sobre o vácuo "Nouvelles éxperiences touchant lê vide".
1647 — Polêmica com o Jesuíta Noel sobre a teoria do vácuo.
1647/51 — Pascal elabora o "Tratado sobre o vácuo".
 1648 - janeiro - Primeiras relações diretas de Pascal com Port-Royal.
1648 - setembro — Pascal publica o célebre esboço sobre o equilíbrio dos líquidos "Récit de Ia grande éxperience de 1'équilibre dês liqueurs".
1649 - 22 de maio — É concedida a Pascal patente de invenção para sua máquina aritmética. 1651 — Princípio das relações de amizade de Pascal com o duque Roannez.
1651 - 24 de setembro — Morte do pai de Pascal.
1651 - 17 de setembro — Pascal escreve a célebre "Lettre sur Ia mort".
1652 - 14 de março — Pascal oferece à rainha Cristina da Suécia um exemplar da sua máquina de somar, acompanhado de uma carta dedicatória.
1652, - 8 de julho — Pascal fabrica o modelo definitivo da sua máquina aritmética, que se acha atualmente no Conservatório de Artes e Ofícios, de Paris.
1652 ou 1653 — Pascal escreve os célebres pensamentos sobre o amor "Discours sur les passions de 1'amour".
1653 - 6 de junho — Pascal escreve os tratados sobre os líquidos e sobre o peso da massa atmosférica, "Traité dês liqueurs", "Traité de Ia pesanteur de Ia masse de l'air".
1654 — Pascal escreve os tratados sobre o triângulo aritmético e sobre a ordem numérica, "Traité du triangle arithmetique", "Traité dês ordres numériques". Escreveu ao mesmo tempo uma série de pequenos trabalhos matemáticos e geométricos, em latim.
1654 - junho-outubro — Correspondência de Pascal com o célebre físico Fermat. 1654 — Acidente na ponte de Neuilly.
1654 - 23 a 24 de novembro — Profunda experiência religiosa de Pascal, início da sua "conversão" definitiva à vida espiritual.
1654/55 — Pascal escreve um tratado sobre o espírito da geometria, "Traité de 1'esprit géometrique".
1655 — Pascal associa-se aos eremitas de Port-Royal dês Champs.
1655 - 19 de janeiro — Carta de Jacqueline a seu irmão Blaise sobre a conversão dele. 1655 - dezembro — Pascal em Paris.
1655 — Pascal entretém-se com o grande M. de Sacy sobre a vida cristã 22 de maio — É concedida a Pascal patente de invenção para sua máquina aritmética.
1656 - 23 de janeiro — Pascal publica a primeira das suas famosas "lettres Provinciales".
1656 — Correspondência de Pascal com Mlle. Roannez, irmã do duque Roannez, sobre a vida espiritual.
1657 - 24 de março — Pascal publica a sua última (18ª) "Lettre Provinciale".
1657 - 6 de setembro — A Congregação Romana do Index condena as "Lettres Provinciales".
1657/62 — Pascal trabalha na sua Apologia da Religião, intitulada, mais tarde, pelos editores, "Pensées".
1658 - 11 de junho — Pascal institui o concurso sobre a "roulette" ou a ciclóide (1).
1658 - 25 de novembro — Apuração do concurso sobre a ciclóide.
1658/59 — Diversos trabalhos de Pascal sobre matemática e geometria. '
1658 ou 1659 — Pascal expõe, numa conferência, o plano da sua Apologia da Religião ("Pensées").
1656, fevereiro — Expulsão das monjas e dos eremitas de Port-Royal.
1661 - 6 de outubro — Morte de Jaqueline, irmã e conselheira espiritual de Pascal.
1662 - janeiro — Pascal estabelece a primeira empresa de omnibus em Paris e obtém para a mesma carta patente da autoridade pública. 1662 - 3 de agosto — Testamento espiritual de Pascal.
1662 - 19 de agosto — Morte piedosa de Blaise Pascal, com 39 anos de idade.


