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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

CRIAÇÃO/ TEATRO - O ENCONTRO DE DESCARTES COM O JOVEM PASCAL

Jean-Chaude Brisville*
Dia 24 de setembro de 1647. Fim de tarde. Em Paris, perto da Place Royale, uma cela, no convento dos Mínimos. Mobília sumária. Uma porta, do lado direito, está aberta. Ao levantar a cortina, Descartes, sozinho, de pé, no canto da janela, olha par a fora. Depois, vai arrumar a mesa e as duas cadeiras. Entra Pascoal, que pára, ao dar com Descanes, e o cumprimenta. Pascal, 24 anos. Descartes, 51 anos.

PASCAL: Quanta honra, senhor. Ser recebido por quem está sempre de passagem é um grande privilégio. Sei o quanto lhe custa.
DESCARTES: Nada. Se não tivesse pedido para me ver, eu mesmo provocaria este encontro. Uma celebridade tão precoce excita naturalmente a curiosidade – e desculpa a minha. Entre e sente-se. Creio que temos muito a nos dizer.
PASCAL: Uma infinidade de coisas, de fato. (Descartes convida-o, com um gesto, a sentar-se. Pascal o saúda de novo e aceita. Descartes, por sua vez, também se senta. Silêncio. Eles se observam um breve instante.) Antes de mais nada, posso me permitir uma pergunta? (Descartes concorda com a cabeça.) Por que o vemos tão raramente em Paris?
DESCARTES: Porque, justamente, as pessoas vêm me ver – apenas me ver. Sei que não é o seu caso: nós podemos conversar. Mas a maioria não quer senão a minha aparência, como se eu fosse um animal exótico, atraindo o público de curiosos, pelo que tem de estranho. Um filósofo, apesar da sua sabedoria – ou por causa dela –, sente um pouco de pena que se prefira ver os traços do seu rosto ao fundo do seu pensamento.(Tempo)São os ares de Paris, sem dúvida.
PASCAL: Pode-se deixar de respirá-lo a algumas léguas daqui.
DESCARTES: Concordo, mas por melhor que seja uma casa de campo sempre sentimos falta do conforto da cidade, e nunca encontramos completamente a solidão perfeita que se deseja.
PASCAL: E a consegue em Amsterdã?
DESCARTES: Sim... por algum tempo. Não conheço nessa cidade nenhum homen que não pratique o comércio, exceto eu, e todos estão de tal maneira atentos aos seus lucros que poderia passar a vida inteira sem ser visto por ninguém .
PASCAL: Nunca imaginei que a glória lhe fosse um fardo tão pesado.
DESCARTES: Esqueça a minha glória. Me dê esse prazer. A conversa com pessoas que estimo é o maior bem da minha vida, e eu ficaria aborrecido se a nossa, impedida pelas alturas em que me coloca, não se realizasse. Minha reputação não é tão grande felizmente, e para falar sem rodeios eu mais a temo do que a desejo.
PASCAL: Não foi o que sempre almejou?
DESCARTES: Na sua idade, talvez... na época em que eu queria ver reconhecido o meu pensamento.
PASCAL: Queria?
DESCARTES: Minha razão, hoje, me dispensa de ter razão.
PASCAL: Disposição admirável, feito de um espírito suficientemente elevado para se bastar. Eu não cheguei a essa satisfação e ainda penso que um homem, tendo encontrado a verdade, deve comunicá-la aos seus comtemporâneos. Perdoe minha ingenuidade.
DESCARTES: Vejo-a com simpatia.
PASCAL: Então não faria nada para convencer um interlocutor de boa fé?
DESCARTES: Deixo esse cuidado aos meus trabalhos que estão nas livrarias e preservo a liberdade. Não há o que eu mais preze. (Tempo)Ser livre para não fazer nada. Ah, o lazer... que alegria.
PASCAL: O lazer?
DESCARTES: O que eu mais prezo é não fazer nada – pelo menos aparentemente. Porque o lazer, vai descobrir, talvez com os anos, é uma oficina subterrânea onde o pensamento trabalha à nossa revelia. As tentativas para impedir o meu retiro, não as posso suportar.
PASCAL: O que valoriza ainda mais me ter recebido.
DESCARTES: (Sorrindo): É que tínhamos coisas a nos dizer. (tempo)Falaram-me, em Ruão, de suas experiências. Eu mesmo tenho refletido sobre o Vácuo, e estou interessado em saber o que pensa a respeito.
PASCAL: Escrevi sobre isso um Tratado que está, neste momento, no prelo, e que satisfará, espero, a sua curiosidade. Se me permitir, vou enviá-lo assim que for publicado.
DESCARTES: Eu o lerei com muito prazer, mas não em Paris. A rainha Cristina teve a gentileza de pensar em mim e, apesar dos invernos do norte, que eu receio para a minha idade, aceitei o convite. Peço, então, que remeta a sua obra para Estocolmo. Aposto que será tema de uma das minhas conversas com essa grande princesa. Ela é erudita e não teme as mais austeras discussões.
PASCAL: Eu lhe enviei minha máquina aritmética: ela talvez se lembre.
DESCARTES: A princesa tem boa memória – me disseram. (Tempo)
PASCAL: Eis, pois, que mais uma vez está de partida...
DESCARTES: Não tenho laços com a França. Falando com franqueza, eu me sinto um pouco em casa em qualquer lugar da Europa, sem me sentir verdadeiramente em casa em lugar nenhum. Mas não tem importância.
PASCAL: Atrevo-me, no entanto, a me surpreender que um espírito livre e forte como o seu possa se adaptar aos constrangimentos que a corte obriga.
DESCARTES: Não estou seguro que o meu possa se adptar, mas a provação tem seu interesse. Veja que ela ensina ao meu espírito que ele é menos livre e forte do que acreditava.
PASCAL (Sorrindo): Estou sendo pago com um jogo de palavras? DESCARTES: É proibido sorrir?
PASCAL: Claro que não. Mas eu não me surpreendo menos com o fato de que não tenha encontrado um lugar; que tenha passado a vida no exílio e que nada o tenha retido no seu país.
DESCARTES: É verdade que eu tomei todas as precauções para não me fixar. Em trinta anos, acho que não passei mais do que cinco na França. Mas não foi por acaso. Meu pensamento amava viajar e se eu não tivesse vagabundeado tanto, nós teríamos vivido juntos menos bem.
PASCAL: Ele pedia movimento?
DESCARTES: Queria que e escapasse aos vínculos habituais. A solidão, o silencio e minha invisibilidade lhe pareciam preferíveis. E eu obedeci.
PASCAL: Invisibilidade?
DESCARTES: Digamos, a máscara. Ando mascarado desde que saí da escola. É preciso ser astuto com os outros, se se quer pensar à vontade.
PASCAL: Parece que, para si, pensar é a mola da vida.
DESCARTES: Eu confesso, de bom grado, que me divirto a estudar as operações do meu espírito e a me concentrar na minha atenção. Aquilo que eu encontro é, talvez, menos importante do que o ato da descoberta. Há um certo fascínio em observar seu mecanismo – e em dominá-lo. Não vá imaginar que passo meu tempo na mesa, a escrever. Sou muito preguiçoso, como já disse, e a cama me prende cotidianamente dez horas em vinte e quatro. Mesmo tendo dormido bastante, sinto dificuldades em deixá-la. Mas, apesar de tudo, meu Método me apareceu na ocisidade de um quarto aquecido. A cada um seu método. (Tempo) E o jovem amigo, dorme bem?
PASCAL: Muito pouco... e mal.
DESCARTES: Deveria dar um passeio antes de se deitar. Isso relaxa os sentidos.
PASCAL: Obrigado, pelo conselho. Aprecio-o sobretudo porque não o esperava na nossa conversação.
DESCARTES: Esperava mais... sim, compreendo.
PASCAL: Não vim, admito, para ouvir aquilo que a minha ama me teria dito.
DESCARTES: Ela sabe, tenho certeza, muito mais do que eu a respeito de certas coisas. Enfim, já que somos gente que pensa, não vamos perder tempo com a saúde. Vejamos... Ah, e se falássemos do Vácuo? Estou impaciente para saber o assunto do seu opúsculo, e se me pudesse dar, em algumas palavras, uma idéia das suas conclusões...
PASCAL: Não me interessam mais. DESCARTES: Não diga!
PASCAL: Já dei muito de mim para a ciência. Desde um certo encontro que tive, sei que há coisas mais importantes e não quero me distrair. Não tenho mais tempo.
DESCARTES: Na sua idade?
PASCAL: Morre-se quando Deus quer. Minha saúde não é boa. É possível que isso seja uma advertência de Deus. E depois, seja qual for o curso dos meus dias, não terei anos suficientes para cuidar da minha salvação, que requer tudo de mim, daqui por diante.
DESCARTES: Renunciaria às suas pesquisas? 
PASCAL: Elas só podem me levar à decepção. 
DESCARTES: Como o sabe?
PASCAL: Porque, no final das contas, não se sabe nada, e minha alma tem sede de certezas. Devo, então, saciá-la na fonte suprema.
DESCARTES: Mas a ciência...
PASCAL: Nada nos diz de Deus.
DESCARTES: Pode nos ajudar, pelo menos, a conhecer sua obra.
PASCAL: A conhecê-la? Pois é... O que ela nos ensina é insignificante. Eu diria até que ela aumenta nossa ignorância, fingindo dissipá-la. Além disso, que é já bastante perigoso, ela nos inclina ao orgulho, permitindo que esperemos atingir o alvo enquanto ele se afasta a cada passo dado em sua direção. Tudo é ilusão. Estou convencido: nossa inteligência se perde em maus caminhos. Por mim, volto ao centro onde está a luz da verdade.
DESCARTES (Sonhador): Ao centro...
 PASCAL: Sim, à minha única certeza.
DESCARTES: Ouvindo-o, pode-se pensar que tem o monopólio dela. Creio em Deus também, mas sem ameaçar ninguém.
PASCAL: Terei eu ameaçado quem quer que seja?
DESCARTES: Havia em seu tom de voz uma tal segurança... Desconfio sempre da fé que se exprime com esse tom.
PASCAL (Levantando-se bruscamente): Senhor!
DESCARTES: Não duvido da sua. Vamos, tranquilize seu espírito... e se eu o ofendi, peço-lhe desculpas. (Tempo)Chego de um país onde se fala de Deus serenamente.
PASCAL: Como se pode falar dele serenamente?
DESCARTES (Sorrindo): Em Amsterdã... 
PASCAL (Também sorrindo) Sim, tem toda razão: em Amsterdã...
DESCARTES: É uma boa cidade.
PASCAL: É. Para se passear.
DESCARTES: Para pensar... para pensar, sem ser percebido.
PASCAL: Para mim, mesmo só, no meu quarto, sem outra companhia, estou sempre sob o olhar de Deus. (Tempo)Quando não o sinto sobre mim... (Tempo) Tenho a impressão de cair. Um abismo que se abre à minha esquerda, onde algumas vezes sou obrigado a colocar uma cadeira, a fim de resistir ao seu apelo.
DESCARTES: Isso é curioso.
PASCAL: (Baixo) A vertigem. (Tempo) Aposto que a sua coragem desconhece esse tipo de fraqueza.
DESCARTES: Digamos que Deus, na sua bondade, me preservou desse incômodo. Mas, há pouco, tocou num certo encontro...
PASCAL: Sim. Conheci recentemente dois fidalgos que um padre, um amigo do abade de Saint-Cyran, reconduziu à fé. A conversa com eles me levou a me dar a Deus, segundo um novo caminho.
DESCARTES: Um novo caminho?
PASCAL: Aquele que os senhores de Port-Royal adotaram. São pessoas muito bem intencionadas, ainda que não sejam bem vistas pelo poder. Deve saber que o abade de Saint-Cyran, mesmo que não se tenha observado em suas palavras ou em seus atos qualquer falta, esteve preso cinco anos, saindo apenas para morrer, e que se tornou extremamente perigoso dizer-se seu amigo.
DESCARTES: Por quê?
PASCAL: Porque ele era detestado pelos Jesuítas, os todo-poderosos do reino. Eles influenciaram a opinião geral... é conhecida sua arte nisso...
DESCARTES: Fui aluno deles em La Flèche. 
PASCAL: Eu não sabia. 
DESCARTES: Mas dizia que...
PASCAL: Que a Sorbonne e os representantes do clero colocam sob suspeita tudo o que vem de Saint-Cyran. Ele foi amigo do bispo Jansênio e aderiu à sua concepção da graça. Ora, ela não agradou aos Jesuítas.
DESCARTES: Preciso confessar que estou bem longe desse tipo de discussão.
PASCAL: Realmente, vista de Amsterdã... 
DESCARTES: Desculpe-me se volto atrás, mas não me disse – pode me corrigir se eu estiver enganado: "No final de contas nós não sabemos nada, não se tem nenhuma certeza?" Me parece, no entanto, que sabemos que 3 e 2 são 5.
PASCAL: Onde quer chegar?
DESCARTES: 3 e 2 são 5?
PASCAL: Quem pode contestar...
DESCARTES: Eu concluiria, daí, que as matemáticas são, para todos os que sabem contar, fonte de certeza.
PASCAL: Ah, senhor, percebo que não estamos prontos para nos entender. É verdade – uma certa verdade – que 3 e 2 são 5. Mas o que posso fazer com essa verdade? Tivesse eu percorrido todo o saber de que os homens são capazes, chegaria à ignorância com que nasci. A ignorância que se conhece... ignorância sábia, mas ainda aSsim ignorância, e isso me deixa insatisfeito.
DESCARTES: É bem você que está falando em ignorância?
PASCAL: Revelada em tudo que aprendi.
DESCARTES: Quem fez as ciências avançarem, numa idade em que se joga bola, não pode falar dessa maneira, nem renunciar ao dom já exercido com tanta mestria...
PASCAL: Não procurei senão escapar do tédio, da inquietação e do desgosto. O que não foi um bom caminho.
DESCARTES: Tédio, inquietação, desgosto?
PASCAL: Talvez não os tenha jamais conhecido? Ah, como eu o invejo!
DESCARTES: Nem sempre fui poupado.
PASCAL: Então, pode me compreender.
DESCARTES: Compreendo, quando me fala do seu tédio, mas não o acompanho quando acusa as ciências.
PASCAL: O que elas lhe ensinaram?
DESCARTES: Ora, muitas coisas.
PASCAL: Sim, que o universo não tem limites e que o homem hoje não sabe mais onde se colocar. Olho para todas as partes e só vejo escuridão. Nós sabemos apenas que caímos do nosso lugar e que o procuramos, sem sucesso, nas trevas.
DESCARTES: É exato que a nossa ciência é pouca e que assim que olhamos o céu...
PASCAL: Seu silêncio eterno me apavora.
DESCARTES (Surpreso): Apavora?
PASCAL (Baixo): É, me apavora e eu lamentaria aquele que dele não tem medo, pois deSconhece nosso verdadeiro lugar. (Tempo) Deus é nossa morada. Nossa única felicidade é estar com ele e nosso único mal é dele estar separado. É a religião que nos diz, não a ciência.
DESCARTES: Mas não diz o contrário.
PASCAL: Ela nos faz esquecer a nossa fraqueza, onde está nossa grandeza.
DESCARTES: Vamos, o que está dizendo! Se temos uma grandeza ela está, para mim, no exercício soberano do pensamento. Nele. Apenas nele.
PASCAL: Como um pensamento que não consegue apreender seu objeto confessaria nossa fraqueza? Ou é sua pretensão dominar o infinito... a eternidade? Seria pecar por orgulho.
DESCARTES: Não creio pecar tentando ir mais longe nas matemáticas, que me fazem pressentir uma representação do universo. (Tempo) O sistema do mundo talvez seja um sistema de números. É algum escândalo pensar isso?
PASCAL: Teria a ambição de ser o construtor de um universo inteiramente submisso à geometria?
DESCARTES: Já que existe a mecânica, lá em cima, eu gostaria de tentar seu cálculo.
PASCAL: E o único homem que o lograria, mas, como a eternidade, o infinito não cabe nos números. Por isso trememos. Não paramos de tremer.
DESCARTES: Esse tremor perpetuo não é da minha natureza. Embora eu já o tenha experimentado algumas vezes, realmente. Mas a solução estava no meu espírito.
PASCAL: Uma solução para o medo?
DESCARTES: É.
PASCAL: No seu espírito?
DESCARTES: No domínio que ele soube ter sobre ele mesmo. E ainda uma vez lhe peço que não me julgue orgulhoso. Eu já disse: estudar as operações do meu pensamento, vê-lo em ação, é meu prazer supremo. E um remédio, além do mais. Um remédio para a inquietação e acesso à paz soberana.
PASCAL: Alcançar a paz pelos números. Pode um cristão defender essa maneira de raciocinar? Não vê que ela acabaria por levá-lo a prescindir de Deus?
DESCARTES: Jamais duvidei que ele tivesse posto o mundo em movimento.
PASCAL (Sorrindo): Sim, como um piparote, e depois não há nada a fazer com ele.
DESCARTES (Sorrindo): Se tivesse o poder, certamente me mandaria queimar.
