Pesquisar neste blogue

Translate/Traduzir

quarta-feira, 29 de junho de 2016

principais Fatos da Vida de Blaise Pascal


1623 - 19 de junho — Nascimento de Blaise Pascal.
1633 - Pascal, aos 10 anos, estuda geometria por conta própria e escreve "Traité des sons" (tratado sobre os sons).
1638/39 - Aos 15 e 16 anos, Pascal elabora o "Traité dês sections coniques" (tratado sobre as secções cênicas) e publica, com espanto do mundo científico, os "Essais pour lês coniques" (ensaios para os cones).
1640/42 — Pascal trabalha na construção da sua máquina aritmética. Primeiro abalo grave de sua saúde.
1644 — Pascal faz presente de um exemplar da sua máquina aritmética ao "Grande Conde" (Luiz II).
1646 — Primeira "conversão" de Pascal pelos jansenistas, La Bouteillerie e Deslandes. Pascal "converte" sua genial irmã Jacqueline.




1647- 23 de setembro — Pascal tem, em Paris, uma entrevista com o célebre filósofo Descartes.
 1647 - 4 de outubro — Pascal publica o seu tratado sobre o vácuo "Nouvelles éxperiences touchant lê vide".
1647 — Polêmica com o Jesuíta Noel sobre a teoria do vácuo.
1647/51 — Pascal elabora o "Tratado sobre o vácuo".
 1648 - janeiro - Primeiras relações diretas de Pascal com Port-Royal.
1648 - setembro — Pascal publica o célebre esboço sobre o equilíbrio dos líquidos "Récit de Ia grande éxperience de 1'équilibre dês liqueurs".
1649 - 22 de maio — É concedida a Pascal patente de invenção para sua máquina aritmética. 1651 — Princípio das relações de amizade de Pascal com o duque Roannez.
1651 - 24 de setembro — Morte do pai de Pascal.
1651 - 17 de setembro — Pascal escreve a célebre "Lettre sur Ia mort".
1652 - 14 de março — Pascal oferece à rainha Cristina da Suécia um exemplar da sua máquina de somar, acompanhado de uma carta dedicatória.
1652, - 8 de julho — Pascal fabrica o modelo definitivo da sua máquina aritmética, que se acha atualmente no Conservatório de Artes e Ofícios, de Paris.
1652 ou 1653 — Pascal escreve os célebres pensamentos sobre o amor "Discours sur les passions de 1'amour".
1653 - 6 de junho — Pascal escreve os tratados sobre os líquidos e sobre o peso da massa atmosférica, "Traité dês liqueurs", "Traité de Ia pesanteur de Ia masse de l'air".
1654 — Pascal escreve os tratados sobre o triângulo aritmético e sobre a ordem numérica, "Traité du triangle arithmetique", "Traité dês ordres numériques". Escreveu ao mesmo tempo uma série de pequenos trabalhos matemáticos e geométricos, em latim.
1654 - junho-outubro — Correspondência de Pascal com o célebre físico Fermat. 1654 — Acidente na ponte de Neuilly.
1654 - 23 a 24 de novembro — Profunda experiência religiosa de Pascal, início da sua "conversão" definitiva à vida espiritual.
1654/55 — Pascal escreve um tratado sobre o espírito da geometria, "Traité de 1'esprit géometrique".
1655 — Pascal associa-se aos eremitas de Port-Royal dês Champs.
1655 - 19 de janeiro — Carta de Jacqueline a seu irmão Blaise sobre a conversão dele. 1655 - dezembro — Pascal em Paris.
1655 — Pascal entretém-se com o grande M. de Sacy sobre a vida cristã 22 de maio — É concedida a Pascal patente de invenção para sua máquina aritmética.
1656 - 23 de janeiro — Pascal publica a primeira das suas famosas "lettres Provinciales".
1656 — Correspondência de Pascal com Mlle. Roannez, irmã do duque Roannez, sobre a vida espiritual.
1657 - 24 de março — Pascal publica a sua última (18ª) "Lettre Provinciale".
1657 - 6 de setembro — A Congregação Romana do Index condena as "Lettres Provinciales".
1657/62 — Pascal trabalha na sua Apologia da Religião, intitulada, mais tarde, pelos editores, "Pensées".
1658 - 11 de junho — Pascal institui o concurso sobre a "roulette" ou a ciclóide (1).
1658 - 25 de novembro — Apuração do concurso sobre a ciclóide.
1658/59 — Diversos trabalhos de Pascal sobre matemática e geometria. '
1658 ou 1659 — Pascal expõe, numa conferência, o plano da sua Apologia da Religião ("Pensées").
1656, fevereiro — Expulsão das monjas e dos eremitas de Port-Royal.
1661 - 6 de outubro — Morte de Jaqueline, irmã e conselheira espiritual de Pascal.
1662 - janeiro — Pascal estabelece a primeira empresa de omnibus em Paris e obtém para a mesma carta patente da autoridade pública. 1662 - 3 de agosto — Testamento espiritual de Pascal.
1662 - 19 de agosto — Morte piedosa de Blaise Pascal, com 39 anos de idade.