ROHDEN, Humberto. Pascal: O Homem que Apelou da Razão Para o Coração e De Roma Para Deus. 3a Ed. União Cultural Editora Ltda. - São Paulo, 1981, p. 18. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

SEGUNDO DISCURSO SOBRE A CONDIÇÃO DOS GRANDES




Segundo Discurso** 

É bom, senhor, que saibais o que se vos deve a fim de que não pretendais exigir dos homens o que não vos é devido; pois isso é uma injustiça visível: e contudo ela é muito comum àqueles de vossa condição, porque desta eles ignoram a natureza.

Há no mundo dois tipos de grandezas; pois há grandezas de estabelecimento e grandezas naturais. As grandezas de estabelecimento dependem da vontade dos homens que acreditaram com razão dever honrar alguns estados e a eles atribuir alguns respeitos. A dignidade e a nobreza são desse gênero. Em um país são honrados os nobres, noutro os plebeus; neste aqui os primogênitos, naquele outros os caçulas. Por que isto? Porque aprouve aos homens. A coisa era diferente antes do estabelecimento; após o estabelecimento ela se torna justa, porque é injusto perturbá-la.

As grandezas naturais são as que são independentes da fantasia dos homens, porque elas consistem nas qualidades reais e efetivas da alma e do corpo, qualidades que tornam uma ou outro mais estimável, como as ciências, a luz do espírito, a virtude, a saúde, a força.

Devemos alguma coisa a uma e a outra dessas grandezas; mas como são de uma natureza diferente, devemo-lhes também diferentes respeitos.

Às grandezas de estabelecimento, devemo-lhes respeitos de estabelecimentos, isto é, algumas cerimônias exteriores que devem ser, não obstante, acompanhadas, segundo a razão, de um reconhecimento interior da justiça dessa ordem, mas que não nos fazem conceber alguma qualidade real naqueles que honramos desse modo. É preciso falar aos reis de joelhos; é preciso manter-se em pé no quarto dos príncipes. É somente uma tolice e uma baixeza de espírito recusar-lhes esses deveres.

Mas para os respeitos naturais, que consistem na estima, nós os devemos somente às grandezas naturais; e devemos, ao contrário, o desprezo e a aversão às qualidades contrárias a essas grandezas naturais. Não é necessário, porque sois duque, que eu vos estime; mas é necessário que eu vos saúde. Se sois duque e honnête homme,[1] farei o que devo a uma e a outra dessas qualidades. Não vos recusarei absolutamente as cerimônias que vossa condição de duque merece, nem a estima que merece a de honnête homme. Mas se fôsseis duque sem ser honnête homme, eu vos faria ainda justiça; pois vos cumprindo os respeitos exteriores que a ordem dos homens atribuiu a vosso nascimento, não deixaria de ter por vós o desprezo interior que mereceria a baixeza de vosso espírito.

Eis em que consiste a justiça desses deveres. E a injustiça consiste em atribuir os respeitos naturais às grandezas de estabelecimento ou em exigir os respeitos de estabelecimento para as grandezas naturais. M. N... é um maior geômetra que eu; nessa qualidade ele quer me preceder: eu lhe direi que disso não entende nada. A geometria é uma grandeza natural; ela requer uma preferência de estima; mas os homens não lhe atribuíram nenhuma preferência exterior. Passar-lhe-ei, portanto, adiante; e o estimarei mais que eu, na qualidade de geômetra.[2] Do mesmo modo se, sendo duque e igual, vós não vos contentásseis que eu me mantenha às claras diante de vós, e que quisésseis ainda que eu vos estimasse, eu vos pediria mostrar-me as qualidades que merecem minha estima. Se o fizésseis, ela vos seria adquirida, e eu não vos a poderia recusar com justiça; mas se não o fizésseis, seríeis injusto ao ma solicitar, e seguramente não a teríeis alcançado, fósseis o maior príncipe do mundo.

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[1] Honnête homme: o equivalente, no francês do século 17, ao nosso “homem de bem”; é a influência, sobre a idade clássica, do spoudaíos ou do andrós agathoû aristotélicos. Em outras palavras, é o indivíduo socialmente considerado bom e virtuoso. 
[2] Isto é, sendo M. N. maior geômetra que eu, posso anteceder-me a ele, exteriormente, em honras exteriores; porém, reconhecendo-o como maior geômetra, devo reconhecer esta sua qualidade natural à qual devo estima. O contrário disso seria injustiça.