PASCAL: Não, não cabe a mim julgá-lo e, menos ainda, queimá-lo, pois eu mesmo senti, um dia, esse orgulho do espírito que tanto sofri para ultrapassar. Permito-me apenas dizer que um verdadeiro cristão só encontra a paz em Jesus Cristo e que só sua graça a pode conceder. Fora dela não vejo mais que distração condenável e orgulho da inteligência.
DESCARTES: Creio que dramatiza. Pode-se assegurar a salvação sem ferir as ciências e ser um bom cristão, interessando-me pela geometria.
PASCAL: Isso é pedir demais. 
DESCARTES: É que ela me dá muito.
PASCAL: Sem dúvida eu sou mais exigente, pois esse muito, para mim, parece pouco.
DESCARTES (Gentil): Que intransigência.
PASCAL: Eu meço minha vida mortal pela imortalidade da minha alma. Seria preciso ter perdido todo o sentimento para ficar indiferente a isso. Sim, eu confesso: a indiferença sobre a minha eternidade me irrita.
DESCARTES: Não vemos Deus com os mesmos olhos.
PASCAL: Creio que o deduz, não o vê. Para si, ele é um princípio, para mim, um calor. Pensa nele, e eu o sinto. Eis toda a diferença.
DESCARTES: Muito bem.
PASCAL: Mas eu estou falando bastante de Deus e pouco de Jesus Cristo. Ora, nós conhecemos Deus apenas através de seu filho, e não nos conhecemos a nós mesmos senão através dele. Jesus Cristo é um Deus de quem nos aproximamos sem orgulho e nos curvamos sem desespero. Ele ensinou os homens que eles eram infelizes e pecadores... Que era preciso libertá-los, esclarecê-los e curá-los, e que isso aconteceria se odiássemos nosso próprio eu...
DESCARTES: No entanto, ele não disse que era preciso amar o próximo como a si mesmo?
PASCAL: Disse.
DESCARTES: Então, se devemos nos odiar... Enfim, deixemos isso. Poderíamos discutir a esse respeito até o fim do mundo.
PASCAL: Jesus estará em agonia até o fim do mundo, e eu me recuso a dormir enquanto ele morre.
DESCARTES: É uma alusão às minhas dez horas cotidianas de sono? 
PASCAL: Não estou brincando.
DESCARTES: Mas eu também não. Respondo a essa espécie de furor contido que suspeito em suas palavras. Ê, como se eu estivesse para ser convertido! Embora eu tenha vivido por muito tempo num país protestante, será que preciso dizer que a nossa religião é a mesma?
(Tempo) Eu não gosto de discussões, e sinto-o sempre próximo delas. Não leve a mal, portanto, que eu queira arejar a nossa conversação. Isso não vem de um ímpio, mas de um homem...
PASCAL: De um homem que me inspira profundo respeito.
DESCARTES: Vou tentar me satisfazer. 
PASCAL: Me perdoe, não vim aqui com a intenção de discutir. Talentoso ou não, um homem da minha idade ainda tem muito que aprender, e só de si, provavelmente, posso esperar alguma luz. Tenho enorme tendência a me esquentar... reconheço. Peço que me desculpe. Mas se apóia tanto na razão que eu, pelo contrário, sou tentado a fazer pouco dela. Para ser franco, ela não goza mais da minha inteira confiança.
DESCARTES: Vou talvez surpeendê-lo ao dizer que a sua autoridade me apareceu em sonho, numa noite de novembro de 1619. Eu estava na Alemanha, mobilizado pelas guerras, e como voltava para o exercito vindo do coroamento do imperador, o começo do inverno me prendeu num quartel, onde permaneci todo o dia, doente e só, num pequeno quarto aquecido. Nessa noite, então – a noite de 10 para 11 de novembro – tive três sonhos.(Tempo) Não se preocupe: não vou atormentá-lo contando-os. A narrativa dos sonhos alheios causa sempre um tédio mortal. Mas digo, entretanto que a eles devo a semente do meu Método e, sem dúvida, ainda muito mais.
PASCAL: O que entende por isso?
DESCARTES: A luz em que percebi, de repente, o meio de dissipar a treva mais profunda. Assim, como pode ver, se levo em conta a razão é pelo atalho do sonho. As vezes, trabalha-se, dormindo, para o progresso do espírito.
PASCAL: E esses três sonhos, se me permite perguntar, acredita que vieram de Deus?
DESCARTES: Se a minha vontade dormia, só podia vir dele.
PASCAL (Lentamente): Não lhe ocorreu que a razão que descobre seu aval no sonho está em perigo de perder o crédito?
DESCARTES: Me pareceu, ao contrário, que lhe dava uma autoridade suplementar.
PASCAL: Admiro seu culto à razão, mas para mim ela não conseguiu nunca me fazer esquecer a finalidade da vida. Me esforço em vão para ser valente, sei que dentro de poucos anos algumas pás de terra serão jogadas sobre a minha cabeça e tudo aquilo que ponho diante de mim para impedir que eu veja o precipício não me impede de correr para ele. O que pode a razão contra isso?
DESCARTES: Nada.
PASCAL: Todos os prazeres são vaidade. Estou convicto de que não existe a verdadeira satisfação e que sou uma sombra ligada, por um breve instante, a um canto do universo. Tudo o que sei é que devo morrer logo, mas o que mais ignoro é esta própria morte que não poderei evitar.
DESCARTES: Concordo.
PASCAL: Mas a geometria não deixa de ter, para si, a mesma importância.
DESCARTES: Correto. 
PASCAL: Não o compreendo.
DESCARTES: Saber que se deve morrer impede de viver e pensar? Acho que confio mais em Deus. Se a minha alma pertence a ele, o uso que faço do meu espírito diz respeito a mim. Enquanto pensar, existirei. Quanto ao resto...
PASCAL: E assim que se pode definir a eternidade? O resto... Para mim é tudo.
DESCARTES: Um tudo que por aqui não se conhece – e é isso que o apavora e que não aceita. Pretende apreender o inapreensível.
PASCAL: Somente sondo o abismo e sofro a sua atração.
DESCARTES: Para mim, refletir sobre a morte, o infinito e a eternidade é um trabalho que ultrapassa a minha inteligência. Eu não gostaria de abusar do pouco tempo e do lazer que me restam utilizando-os para desvendar semelhantes dificuldades.
PASCAL: Sempre a inteligência acima de tudo. Ela nada tem a ver com isso. Na ordem das coisas a serem compreendidas, ela ocupa o mesmo lugar, para mim, que o nosso corpo na extensão da natureza. Ou seja, o último.
DESCARTES: O que põe na frente?
PASCAL: Um sentimento que parece jamais tê-lo atingido.
DESCARTES: Diga.
PASCAL: A miséria do homem.
DESCARTES: Me atinge também, ainda que de maneira menos abstrata. Na sua idade, raramente vemos morrer alguém que se ama. O que aconteceu comigo. (Tempo) Conheci uma mulher na Holanda, uma simples doméstica, que soube tocar meu coração. A filha que tive dela, e que chamamos de Francine, aos cinco anos pegou escarlatina. Morreu dia 7 de setembro de 1640. Nunca vou esquecer esta data. Ela marca o dia em que senti a mais pavorosa das dores. 
PASCAL (Comovido): Compreendo.
DESCARTES: (Baixo): Não sou daqueles que pensam que as lágrimas pertencem apenas às mulheres. 
PASCAL: Já vi um homem chorar, não sei porque me lembro dele hoje. Meu pai foi mandado pelo cardeal para reprimir uma revolta de camponeses na Normandia, com as tropas do marechal de Gassion. A coleta dos impostos era brutal. Eu tinha dezessete anos na época e acho que meu pai... enfim, ele era, por sua firmeza, o homem que a situação requeria. Naquele dia, acompanhei meu pai com os soldados, a uma aldeia. Um homem de quem tinham tirado os bens e os instrumentos de trabalho se adiantou para defender sua causa. Mas não conseguiu articular uma palavra. As lágrimas o sufocavam. (Tempo) Naquele momento não me importei. Acho mesmo que me apressei a esquecer a cena. E certo que estava ocupadíssimo com a construção da minha máquina aritmética... (Tempo) com a intenção de facilitar para meu pai o cálculo dos impostos pelos quais ele era o responsável. 
DESCARTES: Algumas pessoas a gente não vê.
PASCAL: Algumas pessoas?
DESCARTES: Aquelas que não pertencem à sociedade que ambos freqüentamos. 
PASCAL: Tem razão. Eu não vi aquele infeliz. Eu o revejo sem tê-lo visto. Que Deus me perdoe.
DESCARTES: Não se pode prestar atenção a tudo, principalmente quando se está ocupado, como estava com o seu invento. O espírito só pode se concentrar num único assunto.
PASCAL: Eu estava cego. Sem a graça divina, para onde vamos?... que vemos? Mas só Deus a dispensa e nós, pobres pecadores, não podemos senão pedi-la.
DESCARTES: Deus, então, decidiu antecipadamente a sua salvação?
PASCAL: Ela é absolutamente determinada por decreto da onipotência divina. Sim, acho que sim. Não acha?
DESCARTES: Absolutamente, não acho.
PASCAL: Não?
DESCARTES: Não. Entendo que o cristão, em nome da fé, se descubra elevado pela razão, na atividade terrestre, e não um brinquedo nas mãos do Criador. Deus me fez livre.
PASCAL: E, no entanto, praticamos o mal, somos atraídos irresistivelmente pelo pecado. Nossa natureza foi corrompida pelo erro de Adão. Nós só podemos fazer o bem se o Senhor o permitir, e essa permissão apenas alguns podem aproveitar...
DESCARTES: (Cético): Sim...
PASCAL: Não acredita?
DESCARTES: Se compreendi bem, não se entra facilmente no Paraíso.
PASCAL: E preciso receber a graça.
DESCARTES: Que Deus economiza.
PASCAL: E cabe a nós julgá-lo?
DESCARTES: De maneira nenhuma. Não, de maneira nenhuma. 
PASCAL: Conhece Antoine Arnauld?
DESCARTES: Não tenho essa honra, mas ele me enviou algumas objeções de pormenor a uma das minhas obras, e aprecio bastante seu espírito.
PASCAL: Não se imagina homem de melhor caráter.
DESCARTES: Seguramente.
PASCAL: E cristão mais fiel a seus deveres e a sua fé.
DESCARTES: Não precisa me convencer: Antoine Arnauld tem toda a minha estima.
PASCAL: Pois bem. Esse homem, que estima, tem a honra e a situação ameaçadas, e ouso pedir-lhe que me apoie em sua defesa.
DESCARTES: Ora. Ameaçado? Por quem? De quê? Que querem dele?
PASCAL: Os Jesuítas acharam conveniente atacar o seu tratado "Da comunhão freqüente". A apologia que ele fez de Jansênio, bispo de Ypres, excitou ainda mais o furor deles. De sorte que ele está hoje a ponto de ser excluído da Faculdade de Teologia e de ser censurado pela Sorbonne. Foi-me assegurado que a sua prisão já foi ordenada e que a detenção é iminente. É, esse homem justo na prisão!
DESCARTES: Tudo isso é lamentável.
PASCAL: Talvez ainda haja tempo de intervir. Talvez não seja tarde. O senhor me ajudaria a salvar Antoine Arnauld?
DESCARTES: Há alguma coisa que se possa fazer?
PASCAL: Eu pensei que uma carta – uma carta assinada por nós dois, ainda que o meu nome seja menos ilustre do que o seu -influenciaria a opinião das pessoas interessadas neste caso.
DESCARTES: Uma carta? 
(Pascal tira um papel do bolso)
PASCAL: Tomei a liberdade de fazer um rascunho.
DESCARTES: Calma, calma. Acabei de embarcar nessa disputa e sei apenas o que me disse. O que não é suficiente para empenhar minha assinatura.
PASCAL: Não há tempo para entrar em detalhes. Se demorarmos... Espero que confie em mim.
DESCARTES: Não me ponha a faca no peito. Ambos sabemos que as Escrituras recomendam socorro a um inocente oprimido mas, no que toca à Teologia, a inocência não tem uma natureza clara e eu não poderia, de minha parte, decidir rapidamente. Como já disse, com tantas preocupações e viagens, coloco-me longe desse tipo de discussão.
PASCAL: Nesta, estão engajadas a verdade e a justiça – e a salvação de um bom cristão.
DESCARTES: Não me explicou há pouco que a sua salvação estava inteiramente à mercê de Deus?
PASCAL: Sabe muito bem que eu falava da salvação da alma. O que está em causa é a liberdade, a honra de um homem nesta vida. E sobre isso não devemos nos fazer de surdos.
DESCARTES: Arnauld merece toda a consideração, mas pode se enganar, de boa fé. Não quero tomar seu partido sem conhecer o fundo do seu pensamento, e francamente, ele pouco me interessa. Não costumo frequentar teólogos.
PASCAL: Desprezaria seus estudos?
DESCARTES: Acho inconsequente apelar para a razão enquanto ela pode servir à defesa de sua tese e recusá-la, desde que a coloque em risco. 
PASCAL (Baixo): Tenta-se compreender e depois se chega ao mistério. E se renuncia a ele. Parece-me que, neste sentido, cada um de nós é teólogo sem saber. Mas a questão não é esta. No seu tratado " Da comunhão freqüente", que lhe valeu tantos aborrecimentos, Arnauld examina a moral, que diz respeito a todos nós. Espero que concorde comigo.
DESCARTES: Não li "Da comunhão freqüente".
PASCAL: O assunto é simples e lhe foi dado pela crônica da corte: comungando de manhã, Madame de Sablé teria direito de ir dançar à noite?
DESCARTES: Tanto barulho por isso?
PASCAL: É que Madame de Sable, que hesitava em tomar uma decisão, teve permissão do seu confessor para ir ao baile. (Tempo)Preciso acrescentar que seu confessor é um Jesuíta.
DESCARTES: E Arnauld, jansenista...
PASCAL: Jansenista, sim. Quem não o seria nessas circunstâncias?
DESCARTES: Não sei...
PASCAL: Apoiaria, por acaso, a opinião do confessor?
DESCARTES: Não, não chegaria a tanto, diria somente que é melhor não ir ao baile quando se comungou de manhã e que uma proibição absoluta, caindo como uma espada, pode parecer bastante severa... (Movimento de impaciência de Pascal) Mas, escute... Madame de Sablé podia ter sido obrigada pela situação, ou pelo marido, a ir ao baile, sem sentir a menor vontade. Deveria ela, com grandes ares, se acobertar na religião para fugir a uma obrigação mundana que não lhe daria, talvez, nenhum prazer? E se, mesmo que não tivesse visto com maus olhos essa obrigação, a Santa Comunhão não poderia, fortificando-lhe a virtude, ajudá-la a encontrar no baile apenas a alegria permitida a uma mulher honesta? Um Jesuíta talvez não seja o único a pensar isso.
PASCAL: Me disse que foi um de seus alunos...
DESCARTES: Eles me ensinaram a não me fixar num só ponto de vista, no que concerne à vida.
PASCAL: E no que concerne a Deus?
DESCARTES: Deus está em nós. Cada um lhe empresta o seu rosto. Ainda que aceitemos as diferenças dos nossos traços, estamos sempre prontos a nos matar porque não vemos nem escutamos o mesmo Deus.
PASCAL: Mas há as Escrituras e elas falam a todos na mesma língua.
(Tempo) Não posso segui-lo... 
DESCARTES: Talvez lhe fizesse bem viajar...
PASCAL: Viajar?
DESCARTES: Lembro-me da desventura que me aconteceu, há muito tempo. Eu regressava pela Hungria, a Boêmia e a Alemanha do Norte, de um giro pelo leste da Europa. Uma noite, cheguei às margens do rio Elba, que eu devia atravessar para chegar à Frísia ocidental, onde contava passar algum tempo. O barco estava lá e eu o aluguei apesar dos marinheiros não me parecerem com boa cara. Era visível que eles me tomavam mais por um mercador rico do que por um cavalheiro, e quando estávamos no meio do rio eu os surpeendi tomando uma decisão a meu respeito. Ignoravam que eu falasse sua língua e combinavam, livremente, me matar a pancadas e se aproveitar dos meus despojos, depois de me jogarem na água. Então, de repente, levantei, saquei da espada, encostei-a na garganta do chefe e ordenei, no idioma dele, que me conduzisse ao meu destino. O que ele fez sem que nada mais ousasse contra mim.
PASCAL: Vejo que tem o braço tão ágil quanto o espírito.
DESCARTES: Tão rápido que se o miserável tivesse se mexido eu lhe cortaria a garganta e o expediria para o inferno. Teria eu o direito, diante de Deus? Mas se eu fraquejasse era ele que me matava, e como nunca se tem certeza de viver em estado de graça, eu teria assumido um enorme risco diante do Céu. Se me dissesse que eu deveria ficar quieto no meu quarto em vez de me encontrar naquela noite de novembro às margens do Elba, teria toda razão. Mas, enfim, eu tinha embarcado.
PASCAL: Que está querendo me dizer?