ROHDEN, Humberto. Pascal: O Homem que Apelou da Razão Para o Coração e De Roma Para Deus. 3a Ed. União Cultural Editora Ltda. - São Paulo, 1981, p. 18. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

SEGUNDO DISCURSO SOBRE A CONDIÇÃO DOS GRANDES




Segundo Discurso** 

É bom, senhor, que saibais o que se vos deve a fim de que não pretendais exigir dos homens o que não vos é devido; pois isso é uma injustiça visível: e contudo ela é muito comum àqueles de vossa condição, porque desta eles ignoram a natureza.

Há no mundo dois tipos de grandezas; pois há grandezas de estabelecimento e grandezas naturais. As grandezas de estabelecimento dependem da vontade dos homens que acreditaram com razão dever honrar alguns estados e a eles atribuir alguns respeitos. A dignidade e a nobreza são desse gênero. Em um país são honrados os nobres, noutro os plebeus; neste aqui os primogênitos, naquele outros os caçulas. Por que isto? Porque aprouve aos homens. A coisa era diferente antes do estabelecimento; após o estabelecimento ela se torna justa, porque é injusto perturbá-la.

As grandezas naturais são as que são independentes da fantasia dos homens, porque elas consistem nas qualidades reais e efetivas da alma e do corpo, qualidades que tornam uma ou outro mais estimável, como as ciências, a luz do espírito, a virtude, a saúde, a força.

Devemos alguma coisa a uma e a outra dessas grandezas; mas como são de uma natureza diferente, devemo-lhes também diferentes respeitos.

Às grandezas de estabelecimento, devemo-lhes respeitos de estabelecimentos, isto é, algumas cerimônias exteriores que devem ser, não obstante, acompanhadas, segundo a razão, de um reconhecimento interior da justiça dessa ordem, mas que não nos fazem conceber alguma qualidade real naqueles que honramos desse modo. É preciso falar aos reis de joelhos; é preciso manter-se em pé no quarto dos príncipes. É somente uma tolice e uma baixeza de espírito recusar-lhes esses deveres.

Mas para os respeitos naturais, que consistem na estima, nós os devemos somente às grandezas naturais; e devemos, ao contrário, o desprezo e a aversão às qualidades contrárias a essas grandezas naturais. Não é necessário, porque sois duque, que eu vos estime; mas é necessário que eu vos saúde. Se sois duque e honnête homme,[1] farei o que devo a uma e a outra dessas qualidades. Não vos recusarei absolutamente as cerimônias que vossa condição de duque merece, nem a estima que merece a de honnête homme. Mas se fôsseis duque sem ser honnête homme, eu vos faria ainda justiça; pois vos cumprindo os respeitos exteriores que a ordem dos homens atribuiu a vosso nascimento, não deixaria de ter por vós o desprezo interior que mereceria a baixeza de vosso espírito.

Eis em que consiste a justiça desses deveres. E a injustiça consiste em atribuir os respeitos naturais às grandezas de estabelecimento ou em exigir os respeitos de estabelecimento para as grandezas naturais. M. N... é um maior geômetra que eu; nessa qualidade ele quer me preceder: eu lhe direi que disso não entende nada. A geometria é uma grandeza natural; ela requer uma preferência de estima; mas os homens não lhe atribuíram nenhuma preferência exterior. Passar-lhe-ei, portanto, adiante; e o estimarei mais que eu, na qualidade de geômetra.[2] Do mesmo modo se, sendo duque e igual, vós não vos contentásseis que eu me mantenha às claras diante de vós, e que quisésseis ainda que eu vos estimasse, eu vos pediria mostrar-me as qualidades que merecem minha estima. Se o fizésseis, ela vos seria adquirida, e eu não vos a poderia recusar com justiça; mas se não o fizésseis, seríeis injusto ao ma solicitar, e seguramente não a teríeis alcançado, fósseis o maior príncipe do mundo.

_______________________

[1] Honnête homme: o equivalente, no francês do século 17, ao nosso “homem de bem”; é a influência, sobre a idade clássica, do spoudaíos ou do andrós agathoû aristotélicos. Em outras palavras, é o indivíduo socialmente considerado bom e virtuoso. 
[2] Isto é, sendo M. N. maior geômetra que eu, posso anteceder-me a ele, exteriormente, em honras exteriores; porém, reconhecendo-o como maior geômetra, devo reconhecer esta sua qualidade natural à qual devo estima. O contrário disso seria injustiça.