Nota: 
**De acordo com Antônio G. Da Silva, "o segundo discurso adverte contra o defeito de se considerar senhor de tudo e acima de todos. pouco importando as qualidades e virtudes que devem honrar a pessoa de todo o governante, ao exigir o respeito e a submissão dos outros, o dignitário deve cultivar o respeito que deve a seus semelhantes e subalternos". Já para Henrique Barrilaro Ruas, "dá-se a separação implacável entre o que vem de Deus e o que é obra do homem: o que Deus nos dá, e merece portanto o respeito dos outros; o que a sociedade nos atribui, e apenas implica um respeito conencional. De novo, a perfeita dicotomia. Como se nenhum significado tivesse que a sociedade fosse, afinal, obra de Deus".  
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Referências 
SILVA, Antônio G. da. Pascal: Cientista e Filósofo Místico. – São Paulo: Lafonte, 2012.151p. (Coleção pensamentos & vida; v, 9).
PASCAL, Blaise. Pensamentos sobre política: Três discursos sobre a condição dos poderosos. Textos escolhidos e apresentados por André Comte Sponville; tradução Paulo Neves. – São Paulo: Martins Fontes, 1994.104p – (Coleção Clássicos). 
PASCAL, Blaise. Três discursos sobre a Condição dos grandes; apresentação e tradução e notas de João Emiliano Fortaleza de Aquino. Revista de Filosofia do mestrado acadêmico em filosofia da UECE.- Fortaleza, v. 2 n. 4, Verão de 2005, p 201, 214.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

DISCURSO DA REFORMA DO HOMEM INTERIOR

“Tomando como ponto de partida uma passagem da epístola de São João, Cornelius Jansenius redige seu "Discurso da Reforma do Homem Interior" mais como obra devocional que como tratado teológico. O autor demonstra seu pessimismo em relação à natureza humana e discorre sobre a dependência absoluta da graça divina como único meio de vencer o pecado”.

De acordo com Andrei Venturini, tradutor da obra para o português, "a obra Discurso da Reforma do Homem Interior, de Cornelius Jansenius, descreve minunciosamente o itinerário do orgulho da alma humana depois da queda adâmica. A edição bilíngue que se apresenta permite ao leitor o contato com a imagem da tradução francesa, realizada por Roberto Arnauld d' Andilly e publicada em 1644. O texto original foi redigido em latim, em 1628, a fim de executar a reforma de um monastério beneditino".

Ainda segundo ele, "a edição francesa assume uma grande importância por ter influenciado aquele que é considerado um dos herdeiros do pensamento de jansenius, a saber, Blaise Pascal. Esta obra que aguçaria consideravelmente o jovem de 23 anos que, mais tarde seria reconhecido como o grande representante do moralismo francês, esta arte que desenvolve detalhadamente as reviravoltas da concupiscência presente na irracionalidade do ser humano" [...]  


Palestra de apresentação do livro "Discurso da Reforma do Homem Interior" com os professores: Luiz Felipe Pondé e Andrei Venturini Martins que traduziu e comentou a obra.  
   

Cornelius Jansenius 

Cornelius Otto Jansenius ou Cornelius Otto Jansen, também conhecido como Jansênio (1585-1638), foi um filósofo e teólogo nederlandês. Fundou o jansenismo, doutrina que prega o rigor moral. Iniciou seus estudos em 1602, na Universidade de Louvain, da qual se tornou professor a partir de 1617, liderando a teologia agostiniana, contra os jesuítas. 

Em 1635, indicado pelo rei da Espanha, tornou-se bispo de Ypres, na região flamenga da Bélgica. Morreu 3 anos depois. Jansenius, reforçando Baius, reagiu contra o antigo otimismo pelagiano a respeito da vontade humana, tal como Agostinho e a Igreja oficial já o haviam feito no Medievo. 