DESCARTES: Bem, que a teologia não pode responder a tudo, claramente. Que em certos momentos a vida prevalece sobre a reflexão, e que é preciso saber decidir rapidamente sem pesar demais os desígnios atribuídos a Deus. Falo tanto por Madame de Sablé, como por mim. Nós dois já tínhamos embarcado. Ir ao baile ou ficar no seu oratório... Transpassar meu futuro ladrão ou me deixar matar. Os teólogos têm muito que debater sobre esse assunto.
PASCAL: Se me permite, voltemos a Antoine Arnauld. Conhece suas ligações com Port-Royal. Os religiosos que estão sob suas ordens têm toda sua confiança, e se alguma mesquinharia viesse privá-los de sua orientação...
DESCARTES: Que Deus o livre.
PASCAL: Mas ele não vai livrá-lo se não fizermos nada em favor de Arnauld... 
DESCARTES: Vou lhe falar sem rodeios: como homem, Arnauld tem toda minha estima, já disse, mas me empenhar por ele neste caso é dar meu aval a um partido...
PASCAL: Um partido?
DESCARTES: A palavra lhe parece forte? Toda novidade em matéria de religião cria um partido. E, daí, uma divisão no Estado. Isso não ocorre sem perigo.
PASCAL: Eu não lhe faria a afronta de pensar que teme por si mesmo...
DESCARTES: Não seria uma afronta. Minha próxima partida me preserva de todo perigo. Ninguém vai me procurar em Estocolmo. Não, não corro nenhum risco se puser minha assinatura na sua carta. Ela faria boa figura, admitamos, e não me custaria mais do que uma esmola. Mas nunca dei meu nome de esmola, e não concordando, no fundo, com Arnauld, eu lhe faria uma injúria, separando sua pessoa, que respeito, de sua religião, que reprovo.
PASCAL: Argumentos, enquanto se persegue um inocente! A razão sempre prevalece sobre o seu coração?
DESCARTES: Neste caso, sim. 
PASCAL: Então, não tenho mais nada a dizer. Perdoe-me pela iniciativa...
DESCARTES (Cortando-o): Que só o honra. (Pascal se retorce, de repente, na cadeira, leva a mão ao peito, e vira a cabeça para trás. Preocupado, Descartes se levanta e dá um passo em sua direção.) Que acontece?(Pascal faz sinal com a mão de que não pode responder. Em silêncio, Descanes o observa. Finalmente, Pascal abre os olhos.).
PASCAL: Desculpe.
DESCARTES: Quer que eu chame um médico?
PASCAL: Ele nada pode fazer por mim. (Descartes vai fechar a veneziana, da janela) De nós dois, sou o mais velho.
DESCARTES: Parece sentir frio.
PASCAL: Só a febre me aquece. 
(Descartes vem se sentar ao lado de Pascal.)
DESCARTES: Se sofre do estômago, eu recomendo uma infusão de tabaco numa bebida quente.
PASCAL: Duvido que faça efeito para a minha enxaqueca, que me deixa em paz apenas algumas horas, à noite.
DESCARTES: Lamento muito. 
PASCAL: Não lamente: o sofrimento me une a Jesus Cristo. Em mim, é o que mais amo.
(Descartes se levanta e vai acender a vela que se encontra sobre a lareira.)
DESCARTES: Posso confessar que, de minha parte, prefiro ter saúde?
PASCAL: Fique à vontade.
DESCARTES: Não aprecia a saúde?
PASCAL: Pode-se fazer bom uso dela.
DESCARTES: A minha me permitiu seguir a natureza e amar plenamente a vida. 
PASCAL: Estou com frio.
DESCARTES: Quer um coberto?
PASCAL: Não seria o bastante. Na minha casa, tenho chinelos embebidos em álcool para esquentar os pés, porque não posso nem mesmo caminhar. (Tempo)Mas esqueçamos meu corpo. Isso não é assunto de conversa.(Tempo. Ele mostra a espada, que está no canto.) Uma espada, numa cela?
DESCARTES: Serviu-me muito pouco.
PASCAL: No entanto, foi soldado...
DESCARTES: Um soldado espectador, mais preocupado em observar as trocas de golpes do que em dá-los.
PASCAL: Me contaram que se bateu em duelo, uma vez...
DESCARTES: Há muitos anos. Desarmei meu adversário e lhe dei a graça da vida com a condição de que fosse ver – sem a espada – a dama por quem se batera. (Tempo) Escrevi um tratado de esgrima ao sair do colégio. 
PASCAL: Alguma coisa em mim o inveja.
DESCARTES: O que me lisonjeia.
PASCAL: É, invejo a sua indiferença. Seria preciso aceitar o pensamento da morte. Ainda não consigo. Se minha alma não a temesse, meu corpo, talvez, fosse menos doente.
DESCARTES: E se amasse um pouco mais o seu corpo, se fosse com ele menos severo? Pode ser, então, que sua alma...
PASCAL: Não tenho nenhum desejo de me interessar pelo meu corpo.
DESCARTES: Então, eu não disse nada. (Tempo) Sua religião é terrível!
PASCAL: Exigente com os que a praticam, sim, reconheço. Mas eles são os mais inocentes, as melhores pessoas do mundo. Rezam, estudam, praticam o bem. Com que se ofusca o poder? E, no entanto, sua cólera cai sobre eles.
DESCARTES: Talvez tenha suas razões.
PASCAL: Se o poder está contra Port-Royal, é por causa dos Jesuítas – e sabe-se do que é capaz um Jesuíta. Vou escrever sobre isso. Serei talvez o único, mas vou escrever, esteja certo.
DESCARTES: Teremos uma bela obra, seguramente. Não demore a empreendê-la. Servirá, com certeza, aos interesses dos seus amigos. (Tempo) Ontem, eu passeava pelo Pont-Neuf – eu já disse, creio, que gosto de flanar –, quando um pobre homem me abordou para me pedir, humildemente, uma esmola. Estava tão miseravelmente vestido que o reconheci apenas depois de um bom tempo. Entretanto, há alguns anos esse homem me salvou a vida. Era inverno – um inverno rigoroso – e eu viajava pelo norte da França, na Picardia, quando, uma noite, no canto de um pequeno bosque, meu cavalo caiu no gelo, e eu fiquei embaixo dele, a perna presa, aturdido com a queda, e tão fraco, que senti a morte chegar com o frio, sem forças para pedir socorro. Então perdi os sentidos. Ao voltar a mim, estava numa cabana, estendido sobre palhas, e o homem que me tinha salvo me olhava com um sorriso, à luz do fogo que ele havia aceso. Eu tinha febre e prestava pouca atenção às palavras que ele me dirigia, até o amanhecer. (Tempo) Um grande conversador esse pobre homem, e um simples de espírito, pois enquanto me curava se propunha seriamente me explicar os mistérios da Trindade, da natureza humana de Jesus e não sei mais o quê. Ah, sim, me lembro: ele pretendia saber a composição do leite da Virgem.(Pascal se levanta bruscamente e olha Descartes fixamente) Não preciso mencionar que não dei nenhuma importância àquelas bobagens. Em compensação, nunca esqueci a bondade daquele homem, e todo o cuidado que teve comigo naquela noite de inverno.
PASCAL: (Num sopro): Frei Santo Ângelo...
DESCARTES: Exatamente. Creio que o conhece. Frei Santo Ângelo, um capuchino. Jacques Forton era seu nome verdadeiro.
PASCAL: Ele contou que...
DESCARTES: Contou que há alguns meses um jovem, muito piedoso, tinha vindo vê-lo para que lhe explicasse em detalhes sua compreensão dos mistérios. Em seguida, o jovem o denunciou, com documentos de prova, como herege, ao arcebispo de Ruão. Ele foi, então, obrigado a largar a batina e a fugir para longe da província onde passava a vida a socorrer os pobres. E foi assim que ele se tornou mendigo no Pont-Neuf, onde o encontrei. 
PASCAL: (Baixo) Eu nunca quis isso.
DESCARTES: Mas, no entanto, o denunciou.
PASCAL: Podia-se aceitar que ele espalhasse pelos campos...
PASCAL: Ora, de todas as pessoas a quem ele assistia e que conheciam suas histórias, talvez tenha sido o único a levar a sério suas bobagens. Em contrapartida, ele fazia caridade – a mesma que ele pede agora. Duvido que a religião tenha ganho nesta questão.
PASCAL: Um Capuchino é um homem de Deus. Frei Santo Ângelo, com sua batina, exercia autoridade sobre as almas. Ele era responsável.
DESCARTES: Diante do Céu.
PASCAL: E diante da religião.
DESCARTES: Não acho que ele a colocasse em grande perigo.
PASCAL: Não se pode tocar nos mistérios e pretender explicá-los.
DESCARTES: Havia suas palavras – que não importavam a ninguém – mas havia sua bondade, sua alegria e sua inocência. Que ajudaram a muitos. Reencontrei um homem amargo e que não compreende o abandono do céu. Que podia eu dizer a ele? (Tempo) Não creio que você tenha feito bem.
(Pascal se senta, de novo, lentamente)
PASCAL: Não sei mais. Pensei estar com a verdade, mas agora não sei mais. A verdade de Deus não era, talvez neste caso, a minha.
DESCARTES: Agiu sozinho?
PASCAL: Sim... Enfim, não. Amigos me encorajaram. Acreditavam, como eu, nos mistérios, e no respeito que os cristãos lhes devem. Agimos para salvaguardá-los.
DESCARTES: São sem dúvida esses amigos os responsáveis pelo fato de ter se dado a Deus, segundo um novo caminho.
PASCAL: Esses amigos são adeptos de Jansênio, bispo de Ypres. Não era isso o que queria que eu contasse? 
DESCARTES: Bem, acho que seus amigos nunca serão os meus.
PASCAL: Não é o único a não gostar deles. Tem a seu lado o poder, a Sorbonne e a Companhia de Jesus. São os poderosos aliados, e aposto que logo a tempestade vai cair sobre o vaie de Port-Royal.
DESCARTES: Não pense que me alegro com isso. Não é do meu feitio ficar contente vendo pessoas sofrerem por suas convicções. Cada um deveria pensar à vontade e dize-lo à sua maneira e sem medo.
PASCAL: Os jansenistas não precisam dessa esmola.
DESCARTES: Esmola?
PASCAL: Eles não querem dever a vida a essa espécie de acomodação que esta pregando, mas à verdade – a verdade divina.
DESCARTES: E, por acaso, é dela detentor?
PASCAL: Está nas Santas Escrituras. Me foi suficiente procurá-la.
DESCARTES: Encontra-se o que se quer nas escrituras.
PASCAL: Quer dizer que eu teria posto, de propósito, o que não estava lá? E isso que pensa?
DESCARTES: Não foi o que eu disse.
PASCAL: Disse, sem de fato dizer.
DESCARTES: Não se esquente e admita que o poder...
PASCAL: Tomaria seu partido nesse caso?
DESCARTES: Não duvido um instante que os senhores de Port-Royal sejam os melhores homens e os mais aptos a ocupar uma posição no Estado. Mas que fazem eles? Sob o pretexto de que o mundo é fundamentalmente mau, irreformável, eles se retiram para o deserto a fim de respirar ares menos corrompidos... e de se preservar das tentações entre santas pessoas.
PASCAL: Para encontrar a salvação.
DESCARTES: É exatamente o que eu dizia. Acha que o príncipe pode suportar por muito tempo que homens, para os quais ele fez planos, se esquivem assim aos cargos com que pretendia dignificá-los, a fim de trabalhar para a prosperidade e a grandeza do reino?
PASCAL: É o rei que faz esta vida aceitável? Tem ele o poder de nos preservar da morte, do mal, da danação? Por melhor príncipe que seja, seu reino está vinculado ao pecado original, e não seria uma loucura encontrar uma razão neste mundo?
DESCARTES: É preciso viver aqui – e o melhor que se pode.
PASCAL: Sim, o tempo de nos preparar para a verdadeira vida que nos espera além das ilusões e das tristezas de que somos prisioneiros. (Tempo)
DESCARTES: Dir-se-ia que, para você, dar à criatura é retirar do Criador.
PASCAL: O Criador nos fez para ele e sem ele nada podemos.
DESCARTES: Nós podemos não nos odiar, como você gostaria que fizéssemos. E preciso nos amarmos um pouco, me parece, se queremos amar. E você não se cansa de lutar consigo mesmo e de cuspir no próprio rosto.
PASCAL: Eu apenas amo Cristo em mim.
DESCARTES: Ama-o dilacerando-se, imolando sua razão e sua liberdade. Não o ama senão provocando medo em si mesmo. Estranho amor.
PASCAL: (Baixo) Eu não admito minha condição humana.
DESCARTES: É isso, não a admite.
PASCAL: Ah, se eu não tivesse a esperança... (Tempo) Quando alguém, se viu, durante noites seguidas, se transformar em seu próprio cadáver? Quando se respirou seu próprio fedor? Quando se tocou sua própria lama?
DESCARTES: Pare de deleitar-se com o seu enterro. Não se pode passar o tempo a esmiuçar a fraqueza e a gemer sobre sua imagem. A despeito do que pensa, não sou mais forte e não vou lhe dar minha coragem como exemplo. Sou prudente... E quando digo prudente... Sabe que passei três anos trabalhando numa obra onde sustentei a opinião de Copérnico relativa ao movimento da Terra em torno do Sol? Ora, assim que eu soube da condenação de Galileu por ter sustentado a mesma tese, renunciei a publicar meu livro. No entanto, como ele, estou seguro que a Terra gira em torno do Sol. Mas preferi não dizer esta verdade porque podia ser, para mim, uma fonte de aborrecimentos.
PASCAL: Eu não o sabia tão preocupado em estar de acordo com a Igreja.
DESCARTES: Ela é poderosa e desconfiada... e eu não sou corajoso todos os dias. 
DESCARTES: (Se levanta e é imitado por Pascal) Não temos mais muito tempo. Preciso me preparar para a partida, e seria deplorável que nos deixássemos sem nos dizer nada. Haveria, acho, coisa melhor para fazer.(Descartes convida Pascal a se sentar, de novo, depois vai pegar, sobre a lareira, um maço de folhas que põe sobre a mesa) Se há alguém que possa tratar disso que comecei, é você. Ninguém mais. De todos os homens desta época. Sei que não faz grande caso da sua inteligência e que se empenha, a todo custo, em tentar diminuí-la. Mas é à sua inteligência que faço um apelo. Ela pode tomar o lugar da minha e levá-lo onde eu não terei, sem dúvida, tempo para chegar. (Tempo) Não me basta acreditar: eu quero saber. Isso seria pecado a seus olhos? 
PASCAL: (Baixo e num tom patético) Sou de uma ignorância terrível e a parte de mim que pensa o que digo, não se conhece mais do que o resto. Vejo apenas infinitos que me fecham como num átomo e de mim sei apenas que sou aqui uma sombra sem retorno e de pouca duração.
DESCARTES: Um homem do seu mérito, da sua qualidade, não deveria aplicar todo o gênio a serviço do pavor. Vou mais longe: me perguntei, algumas vezes, ouvindo-o falar, se não havia um sistema na sua desolação, e eu o veria de bom grado, desde que se pusesse a filosofar, a retomar contente o fio dos seus gemidos.
PASCAL: (Levantando-se): Se me vê dessa maneira é que eu não soube me fazer conhecer. Meu talento tem limite: não posso ultrapassá-lo. Nós não nos pertencemos e não somos daqui.
DESCARTES: Nossa inteligência nos pertence. O Criador nos deu o dom de administrá-la. Pela última vez, apelo para o seu espírito. Use-o. Aplique-o nas ciências em vez de lutar contra ele.
PASCAL: Esse dom me fez tocar o fundo da minha ignorância.
DESCARTES: E, no entanto, sabe que o universo é função da medida e do número. Espaço e tempo que são ligados... sim, ligados no movimento. E que se pode calcular o movimento.
PASCAL: Sim.
DESCARTES: Aceitaria trabalhar a partir dessa afirmação?
PASCAL: A que eu chegaria? A uma equação? Não me faça rir.
DESCARTES: A uma equação, efetivamente. A uma equação onde viriam se esclarecer, fundamentando-se, todas as leis do universo. Isso nada seria?
PASCAL: O que aspiro está acima da matemática. (Tempo) É tarde. Tomei demais seu tempo e o decepcionei. Perdoe-me. Não compreendo mais a linguagem dos números e preciso de uma resposta.
DESCARTES: Precisa sobretudo procurá-la, e procurá-la sofrendo! 
PASCAL: Sofrer me conduz para onde vou.
DESCARTES: Prefiro encontrar alegrEmente – ou, pelo menos, tentar. 
(Descartes vai até Pascal e aperta sua mão) Adeus. Não nos podíamos dar nada, mas não vou esquecê-lo.
PASCAL: Talvez a gente se encontre.
DESCARTES: Aqui, eu duvido. Faz muito frio no país da rainha das neves.
(Depois de uma hesitação, Pascal sai. Tempo. Descartes levanta lentamente a vela, à altura do rosto, e a apaga. Cortina.)
*Jean-Chaude Brisville é dramaturgo francês; compôs: Saint-Just (1957), Le Rôdeur (1972), Le Fauteuil à Bascule(1982) e Le Bonheur à romorantin (1983). Este Entretitn de M. Descartes avec M. Pascal le Jeune foi estreado no Petet Odéon em 22.10.85, sob a direção de Giorgio Strehler.
Tradução de Edla van Steen.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Princípios Filosóficos e Teológicos na Filosofia de Pascal