Nota: 
**De acordo com Antônio G. Da Silva, "o segundo discurso adverte contra o defeito de se considerar senhor de tudo e acima de todos. pouco importando as qualidades e virtudes que devem honrar a pessoa de todo o governante, ao exigir o respeito e a submissão dos outros, o dignitário deve cultivar o respeito que deve a seus semelhantes e subalternos". Já para Henrique Barrilaro Ruas, "dá-se a separação implacável entre o que vem de Deus e o que é obra do homem: o que Deus nos dá, e merece portanto o respeito dos outros; o que a sociedade nos atribui, e apenas implica um respeito conencional. De novo, a perfeita dicotomia. Como se nenhum significado tivesse que a sociedade fosse, afinal, obra de Deus".  
________________________

Referências 
SILVA, Antônio G. da. Pascal: Cientista e Filósofo Místico. – São Paulo: Lafonte, 2012.151p. (Coleção pensamentos & vida; v, 9).
PASCAL, Blaise. Pensamentos sobre política: Três discursos sobre a condição dos poderosos. Textos escolhidos e apresentados por André Comte Sponville; tradução Paulo Neves. – São Paulo: Martins Fontes, 1994.104p – (Coleção Clássicos). 
PASCAL, Blaise. Três discursos sobre a Condição dos grandes; apresentação e tradução e notas de João Emiliano Fortaleza de Aquino. Revista de Filosofia do mestrado acadêmico em filosofia da UECE.- Fortaleza, v. 2 n. 4, Verão de 2005, p 201, 214.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

DISCURSO DA REFORMA DO HOMEM INTERIOR

“Tomando como ponto de partida uma passagem da epístola de São João, Cornelius Jansenius redige seu "Discurso da Reforma do Homem Interior" mais como obra devocional que como tratado teológico. O autor demonstra seu pessimismo em relação à natureza humana e discorre sobre a dependência absoluta da graça divina como único meio de vencer o pecado”.

De acordo com Andrei Venturini, tradutor da obra para o português, "a obra Discurso da Reforma do Homem Interior, de Cornelius Jansenius, descreve minunciosamente o itinerário do orgulho da alma humana depois da queda adâmica. A edição bilíngue que se apresenta permite ao leitor o contato com a imagem da tradução francesa, realizada por Roberto Arnauld d' Andilly e publicada em 1644. O texto original foi redigido em latim, em 1628, a fim de executar a reforma de um monastério beneditino".

Ainda segundo ele, "a edição francesa assume uma grande importância por ter influenciado aquele que é considerado um dos herdeiros do pensamento de jansenius, a saber, Blaise Pascal. Esta obra que aguçaria consideravelmente o jovem de 23 anos que, mais tarde seria reconhecido como o grande representante do moralismo francês, esta arte que desenvolve detalhadamente as reviravoltas da concupiscência presente na irracionalidade do ser humano" [...]  


Palestra de apresentação do livro "Discurso da Reforma do Homem Interior" com os professores: Luiz Felipe Pondé e Andrei Venturini Martins que traduziu e comentou a obra.  
   

Cornelius Jansenius 

Cornelius Otto Jansenius ou Cornelius Otto Jansen, também conhecido como Jansênio (1585-1638), foi um filósofo e teólogo nederlandês. Fundou o jansenismo, doutrina que prega o rigor moral. Iniciou seus estudos em 1602, na Universidade de Louvain, da qual se tornou professor a partir de 1617, liderando a teologia agostiniana, contra os jesuítas. 

Em 1635, indicado pelo rei da Espanha, tornou-se bispo de Ypres, na região flamenga da Bélgica. Morreu 3 anos depois. Jansenius, reforçando Baius, reagiu contra o antigo otimismo pelagiano a respeito da vontade humana, tal como Agostinho e a Igreja oficial já o haviam feito no Medievo. 

Tais idéias agora reacendiam dentro do espírito da Renascença e com os jesuítas, notadamente Molina. A radicalização da posição agostiniana vinha ocorrendo desde Lutero e Calvino. Por isso a escola teológica jansenista tomou o aspecto de protestantismo dentro da Igreja Católica. Teve desdobramentos com base nos escritos de Jansênio, sobretudo após sua vida, com Arnauld e Nicole, ao mesmo tempo cartesianos. Jansenismo Apesar de ser um movimento teológico fundado na doutrina de Santo Agostinho sobre a predestinação humana, o jansenismo prestigiou o cartesianismo, principalmente a partir do Convento de Port-Royal, em Magny-les-Hameaux, a sudoeste de Paris. 