Tais idéias agora reacendiam dentro do espírito da Renascença e com os jesuítas, notadamente Molina. A radicalização da posição agostiniana vinha ocorrendo desde Lutero e Calvino. Por isso a escola teológica jansenista tomou o aspecto de protestantismo dentro da Igreja Católica. Teve desdobramentos com base nos escritos de Jansênio, sobretudo após sua vida, com Arnauld e Nicole, ao mesmo tempo cartesianos. Jansenismo Apesar de ser um movimento teológico fundado na doutrina de Santo Agostinho sobre a predestinação humana, o jansenismo prestigiou o cartesianismo, principalmente a partir do Convento de Port-Royal, em Magny-les-Hameaux, a sudoeste de Paris. 

O rigorismo moral dos jansenistas não conflitava com o cartesianismo porque o Descartes simplesmente se omitira sobre a ética e a política. Além disto importa advertir-se que Agostinho é uma fonte comum a Descartes e ao jansenismo. 

O jansenismo

 Segundo Luiz Felipe Pondé, "a abadia francesa de Port-Royal ficou conhecida por ter abrigado intelectuais como Antoine Arnauld, Jean Racine e Blaise Pascal. Estabelecida em Paris entre 1625 e 1626, a abadia, que passou mais de quatro séculos no Vale de Chevreuse, ao sul de Versailles, tornou-se um centro jansenista. Isso devido à influência de Jean Duvergier de Hauranne, o abade de Saint-Cyran, que estudara em Louvain, onde fez amizade com o teólogo holandês Cornelius Otto Jansen. Juntos fundaram a corrente conhecida como jansenismo".

Esse movimento, baseado nas obras de Santo Agostinho, buscava de forma extremamente austera o resgate da disciplina e da moral religiosa. A polêmica de seus fundamentos estava no fato de os jansenistas criticarem a ênfase na responsabilidade humana em detrimento da iniciativa divina defendida por luteranos e calvinistas. Para eles, o homem já nascia predestinado à condenação ou à salvação, independentemente de suas ações. Desse modo, acusavam os jesuítas de buscarem brechas nos dogmas católicos.


A participação de intelectuais importantes no jansenismo deu ao movimento um forte caráter político. Por isso, acabou desarticulado na França em 1705 por Luís XIV com aprovação do Papa Clemente XI. Posteriormente, os jansenistas acabaram se concentrando principalmente na Holanda e na Itália.

Pascal e o Jansenismo 
Aos 58 anos de idade, o pai de Pascal quebrou o quadril quando escorregou e caiu em uma rua gelada de Rouen. Pascal escolheu dois dos melhores médicos da França, que estavam trabalhando localmente, para o tratamento de seu pai, o que fizeram com sucesso ao longo de três meses. Durante esse tempo, eles se tornaram amigos próximos da família.

Ambos os médicos eram jansenistas e tornaram-se muito influentes, o que levou a uma espécie de "primeira conversão" de Pascal, que começou a escrever sobre temas teológicos no decorrer do ano seguinte. Seu pai morreria cinco anos mais tarde, e logo depois sua irmã Jacqueline anunciou que iria se tornar postulante no convento jansenista de Port-Royal. 

Pascal ficou desapontado, mas, no fim, com o coração pesado, permitiu que ela fosse. Isso envolveria o fato de assinar mais da metade da herança e fez com que ele visse o convento com desconfiança, a princípio, alegando que ele agia como uma seita com o controle sobre sua irmã.

Entretanto, tudo isso mudou quando, em 23 de novembro 1654, entre as 22h30min e as 0h30min, Pascal pareceu ter tido uma intensa visão religiosa. Isso teve um impacto tão grande sobre ele que imediatamente ele registrou a experiência - abrindo suas notas com as seguintes palavras: "Fogo. Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos filósofos e estudiosos... ". E concluiu citando o Salmo 119,16: "Eu não me esquecerei da tua palavra. Amém".

Essa experiência foi tão importante que ele costurou com cuidado o documento em seu casaco e sempre o transferia quando trocava de roupa; mas, foi descoberto apenas por acaso depois de sua morte. Ele renovou sua crença e seu compromisso religioso e em seguida foi fazer um retiro de duas semanas em Port-Royal. Ele se tornou um visitante regular e começou a escrever suas Cartas Provinciais, que foram efetivamente um ataque sistemático contra os jesuítas, a partir de uma perspectiva jansenista. Elas provaram ser imensamente populares, amplamente divulgadas e muito prejudiciais para a Companhia.