Na filosofia de Pascal, a dignidade do homem ou sua grandeza é o centro inquestionável, mas apresenta um lado reverso. De facto, a grandeza do homem, se contrapõe a miséria da condição humana. É o pensamento que constitui a grandeza do homem. Toda a dignidade do homem consiste no pensamento, segundo Pascal, “o homem é feito visivelmente para pensar; é toda a sua dignidade e todo o seu mérito; e todo o seu dever é pensar bem”. A condição do homem, porém, é miserável. Essa miséria humana transparece diariamente e continuamente na vida de qualquer um. Segundo Pascal, os princípios de verdade, ou seja, a razão e os sentidos carecem de sinceridade e se enganam mutuamente. Excluindo a razão científica e colocando-se diante dos próprios morais, o homem descobre a sua miséria em toda a sua evidencia.

Pascal insiste mais, porém, na miséria ontológica da condição humana. E conforme ressalta, a grandeza do homem reside também no fato de reconhecer-se como um ser cheio de misérias, impotente, finito, incerto, insuficiente, incapaz, situado entre dois extremos o finito e o infinito, sendo um nada com relação ao infinito e um tudo com relação ao nada, um meio entre o nada e o tudo, infinitamente afastado de compreender os extremos; o fim das coisas e seus princípios estão para ele invencivelmente escondidos num segredo impenetrável incapaz de ver o nada de onde foi tirado e o infinito em que é engolido.  A comparação do finito com o infinito estabelece a nulidade do homem com suficiente nitidez, afastando a necessidade de nela insistir. O que caracteriza o homem é a sua desproporção em relação ao finito e infinito. Essa desproporção com o duplo infinito da pequenez e da grandeza descreve a abolição de qualquer relação com estes dois extremos: o homem ou o ser sem relação com a natureza ou com o infinito.