O rigorismo moral dos jansenistas não conflitava com o cartesianismo porque o Descartes simplesmente se omitira sobre a ética e a política. Além disto importa advertir-se que Agostinho é uma fonte comum a Descartes e ao jansenismo. 

O jansenismo

 Segundo Luiz Felipe Pondé, "a abadia francesa de Port-Royal ficou conhecida por ter abrigado intelectuais como Antoine Arnauld, Jean Racine e Blaise Pascal. Estabelecida em Paris entre 1625 e 1626, a abadia, que passou mais de quatro séculos no Vale de Chevreuse, ao sul de Versailles, tornou-se um centro jansenista. Isso devido à influência de Jean Duvergier de Hauranne, o abade de Saint-Cyran, que estudara em Louvain, onde fez amizade com o teólogo holandês Cornelius Otto Jansen. Juntos fundaram a corrente conhecida como jansenismo".

Esse movimento, baseado nas obras de Santo Agostinho, buscava de forma extremamente austera o resgate da disciplina e da moral religiosa. A polêmica de seus fundamentos estava no fato de os jansenistas criticarem a ênfase na responsabilidade humana em detrimento da iniciativa divina defendida por luteranos e calvinistas. Para eles, o homem já nascia predestinado à condenação ou à salvação, independentemente de suas ações. Desse modo, acusavam os jesuítas de buscarem brechas nos dogmas católicos.


A participação de intelectuais importantes no jansenismo deu ao movimento um forte caráter político. Por isso, acabou desarticulado na França em 1705 por Luís XIV com aprovação do Papa Clemente XI. Posteriormente, os jansenistas acabaram se concentrando principalmente na Holanda e na Itália.

Pascal e o Jansenismo 
Aos 58 anos de idade, o pai de Pascal quebrou o quadril quando escorregou e caiu em uma rua gelada de Rouen. Pascal escolheu dois dos melhores médicos da França, que estavam trabalhando localmente, para o tratamento de seu pai, o que fizeram com sucesso ao longo de três meses. Durante esse tempo, eles se tornaram amigos próximos da família.

Ambos os médicos eram jansenistas e tornaram-se muito influentes, o que levou a uma espécie de "primeira conversão" de Pascal, que começou a escrever sobre temas teológicos no decorrer do ano seguinte. Seu pai morreria cinco anos mais tarde, e logo depois sua irmã Jacqueline anunciou que iria se tornar postulante no convento jansenista de Port-Royal. 

Pascal ficou desapontado, mas, no fim, com o coração pesado, permitiu que ela fosse. Isso envolveria o fato de assinar mais da metade da herança e fez com que ele visse o convento com desconfiança, a princípio, alegando que ele agia como uma seita com o controle sobre sua irmã.

Entretanto, tudo isso mudou quando, em 23 de novembro 1654, entre as 22h30min e as 0h30min, Pascal pareceu ter tido uma intensa visão religiosa. Isso teve um impacto tão grande sobre ele que imediatamente ele registrou a experiência - abrindo suas notas com as seguintes palavras: "Fogo. Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos filósofos e estudiosos... ". E concluiu citando o Salmo 119,16: "Eu não me esquecerei da tua palavra. Amém".

Essa experiência foi tão importante que ele costurou com cuidado o documento em seu casaco e sempre o transferia quando trocava de roupa; mas, foi descoberto apenas por acaso depois de sua morte. Ele renovou sua crença e seu compromisso religioso e em seguida foi fazer um retiro de duas semanas em Port-Royal. Ele se tornou um visitante regular e começou a escrever suas Cartas Provinciais, que foram efetivamente um ataque sistemático contra os jesuítas, a partir de uma perspectiva jansenista. Elas provaram ser imensamente populares, amplamente divulgadas e muito prejudiciais para a Companhia.


Referências 
JANSENIUS, Cornelius. Discurso da Reforma do Homem Interior. Comentário e tradução Andrei Venturini Martins; prefácio de Ricardo Riali Taurisano. - Sã Paulo: Filocalia, 2016 
PONDÉ, Luiz Felipe. Na tragetória e obra do francês Blaise Pascal é impossível pensar sem a presença de Deus. In: Revista Cult. http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/meditacoes/2010
Instituto Humanitas Unisino (2014). O Jansenismo de Pascal. Disponível em :<http://www.ihu.unisinos.br/noticias/529733-o-jansenismo-de-pascal> Acesso em 09/06/2016.
JANSENIUS Otto Cornelius. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=OqR8qLtKeKM> Acesso em 09/06/2016 
http://www.faifer.com.br/corneliusjansenius.pdf