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terça-feira, 14 de junho de 2016

SEGUNDO DISCURSO SOBRE A CONDIÇÃO DOS GRANDES




Segundo Discurso** 

É bom, senhor, que saibais o que se vos deve a fim de que não pretendais exigir dos homens o que não vos é devido; pois isso é uma injustiça visível: e contudo ela é muito comum àqueles de vossa condição, porque desta eles ignoram a natureza.

Há no mundo dois tipos de grandezas; pois há grandezas de estabelecimento e grandezas naturais. As grandezas de estabelecimento dependem da vontade dos homens que acreditaram com razão dever honrar alguns estados e a eles atribuir alguns respeitos. A dignidade e a nobreza são desse gênero. Em um país são honrados os nobres, noutro os plebeus; neste aqui os primogênitos, naquele outros os caçulas. Por que isto? Porque aprouve aos homens. A coisa era diferente antes do estabelecimento; após o estabelecimento ela se torna justa, porque é injusto perturbá-la.

As grandezas naturais são as que são independentes da fantasia dos homens, porque elas consistem nas qualidades reais e efetivas da alma e do corpo, qualidades que tornam uma ou outro mais estimável, como as ciências, a luz do espírito, a virtude, a saúde, a força.

Devemos alguma coisa a uma e a outra dessas grandezas; mas como são de uma natureza diferente, devemo-lhes também diferentes respeitos.

Às grandezas de estabelecimento, devemo-lhes respeitos de estabelecimentos, isto é, algumas cerimônias exteriores que devem ser, não obstante, acompanhadas, segundo a razão, de um reconhecimento interior da justiça dessa ordem, mas que não nos fazem conceber alguma qualidade real naqueles que honramos desse modo. É preciso falar aos reis de joelhos; é preciso manter-se em pé no quarto dos príncipes. É somente uma tolice e uma baixeza de espírito recusar-lhes esses deveres.

Mas para os respeitos naturais, que consistem na estima, nós os devemos somente às grandezas naturais; e devemos, ao contrário, o desprezo e a aversão às qualidades contrárias a essas grandezas naturais. Não é necessário, porque sois duque, que eu vos estime; mas é necessário que eu vos saúde. Se sois duque e honnête homme,[1] farei o que devo a uma e a outra dessas qualidades. Não vos recusarei absolutamente as cerimônias que vossa condição de duque merece, nem a estima que merece a de honnête homme. Mas se fôsseis duque sem ser honnête homme, eu vos faria ainda justiça; pois vos cumprindo os respeitos exteriores que a ordem dos homens atribuiu a vosso nascimento, não deixaria de ter por vós o desprezo interior que mereceria a baixeza de vosso espírito.

Eis em que consiste a justiça desses deveres. E a injustiça consiste em atribuir os respeitos naturais às grandezas de estabelecimento ou em exigir os respeitos de estabelecimento para as grandezas naturais. M. N... é um maior geômetra que eu; nessa qualidade ele quer me preceder: eu lhe direi que disso não entende nada. A geometria é uma grandeza natural; ela requer uma preferência de estima; mas os homens não lhe atribuíram nenhuma preferência exterior. Passar-lhe-ei, portanto, adiante; e o estimarei mais que eu, na qualidade de geômetra.[2] Do mesmo modo se, sendo duque e igual, vós não vos contentásseis que eu me mantenha às claras diante de vós, e que quisésseis ainda que eu vos estimasse, eu vos pediria mostrar-me as qualidades que merecem minha estima. Se o fizésseis, ela vos seria adquirida, e eu não vos a poderia recusar com justiça; mas se não o fizésseis, seríeis injusto ao ma solicitar, e seguramente não a teríeis alcançado, fósseis o maior príncipe do mundo.

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[1] Honnête homme: o equivalente, no francês do século 17, ao nosso “homem de bem”; é a influência, sobre a idade clássica, do spoudaíos ou do andrós agathoû aristotélicos. Em outras palavras, é o indivíduo socialmente considerado bom e virtuoso. 
[2] Isto é, sendo M. N. maior geômetra que eu, posso anteceder-me a ele, exteriormente, em honras exteriores; porém, reconhecendo-o como maior geômetra, devo reconhecer esta sua qualidade natural à qual devo estima. O contrário disso seria injustiça.

Nota: 
**De acordo com Antônio G. Da Silva, "o segundo discurso adverte contra o defeito de se considerar senhor de tudo e acima de todos. pouco importando as qualidades e virtudes que devem honrar a pessoa de todo o governante, ao exigir o respeito e a submissão dos outros, o dignitário deve cultivar o respeito que deve a seus semelhantes e subalternos". Já para Henrique Barrilaro Ruas, "dá-se a separação implacável entre o que vem de Deus e o que é obra do homem: o que Deus nos dá, e merece portanto o respeito dos outros; o que a sociedade nos atribui, e apenas implica um respeito conencional. De novo, a perfeita dicotomia. Como se nenhum significado tivesse que a sociedade fosse, afinal, obra de Deus".  
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Referências 
SILVA, Antônio G. da. Pascal: Cientista e Filósofo Místico. – São Paulo: Lafonte, 2012.151p. (Coleção pensamentos & vida; v, 9).
PASCAL, Blaise. Pensamentos sobre política: Três discursos sobre a condição dos poderosos. Textos escolhidos e apresentados por André Comte Sponville; tradução Paulo Neves. – São Paulo: Martins Fontes, 1994.104p – (Coleção Clássicos). 
PASCAL, Blaise. Três discursos sobre a Condição dos grandes; apresentação e tradução e notas de João Emiliano Fortaleza de Aquino. Revista de Filosofia do mestrado acadêmico em filosofia da UECE.- Fortaleza, v. 2 n. 4, Verão de 2005, p 201, 214.

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