Porém, essas mesmas misérias provam a sua grandeza, e, isso advém do facto de reconhecer suas limitações e tentar supera-las. Grandeza e miséria são, pois, duas faces da mesma moeda, ou seja, duas situações interligadas, dando ao homem uma dupla natureza paradoxal, pois, o homem é um ser dicotomizado, dividido e esquartejado em naturezas antagônicas, porém, complementares, e que buscam a sua própria superação. A busca pela superação do lado menos nobre “miserável” é possível pela razão, pela reflexão, mas só se chega ao seu ápice pelo recurso à religião, uma vez que a razão, por si só mostra-se insuficiente, porque não consegue explicar os primeiros princípios como espaço, tempo e números. A razão não é suficiente a si mesma, ela tem limites, e Pascal reconhece esses limites, e estabelece que a ética, a vida social e a religião é que definem o mundo humano real e esse mundo real em grande parte foge das possibilidades da razão.

Então, o homem possui duas faculdades distintas para se chegar ao conhecimento: o coração e a razão. Embora essas duas faculdades tenham objetos de conhecimentos bem distintos eles nunca entram em conflito, uma vez que cada um possui o campo de atuação, assim Pascal afirma que é inútil pedir ao coração que tenha ou faça um raciocínio lógico-matemático, assim como, é impossível pedir ao coração que tenha um sentimento. A frase de Pascal - "O coração tem razões que  própria razão desconhece" nos obriga precisamente a examinar, que razões são estas proclamadas pelo Coração. Descobrimos que além dos Sentidos (que nos coloca em contato com a natureza sensível) e da razão que organiza este conhecimento, pela sua racionalidade, descobrimos que existe um vasto universo da dimensão humana que está em uma esfera mais ampla de nossa experiência. Sentimentos (emoções) e a Intuição passam a figurar em nosso sistema.

Ao escrever sobre miséria, Pascal aborda um tema interessante, a diversão, ou seja, “divertissement”. Para ele a diversão, como um desvio do caminho, uma fuga da visão clara de que o homem tem as suas próprias misérias, mas não consegue viver com esse peso que carrega desde a queda Adâmica, por isso, ele procura se refugia na diversão, como forma de escapar ou então de mascarar a sua real situação, ou seja, uma situação miserável sem Deus. Então, a diversão passa a ser umas das maiores misérias do homem, porque ele esquece de si mesmo e mergulha numa procura insensata de satisfação onde ele esquece de olhar para dentro de si mesmo, de tomar consciência do seu estado, capaz de leva-lo a superar as suas próprias insuficiências. Divertir-se é uma forma de distrair-se com ocupações que nos distanciam das misérias que vivemos. Quando não tivermos nada para fazer sentiremos as nossas misérias, o divertimento é o fazer algo que vai distanciar nossa alma do vazio e do tédio. A diversão é uma fuga de nós mesmos.

A grandeza e a miséria humana apresentada por Pascal nos levam a suscitar indagações: de que forma percebemos hoje essa “miséria” e essa “grandeza” em nós? A humanidade diante de tantos sofrimentos e corrupções, nascidos dela mesma, já está num estágio de insensibilidade ao outro e frente àquilo que cada vez mais a oprime. O homem, hoje, mais do que nunca, busca o divertimento. Não somente como fuga, mas como um prazer, meio pelo qual procura não assumir sua condição de ser finito. Todo homem está à procura da felicidade, mesmo aqueles que se suicidam, porém, essa vem sendo buscada de maneira egoísta e envaidecida. Contudo, na via pascaliana, a grandeza deve cada vez mais associar-se à miséria humana pela reflexão.

Segundo Pascal "A miséria deduz-se da grandeza, e a grandeza da miséria. Uns tanto mais poderosamente deduzem a miséria, quanto mais for­temente provam a grandeza; outros deduzem a grandeza da maior prova da miséria. Tudo quanto uns dizem para deduzir a grandeza é para outros argumentos com que deduzem a miséria, e vice-versa. Uns e outros se colocam num círculo vicioso, já que, à medida que os homens têm mais luzes, mais miséria e grandeza descobrem no Ho­mem. Numa palavra: o Homem reconhece que é mísero; é mísero porque o é, mas é grande porque o reconhece. Tal duplicidade do Homem é tão visível que houve quem chegasse a pensar que pos­suímos duas almas”.