Referências 
JANSENIUS, Cornelius. Discurso da Reforma do Homem Interior. Comentário e tradução Andrei Venturini Martins; prefácio de Ricardo Riali Taurisano. - Sã Paulo: Filocalia, 2016 
PONDÉ, Luiz Felipe. Na tragetória e obra do francês Blaise Pascal é impossível pensar sem a presença de Deus. In: Revista Cult. http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/meditacoes/2010
Instituto Humanitas Unisino (2014). O Jansenismo de Pascal. Disponível em :<http://www.ihu.unisinos.br/noticias/529733-o-jansenismo-de-pascal> Acesso em 09/06/2016.
JANSENIUS Otto Cornelius. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=OqR8qLtKeKM> Acesso em 09/06/2016 
http://www.faifer.com.br/corneliusjansenius.pdf 

domingo, 22 de maio de 2016

quinta-feira, 12 de maio de 2016

ALGUNS ESTUDIOSOS DO PENSAMENTO PASCALIANO NO BRASIL


TÉDIO DIVERTIMENTO E O VAZIU
Luiz Felipe Pondé 
"Tédio é aquele fantasma que fica atrás da porta e a qualquer momento pode nos encontrar. E como tentamos escapar dele? Procurando desesperadamente por diversão. Blaise Pascal já previa que, no futuro, seriamos dominados por lazer, barulho e juventude. Para o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, Pascal acertou em cheio". 


O SER HUMANO NÃO PASSA DE DISFARCE, MENTIRA E HIPOCRISIA 
Andrei Venturini Martisn 
"Imagine se todos os homens resolvessem falar a verdade. Isso seria possível ou ao menos suportável? Para o filósofo Blaise Pascal o ser humano nada mais é do que disfarce, mentira e hipocrisia. O professor e autor Andrei Venturini Martins discute, nesse vídeo, a necessidade de mentir e o fato da verdade ser insuportável". 

AS VERTIGENS DA RAZÃO E O MISTÉRIO DA FÉ - KERKEGAARD E PASCAL
Franlin Leopoldo e Silva

"Pascal e Kierkegaard, que viveram tempos muito distintos da história da Europa, partilhavam a experiência radical de uma razão que, em seus desdobramentos, atinge enfim seus limites, seus abismos, e não se detém em suas bordas, mas neles se precipita corajosamente. A aposta de Pascal e a ironia de Kierkegaard não são apenas criações teóricas geniais, mas sobretudo experiências vividas, vertigens da razão que, com temor e tremor, confronta os mistérios do sagrado e da fé".

PASCAL, FIDEÍSTA?
Flávio Fontenelle Loque 
"Conferência 'Pascal Fideísta' do professor de história da filosofia moderna da UNIFEI Flávio Fontenelle Loque no II Colóquio sobre Ceticismo realizado na Biblioteca Nacional.

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[...] Numa entrevista a Revista CULT (2010) o filósofo, Luiz Filipe Pondé, afirma que, “na França, Pascal é muito conhecido e estudado, mas fora não tanto. Na Inglaterra e no Japão existem alguns scholars pascaliano, mas, existem poucos trabalhos importantes publicados sobre Pascal fora da França”.[1] Em França podemos destacar alguns autores que ao longo dos anos dedicaram ao estudo de sua obra como Jean-Louis Bischoff, Henri Gouhier, Gérard Lebrun, Jacques Attali, Zacharie Bere, entre outros. No Brasil conhecemos algumas traduções desses autores, mas, contamos também com alguns scholares pascalianos e uma crescente produção acadêmica (artigos, dissertações e teses) nos últimos anos. Entre esses scholars podemos destacar os seguintes: Jackson de Figueiredo, Franklin Leopoldo e Silva, Luis Felipe Ponde, Luis César Olívia Guimarães, Ivinil Parraz, Andrei Venturini Martins, entre outros [...] (ROCHA, A.N.2016, p. 8).



[1] PONDÉ, Luiz Felipe. Na trajetória e obra do francês Blaise Pascal é impossível pensar sem a presença de Deus. Revista Cult – Meditações. São Paulo, 2010, março de 2010. Disponível no seguinte endereço eletrônico: < http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/meditacoes/ >. Acesso em 11/11/2014.