A superação dos vários paradoxos que afligem o homem, segundo Pascal, requer a intervenção da divindade. Só Deus, portanto, pode salvar o homem e a este só resta ter fé, alimentar a fé, que é essencialmente dom de Deus. Pascal desde cedo teve uma educação cristã, mesmo tendo dedicado á ciência, não perdeu o vínculo com Deus. Porém, pouco antes dos 30 anos ele se afasta da vida religiosa e se entrega ao bom-viver da sociedade parisiense. Mas, um acidente de carruagem, modifica de novo sua vida. Recupera e começa a viver profundamente a prática religiosa, tornando-se praticamente um místico. Apesar de ter uma saúde frágil, leva uma vida intensa de trabalho, e, por ter uma mente inquieta, passa a reelaborar suas reflexões filosóficas dando-lhe um cunho teológico. Contudo, ele não mescla filosofia com teologia e privilegia a independência de ambos. Por outro lado, fixa uma delimitação clara entre o saber científico e a fé religiosa, fazendo assim a distinção entre as ciências empíricas e a teologia. Através distinção, ele especifica os métodos relativos delineando as respetivas caraterísticas do discurso científico e do teológico. Ele ataca os princípios da autoridade na pesquisa racional, uma vez que esse principio só é legítimo nas verdades da fé, ou seja, reveladas, uma vez que, as verdades teológicas e as que obtemos pelo raciocínio e pela experiência são diferentes: as primeiras são dom de Deus e portanto, eternas e as segundas frutos da atividade humana e necessariamente, progressivas.

Assim, a fé independe da razão. Então a razão não pode resolver o problema da fé, uma vez que este é dom de Deus. Por isso é que a razão nunca pode afirmar que Deus existe, porque só através da fé que Deus pode transmitir ao ser humano a experiência íntima da sua existência. Por isso pascal afirma que “o coração e não a razão que sente Deus que é sensível a fé a não a razão. Essa dicotomia entre saber e fé, entre razão e fé, está implícita nessa frase do próprio Pascal: “O coração tem razões, que a própria razão desconhece.”  

De todo modo, mesmo que sejamos limitados, somos os únicos seres pensantes da natureza. Somos também um dos seres mais fracos da natureza, mas somos fracos pensantes e é no pensamento que está nossa dignidade, nossa nobreza e superioridade frente à natureza. Nós somos miseráveis e mortais, mas sabermos que somos miseráveis e mortais e nisso está nossa grandeza, por isso, Pascal escreveu o seguinte fragmento: "O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água basta para matá-lo. Mas, mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que quem o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso. Toda a nossa dignidade consiste, pois, no pensamento. Daí que é preciso nos elevarmos e não do espaço e da duração, que não podemos preencher. Trabalhemos, pois, para bem pensar; eis o princípio da moral. Não é no espaço que devo buscar minha dignidade, mas na ordenação de meu pensamento. Não terei mais, possuindo terras; pelo espaço, o universo me abarca e traga como um ponto; pelo pensamento, eu o abarco". Pascal, Pensèes.

Bibliografia:
PASCAL “Cientista e Filósofo Místico” - Coleção Filosofia Comentada – Editor Lafonte, 2011.
PASCAL, Blaise. Pensamentos. v.16. Os Pensadores. Trad. de S. Milliet. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os Pensadores).


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A COMPREENSÃO DO HOMEM - BLAISE PASCAL


Pascal empenha-se no estudo do homem antes e depois do pecado original “http://blaisepascalogenio.blogspot.com.br/2013/10/a-natureza-do-homem-antes-e-depois-do.html” para depois analisar as outras dimensões paradoxais da condição humana. Esse estudo, pode ser definido como o resgate da dignidade do homem. Ele define o homem como sendo o centro do universo, e pólo centralizador de todo o criado, é a expressão máxima e mais sublime de todo o orbe. Figura central do mundo criado, nada mais natural que esse fato ressalte por si só a grandeza e a dignidade do ser humano, porém à grandeza do homem se contrapõe a miséria da condição humana. Toda a dignidade e a grandeza do homem consistem no pensamento, ou seja, na razão, contudo, a condição humana é miserável, A grandeza do homem é grande na medida em que ele  se conhece miserável”, afirma o filósofo. “Uma árvore não  sabe que é miserável. É, pois, ser miserável conhecer-se  miserável; mas é ser grande saber que se é miserável” Blaise Pascal, in 'Pensamentos’. Essa miséria humana transparece continuamente na vida de qualquer um.  

Para Pascal o homem situa-se entre duas realidades infinitas: o macro e o microcosmo. Sendo o primeiro o universo invisível na totalidade por sua grandeza e o segundo a natureza também infinita nas suas divisões intermináveis. Pascal nos coloca diante da angústia da nossa finitude em meio a estas realidades, pois “é inútil dilatar nossas”  concepções além dos espaços imagináveis” (PASCAL, 1995, p. 142). Seu objetivo é perceber o real valor do homem, da terra e do artifício por ele produzido. Assim: “Que o homem, tendo voltado a si, considere o que é em relação ao que existe; que se considere perdido nesse cantão desviado da natureza; e que, desse pequeno cárcere em que se acha instalado, e  entendo o universo, aprenda a estimar a terra, os reinos, as cidades e a si mesmo segundo o seu justo valor (PASCAL, 1995, p. 142).

Pascal direciona o estudo do homem pela necessidade de comunicação, que não é apenas com os outros, mas também consigo mesmo, isto é, clareza e sinceridade consigo próprio. “O homem é visivelmente feito para pensar. Aí reside toda a sua dignidade e todo o seu mérito, e todo o seu dever é pensar com acerto. Porque a ordem do seu pensamento é começar por si, pelo seu autor e pelo seu fim.
Ora em que pensa o mundo? Nunca nessas coisas; mas em dançar, em tocar alaúde, em cantar, em fazer versos, em jogar ao anel, etc., em combater, em chegar a rei, sem pensar no que é ser rei e no que é ser homem
Blaise Pascal, in 'Pensamentos’. Ou seja, o homem devia começar a pensar em si próprio, mas tal não acontece e procura-se de preferência a ciência das coisas exteriores. Por isso, o homem deve empenhar-se e conhecer-se a si mesmo a partir das suas insuficiências, como um ser historicamente dividido, extraviado e esquartejado entre duas naturezas antagónicas, no qual não é possível existir comunicação entre as três ordens “carne, espírito e vontade”.

O homem deve começar por si, a sua tarefa essencial e primeira é a de conhecer-se a si mesmo. Mas para tal a razão não lhe serve de nada. Como guia do homem, a razão é débil, inútil e incerta. Ela submete-se facilmente à imaginação, ao costume e ao sentimento, que impelem o homem para extremos opostos, e a razão que devia instituir regras é flexível e incapaz de instruí-la. Outra via de acesso à realidade humana é o coração. O coração, diz Pascal, “tem razões que a razão desconhece: percebe-se isso em mil coisas...Blaise Pascal, in 'Pensamentos’. Entender e fazer valer as razões do coração é a tarefa do espírito de finura. O antagonismo entre coração e razão, entre o conhecimento demonstrativo e a compreensão instintiva é expresso por Pascal como um antagonismo entre o espírito de geometria e o espírito de finura. No princípio de geometria, os princípios não são palpáveis, alheios ao uso comum, e difíceis de ver, mas, uma vez vistos, é impossível que nos fujam. No espírito de finura, os princípios estão no uso comum, perante os olhos de todos “A diferença entre o espírito de geometria e o espírito de finura, num os princípios são palpáveis, mas afastado do uso comum; (...) no outro os princípios são de uso comum aos olhos do mundo”... Blaise Pascal, in 'Pensamentos’.

 As coisas relativas à finura sentem-se mais do que se vêem, requer um esforço imenso para fazê-las sentir aos que não sentem por si e não se podem demonstrar completamente porque não se conhecem os seus princípios como se conhecem os da geometria. O espírito de finura vê o objeto de um só golpe de vista e não através do raciocínio. A diferença é que o primeiro raciocina e o segundo compreende. A eloquência, a moral, a filosofia fundam-se no espírito de finura, isto é, na compreensão do homem, e quando dele prescindem tornam-se incapazes de atingir os seus objetivos. O homem não pode conhecer-se como objeto geométrico, não pode comunicar consigo mesmo e com os outros mediante uma cadeia de raciocínios.

A maior baixeza do homem é a procura da glória, por mais posses que tenha na terra, por mais saúde e comodidade que possua não se sente satisfeito se não conta com a estima dos homens. Ele considera a razão do homem tão grande que, por maior vantagem que tenha na terra, não se considera satisfeito se não estiver também vantajosamente colocado na razão humana. É o mais belo lugar do mundo, e nada pode desviar o homem desses desejos. É essa a qualidade mais indelével do coração humano. Os que mais desprezam os homens igualando-os aos animais, ainda querem ser admitidos e acreditados, por isso contradizem por seu próprio sentimento, a sua natureza é mais forte do que tudo os convence de grandeza do homem mais fortemente do que a razão os convence da sua baixeza.

Acredita-se que, a partir desse projeto antropológico, Pascal pensou todos os fundamentos da natureza humana, e desenvolveu as suas reflexões tornando possível uma leitura objetiva da sua posição quanto à condição do homem. Não se trata de um estudo que leva o homem voltar-se para si soberbo, nem de uma rejeição de todas as suas qualidades, mas sim de um processo de renúncia de toda e qualquer forma de concupiscência. Trata-se de um voltar-se sério e objetivo para a sua condição de finitude e da aceitação desta situação, para procurar a verdade. Caso queiramos compreender em que consiste o conhecimento e a reflexão sobre “o homem”, onde a tarefa primordial é o “conhecer a si mesmo”, é na grandeza que o homem se reconhece como mísero; é mísero quando não consegue se livrar-se das amarras que o prendem, fruto da decadência humana, e a necessidade de comunicação consigo mesmo, em detrimento da procura das coisas exteriores.
A conclusão que se pode chegar, é que o estudo do homem em Pascal passa necessariamente pelo estudo e a interpretação dos dois estados “antes e depois do pecado”; como guia inicial, e força motriz para alargar a pesquisa para outros domínios da condição humana. A postura de Pascal é definida por muitos, como sendo “anti-humanista”, uma vez que, para ele, o humanismo significa esquecer o Divino, isto é, de certa forma, a mesma atitude que Adão teve ao virar as costas para Deus, e afirmar a sua própria suficiência como criatura. Nesse caso, entende-se a concupiscência como o abandono de Deus. Por isso, para sermos capazes de desejar de modo reto, precisamos pedir ajuda a Deus.

A dupla natureza do homem não se dissolve e é difícil de conceber, o homem continua na tentativa de tudo abraçar ou ao menos estar seguro em alguma certeza. O homem após a queda ainda detém uma vontade insaciável e justamente ela pode conduzi-lo tanto para a concupiscência, sua pior indigência, como para Deus, que pode proporcionalmente saciá-la por ser também infinito. Direcionar esta vontade para bem pensar se constitui o grande desafio humano, pois a alma tende naturalmente a primeira opção. No entanto o pensamento não pode estabelecer relação com o mistério, só quando o homem recebe não apenas o que não pode compreender, mas aceita a sua incoerência pode encontrar o Absoluto, ou seja, Deus.

O homem possui dois tipos de grandeza: as naturais e as de posição. As grandezas naturais são as que não dependem do capricho dos homens, porque consistem em qualidades reais e efetivas da alma ou do corpo, que tornam mais estimável (como ocorre com as ciências) a luz da inteligência, a virtude, a saúde, a força. As grandezas de posição dependem da vontade dos homens, que acreditaram com razão dever honrar certas condições sociais e atribuir-lhes certa respeitabilidade. Infelizmente, como Pascal percebeu desde sua época e muito mais se vê hoje, o valor do homem se reproduz na aparência, nas imagens reproduzidas e criadas por ele e que regem as relações, mas que não o retratam intrinsecamente.

Arlindo Rocha
Graduado em Filosofia pela Universidade Pública de Cabo verde.

Bibliografia:
PASCAL “Cientista e Filósofo Místico” - Coleção Filosofia Comentada – Editor Lafonte, 2011.
PASCAL, Blaise. Pensamentos. Os Pensadores. Trad. de S. Milliet. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os Pensadores).


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Meditações sobre Pascal - Luís Felipe Pondé


(...) Ao contrário do que se propaga o senso comum, que distingue Pascal como um cientista que larga a razão para se dedicar à religião, a espiritualidade sempre esteve presente na vida de Pascal. Mas dói a partir de sua conversão ao jansenismo que a religião se tornou ainda mais evidente em sua obra.
O contato mais intenso de Pascal com a religião se dá por influência de sua irmã, que se tornara freira na abadia de Port-Royal. Além disso, algun fatos marcaram definitivamente o direcionamento espiritual na vida de Pascal, como a morte de seu pai e a “milagrosa” cura de sua sobrinha, que sofria de uma fístula lacrimal maligna. Essa recuperação ocorreu quando ela, desenganada pelos médicos, tocou o Santo Espinho que existia em Port-Royal. Entretanto, essa fase da vida de Pascal é rica em especulações. Para alguns, a sua conversação aconteceu quando escapou ileso de um acidente com uma charrete; para outros, o cientista abraçou a vocação religiosa após ter visões.
O fato é que a partir daí, em 1653, Pascal abandona seus trabalhos e estudos matemáticos para se voltar à teologia. Nesse período, seus textos apologéticos se direcionam para críticas aos jesuítas e a Descartes. Pascal achava que os jesuítas reduziam a religião a ritos e dogmas, sem se preocuparem com a reflexão metafísica. Estes escritos estão em Cartas Provinciais, um conjunto de dezoito cartas em defesa do jansenismo. Sobre Descartes, registrou: “Não posso perdoar Descartes; bem quisera ele, em toda a sua filosofia, passar sem Deus, mas não pode evitar de fazê-lo dar um piparote para pôr o mundo em movimento; depois do que, não precisa mais de Deus”.
Para discutir a questão da influência do jansenismo na obra de Pascal e de como seu trabalho se opôs e se opõe ao pensamento cartesiano, a CULT conversou com Luís Felipe Pondé, filósofo e professor do Programa de Estudos Pós-graduados e Ciência da Religião da PUC-SP e de comunicação da Faap. Ele é o autor de O Homem insuficiente: comentários de antropologia pascaliana (2001), Conhecimento na Desgraça: ensaio de epistemologia pascaliana (2004), ambos pela Edusp, e de Crítica e Profecia: Filosofia da religião em Dostoievski (2003), pela Editora 34.

CULT – De que maneira a religião está presente na obra de Pascal antes de sua aproximação do pensamento jansenista?
Luís Felipe Pondé – É difícil falar em obra antes da aproximação com o jansenismo, porque mesmo em momentos iniciais, como sua perseguição ao clérigo Saint Ange (Jacques Forton, senhor de Saint-Ange-Montcard, com quem Pascal teve suas primeiras discussões teológicas), já há uma tendência agostiniana; se o jansenismo venceu em parte da comunidade intelectual cristã francesa do século 17, é porque já havia – inclusive por conta da sensibilidade calvinista forte na França, e o jansenismo é muito próximo do calvinismo em termos de espiritualidade – uma predisposição espiritual para tal. O Pascal importante é já jansenista, mesmo que o cientista e matemático já “brincasse” há muito tempo.

CULT – Talvez alguns dos conceitos mais “populares” de Pascal sejam os matemáticos. O senhor acha que esse lado do trabalho dele seja menor de o compararmos com sua herança para a filosofia?
L.F.P – Quero dizer que ele era tão bom em matemática que mesmo criança brincava com isso e assustava seu pai e seus amigos matemáticos e filósofos. De modo algum o Pascal matemático é menor, ele é fundamental em probabilidades, nas bases do cálculo infinitesimal, matrizes, geometria etc. Outra coisa: para ele isso era “brincadeira” porque tudo era divertissement (divertimento) para ele, mesmo a filosofia ou qualquer atividade intelectual. Lembre-se, segunda concupiscência, Agostinho, curiosidade vã do intelecto. Conta-se que quando ainda era criança seu pai o pegou deduzindo tudo o que se sabia da geometria euclidiana, e que ficou e, pânico com medo que o menino pirasse e proibiu seus amigos de falarem com ele para não piorar sua situação mental.

CULT – Como foi possível a ele promover uma conciliação entre sua obra antes e depois de sua conversão ao jansenismo?
 L.F.P – Sua obra “posterior”, ou sua obra tout court, é um desdobramento que põe em diálogo a sensibilidade teológica jansenista com sua cultura filosófica e de ciências naturais e matemáticas; não acho um problema essa “conciliação”, porque não é a rigor uma “conciliação”, mas uma efetivação de uma obra que encontra na espiritualidade jansenista um campo para a crítica ao humanismo antropocêntrico. Quando ele escreve, ele já escreve como jansenista.

CULT – Como essas mudanças na vida e na obra de Pascal foram vistas por cientistas de seu tempo?
L.F.P – Muitos cientistas a sua volta partilhavam de atitudes religiosas semelhantes ou contrárias, mas ainda assim dentro do escopo religioso. É importante lembrar que controvérsias teológicas eram dadas dentro de ambientes filosóficos e científicos, muitos eram padres e não leigos como Pascal – na obra dele mesmo temos cartas e padres cientistas; o foco maior de disputa era a base teológica. Pascal era um cientista de sucesso em sua época, com sua pouca idade. Contudo, e isso é uma questão complexa para pouco tempo e espaço, é que sua teoria da ciência – ou sua epistemologia – é bastante avançada para sua época e aí está parte de sua crítica à lógica, geometria e físicas de cepa “fundacionalistas” ou essencialista de viés cartesiano. Sua lógica é muito mais formal e bem menos conteúdista, e muito mais de nomes do que de entes; a raiz disso é sua teologia agostiniana da insuficiência do homem em fazer algo além do que conhecimento local. Também entra aí sua crítica à linguagem, que é muito próximo às críticas neopragmáticas e wittgensteinianas. Mas no caso de Pascal, toda essa inconsistência cognitiva é fruto da desgraça teológica; sua ciência está dentro de sua teologia.

CULT – A questão da religião em Pascal o tornou uma espécie de “caso” na história da filosofia, por oposição a Descartes?
L.F.P – Não, Pascal não é quem é porque se opôs a Descartes. Inclusive para ele, este era “incerto e inútil”. A idéia nietzschiana de que Pascal era um grande moralista ( no sentido de um anatomista da alma e da moral), mas infelizmente atormentado pela religião, é típica dos reducionismos errados de Nietzsche e de autores similares ao que poderíamos chamar de um intelecto religioso como o do Pascal. A religião em Pascal é o centro de sua preocupação, e daí que parte sua antropologia, sua moral, sua política e sua espistemologia. Sua oposição teológica é ao humanismo de cepa renascentista do tipo “Pico de La Mirândola”. Descartes representa pouco nesse cenário. Para Pascal, Descartes era apenas um filósofo-cientista, que não sabia ao certo qual era o problema do ser humano, alguém que se divertia com objetos pouco produtivos em termos de salvação humana, leia-se, em termos de um aumento da consciência filosófica da condição humana. Pascal é uma ancestral do existencialismo e do pensamento da angústia. Para ele, Descartes era um ilustre e inteligente equivocado.

CULT – Foi ele o primeiro crítico da razão?
L.F.P – O termos “razão” é variável na história da filosofia. Pascal não é o primeiro crítico da “razão”, mas é o primeiro no período mais próximo a Descartes e, por ser matemático e cientista prático, sua crítica pesa muito.

CULT – O pensamento de Pascal consegue manter um diálogo com as questões contemporâneas?
 L.F.P – Sim, muitas, não dá para falar delas aqui, mas seguramente com a lógica formal e axiomática, com o neopragmatismo, com o ceticismo, com descrença no ser humano, com o ceticismo político – críticas da democracia -, com a psicologia profunda de cepa freudiana – seu pessimismo com relação à estrutura psíquica humana e não à coisa sexual -, com crítica ao hedonismo materialista, à cultura da auto-estima – essa coisa brega que está virando objeto da academia – etc.

CULT – O senhor considera que a obra de Pascal é devidamente reconhecida nos dias de hoje?
L.F.P – Ela está em processo de reconhecimento. É uma obra difícil e pouco trabalhada no Brasil. Sua teologia dura e “anti-humanista”, pouco simpática ao humanismo hedonista de nossa época, tende a assustar as pessoas. Todavia, qualquer pessoa que gosta de pensar a condição humana a sério em Pascal tende a trabalhá-lo.

CULT – E em outros países, como é esse cenário?
L.F.P – Na França, evidentemente, é muito trabalhado. Fora de lá, Inglaterra um tanto. No Japão, há um scholar pascaliano. Não há nenhum trabalho que eu conheça importante publicado sobre Pascal fora da França. Seu pessimismo antropológico é que afasta muita gente dele e não sua matemática.
Fonte:  CURI, Fabiano(jornalista). Meditações. REVISTA CULT. n° 88, Ano VII, pp. 58-60.
http://carlososer.blogspot.com.br/2013/01/meditacoes-sobre-pascal-luis-felipe.html


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

SEGUNDA NATUREZA EM PASCAL – O HOMEM DECAÍDO.

No pensamento de Blaise Pascal, o estudo da segunda natureza do homem (decaído) ocupa um ponto central e inquestionável na sua antropologia, uma vez que, o pecado original levou o homem à segunda natureza. Mas o que é o pecado original? Tradicionalmente, se usa essa expressão por três razões: primeiro, porque o pecado tem sua origem na época da origem da raça humana, segundo, porque é a fonte de todos os pecados atuais que mancham a vida do homem e por último, porque está presente na vida de cada indivíduo desde o momento do seu nascimento, e inda, pode ser dividido em dois elementos: culpa e corrupção. A culpa é o estado no qual se merece a condenação pela violação de uma lei ou de uma exigência e corrupção é a contaminação inerente à qual todo pecador está sujeito. É o estado pecaminoso, que se propaga e afeta todas as partes da natureza humana e resulta numa incapacidade total.

 Então, Para compreender o conceito de segunda natureza em Pascal é importante fazer algumas considerações da condição humana a ótica pascalina. Para Pascal, o homem guarda em si o antagonismo entre miséria e grandeza, o homem é ao mesmo tempo grande e pequeno, fraco e forte. Esta visão paradoxal do homem é derivada dos conceitos teológicos de pecado original e consequentemente queda, aos quais Pascal recorre para explicar a condição humana. Então, em primeira instância, o pecado original e a queda são marcas primordiais da segunda natureza humana, fundamento da existência finita e contraditória do homem.

A natureza do homem, no estado pós-queda, não é mais unitária, como o fora no primeiro estado, mas sim, é dupla, contraditória e paradoxal; em outras palavras, na segunda natureza o homem se caracteriza por sua própria miséria e inconstância. As Escrituras mostram que o pecado original causou uma terrível corrupção na natureza humana, o homem caiu da primeira natureza “estado puro”, para uma segunda natureza “estado de corrupção”. Esta queda representa o estado de miséria em que todos os homens vivem no mundo, e justifica o fato do homem ser pequeno e fraco, o mais fraco da natureza, pois vive agonizando num mundo corrompido e distante de Deus. Contudo, o homem mesmo sendo miserável e fraco não deixa de buscar a verdade e o bem puro perdido após a queda, ou seja, ele está sempre procurando refazer o elo que o ligava ao seu Criador, tendo em conta que, é uma natureza abandonada.

A segunda natureza é assim, para Pascal própria do homem, abandonado por Deus, onde reina o hábito e o costume e a concupiscência. É nesta natureza, abandonada que se erguem os princípios políticos e morais norteadores da vida efêmera do homem. Nesta concepção pascalina de segunda natureza é possível destacar que o homem é considerado um ser histórico e não natural. Sua natureza são hábitos e costumes que ele cria, é a cultura formada no tempo, portanto, é a própria existência humana finita. Assim, Pascal diz: “Não há nada que a gente não torne natural. Não há natural que a gente não faça perder” (B. 94; L. 630).

Assim, Pascal se opõe à existência do direito natural, pois no mundo humano reina a segunda natureza, que é a responsável por prescrever o direito, a moral e a política, não estando conformada com os princípios imutáveis da primeira natureza, mas em oposição a ela. Na segunda natureza reina a instabilidade, o direito supremo não pode ser encontrado, ele é da ordem da natureza, do qual homem é decaído. Então na segunda natureza, não há nada autêntico. Pascal, pensa o homem, como tendo várias determinações da condição humana, como um ser finito, contraditório e histórico-temporal. Essas determinações antropológicas constituem o estatuto epistêmico do homem distinto das categorias teológicas.

Pascal argumenta que, “se há princípios que não se apagam diante do costume”, não é que eles sejam primeiros em natureza, mas é que são princípios que, constituídos em segunda natureza (logo, em determinados costumes), justamente por isso resistem às mudanças dos costumes e hábitos, ou ainda, se preservam diante de outros costumes e hábitos mais recentes, tanto quanto há outros desses que se impõem aos mais antigos.

Ao escrever sobre a miséria humana, ou seja, a segunda natureza, Pascal aborda outro tema interessante, a diversão (divertissement). Para ele a diversão é o desvio, um descaminho, uma fuga clara diante da visão que o homem tem de sua própria miséria. E a diversão passa por se constituir na maior das misérias do homem, porque o impede de olhar para dentro de si mesmo, de tornar consciência do seu estado de comiseração, impedindo-o de seguir o único caminho capaz de leva-lo a superar a própria miséria, a desfazer-se dela para readquirir sua plena dignidade e grandeza.

Retomando a questão inicial, observa-se que, o pecado original e a queda de Adão trouxeram consequências desastrosas para ele, e para toda a humanidade. Então, entender o que aconteceu após o pecado é chave para compreendermos a situação em que o homem se encontra hoje, uma vez que, ao cometer o pecado, decaiu da sua retidão original e da comunhão com Deus, tornando-se um escravo do pecado, suas faculdades ficaram inteiramente corrompidas.

Ao ler o texto de Gênesis 3:7-24, constatam-se outras consequências: resumidamente,  após o pecado de Adão e Eva, eles foram dominados por um sentimento de vergonha e culpada, por isso, foram expulsos da presença de Deus, no entanto, tentaram salvar as aparências, ao invés de procurar o perdão de Deus, com isso, não haveria mais fuga de responsabilidade. A mulher daria a luz em meio a dores, a terra seria amaldiçoada e a natureza sofreria junto com a humanidade, compartilhando assim as consequências, a terra passou a ser estéril e o sustento passou a ser obtido com fadiga, e por fim, a morte física, mental e eterna alcança o homem definitivamente.

Como habitantes da segunda natureza, o homem ficou desprovido de qualquer relação com Deus e passou a ser dono e Senhor de si mesmo, único responsável pelos seus atos, e por isso, passou a ter uma existência exilada. Nessa segunda natureza, ainda podemos identificar vários conceitos presentes na obra Pensées, que caracterizam de fato a situação humana pós-queda: a corrupção, a busca de glória, a dissimulação da identidade, o hábito e o costume, o divertimento, a ignorância, a depravação total, a Incapacidade Espiritual...

Sendo assim, o primeiro marco dessa natureza é a busca desenfreada pela glória, e por isso, Pascal afirma: “A maior baixeza do homem é a busca da glória”, nessa procura, o homem recorre à dissimulação da sua identidade, ele não se contenta com a vida que tem, e quer viver na ideia dos outros, uma vida imaginária e por isso, esforça por manter as aparências. Se estiver feliz, tranquilo ou é generoso com alguém, apressa-se logo e partilhar com os outros provando assim a sua benevolência. O divertimento e o tédio são outras marcas dessa natureza, então Pascal nos diz (...) “a única coisa que nos consola das nossas misérias é o divertimento, e, contudo, é a maior das nossas misérias, porque nos impede de pensar em nós. Sem isso, estaríamos no tédio, e este tédio levava-nos a procurar um meio mais sólido de sair dele, mas o divertimento distrai-nos e faz-nos chegar insensivelmente à morte”. Outras ainda são a ignorância pura e natural, na qual se encontram todos os homens ao nascer, e aquela a que chegam as grandes almas que, tendo percorrido tudo quanto os homens podem saber, acham que nada sabem e voltam a encontrar-se nessa mesma ignorância da qual tinham partido e a busca e a conquista das coisas materiais, e também,  através do jogo, se busca a verdade, do mesmo modo nas paixões. O que dá prazer é assistir ao combate entre duas equipes contrárias. Mas é o hábito que nos dá provas mais fortes e mais críveis; inclina o autómato, que arrasta o espírito, sem que ele o saiba. De tudo o que acrescentar é a cegueira que o homem e a miséria do homem, que ao contemplar o universo, ele se sente abandonado si mesmo e como que perdido nesse recanto do universo, sem saber quem o depôs ali, o que aí veio fazer, o que será dele ao morrer, incapaz de qualquer conhecimento, sente-se aterrorizado como um homem que tivesse adormecido numa ilha deserta e aterrorizante e que despertasse sem saber onde está e sem condições de sair dali. 

Na situação dramática na qual o homem se encontra, ele não pode evitar o pecado sem a graça. Ou seja, a superação da segunda natureza, reside na graça, Isto significa que, sem a graça, o homem não é capaz de observar um comportamento moralmente reto.



Bibliografia  
PASCA, Blaise “Filosofia comentada” António G. da Silva – Editora Lafonte 2011



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A NATUREZA DO HOMEM ANTES E DEPOIS DO PECADO

O estudo da natureza humana em Pascal foi inspirado na doutrina do pecado original que se apoia em várias passagens das Escrituras: a Epístola de Paulo aos Romanos  (5:12-21) e aos Coríntios (1 Co 15:22), e uma passagem do Salmo 51. Essa doutrina cristã que pretende explicar a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal através da queda do homem “Adão”. este ponto de partida, é realmente fundamental a toda reflexão de Pascal. 

Mas, a primeira exposição sistemática sobre o pecado original é a de Agostinho de Hipona (Santo Agostinho), no século IV, que associa o pecado à culpa herdada por todo o gênero humano que devido ao orgulho e egoísmo de Adão, rejeitou o amor e a obediência devida a Deus. Assim sendo, o pecado original tem para Agostinho, assim como para Pascal, um caráter hereditário, pois em Adão toda a humanidade pecou, abrindo as portas para a entrada do mal, da morte física e espiritual e de todas as suas consequências.

Pascal, influenciado pelo cristianismo e, sobretudo por Santo Agostinho, analisa a condição humana, que se espelha na vida de Adão, antes e depois do pecado, ou seja, da queda que atirou não só Adão, mas toda a humanidade da primeira à segunda natureza desgraçada.

As duas primeiras criaturas que temos conhecimento através da Escritura Sagrada, são Adão e Eva, porém, Pascal não se atende em analisar a relação entre os dois, nem tão pouco, a influência que ela exerceu sobre Adão, que o levou a cometer o pecado, que marcaria não só a vida do casal, mas também a humanidade em geral. Pascal usa a figura de Adão enfatizar a gravidade que o pecado exerce na vida de cada homem e particular e da humanidade em geral.

Assim, segundo Pascal, o estado em que Adão encontrava-se antes do pecado, ou seja, a primeira natureza era de santidade e, sobretudo, de inteligência completa e total. No estado de perfeição todas as faculdades de Adão eram ordenadas para lhe permitir atingir a felicidade representada pela visão e pelo conhecimento de Deus. Além disso, a natureza inteira estava disposta em função de Deus, segundo uma hierarquia que permitia atingir a felicidade máxima. Os seres estavam dispostos em sequência ordenada, do menos perfeito ao mais perfeito, cada um dominado pela vontade do ser superior que o dirigia, em compensação a essa dominação, rumo à felicidade.

O mesmo acontecia com cada ser, todas as suas faculdades, seguindo a mesma hierarquia. Assim, as faculdades humanas estavam submetidas umas às outras em função do seu grau de perfeição e de participação na felicidade total de Adão.

A concupiscência estava subordinada à vontade que se deixava guiar pelo intelecto. Este, oferecendo uma visão e um conhecimento perfeito de Deus, permitia, ao homem atingir a sua felicidade completa. Os membros do homem, por sua vez, obedeciam completamente e sem oposição às ordens que vinham da vontade, pois não era o lugar de aplicação de uma lei oposta à que neles estava presente.

Entre a concupiscência, “o amor da carne”, a caridade, “amor de Deus”, não havia oposição, mas subordinação. Esse estado e inocência natural é inseparável aos dons da graça, e é identificada com a natureza original do Homem.

Em si mesma, a vontade não é senão o desejo de querer atingir o que satisfaz, independente de qualquer objeto particular. Visto que, o desejo natural, de todos os seres humanos é a felicidade, a vontade se dirige para os objetos que o intelecto lhe indica como podendo dar-lhe o máximo de ventura. Nesses estados o homem não ama senão a Deus, no qual encontra a sua beatitude. Todo o amor que tem por si mesmo ou que dedica às criaturas, não passa de um amor parcial, que é um meio que, parando nas criaturas, tem por fim o amor de Deus, isto é, a caridade. Quando o homem respeita essa ordem ele é glorioso e poderoso. Mas o homem querendo se igualar a Deus movido pela ambição acabou caindo na segunda natureza, que fez dele um ser mísero e paradoxal.

Então, o estudo do estado, ou da "natureza" em que Adão se encontrava, revela alguns dados essenciais. Ainda que sem qualquer sujeição à concupiscência, isto é, sem sofrer a terrível atração pelo amor de si mesmo, Adão, para realizar o seu fim supremo, necessita da ação divina, uma vez que, a primeira natureza é uma realidade insuficiente sem o mal.

 Se a primeira natureza é uma realidade insuficiente sem o mal, a segunda é a insuficiência vivida com o mal – insuficiência concupiscente. Na segunda natureza, esta que o homem encontra em seu estado de decaimento após o pecado original, a existência se humana constitui radicalmente enquanto "hábito" "costume", e não mais de modo algum como "nature vraie".  Este princípio “Queda”, que Pascal trabalha, tem a sua origem no pecado do homem diante do seu criador. O homem quis fazer de si causa final e objeto de delícias prescindindo-se, do único e digno de tal status: Deus. Por essa razão, o homem-criatura foi precipitado a um segundo estado de natureza. Já não mais em um estado sadio como fora criado outrora, mas sim um estado no qual as suas misérias lhe são visíveis, e mais, são causa de inquietude e tormento.

O pecado consiste num ato de orgulho da vontade que se revela contra a ordem em que se encontrava o homem[1], e muda o centro da sua vida. Em vez de considerar Deus como centro e objeto de seu amor, o homem coloca a vontade no centro do seu amor. Essa mudança atinge todos os planos do ser humano.

No interior do homem, a razão foi atingida por três vezes: não pode conhecer os primeiros princípios que lhe são comunicados pelo coração; a verdade não pode ser recebida na alma a menos que seja aceite pela vontade, que é o guia do intelecto; a razão é atingida uma terceira vez pela guerra que ela trava com a imaginação. Essas três limitações fazem com que a razão não esteja em condição de fixar um valor às coisas.

Se no estado de perfeição, a razão, que encontrava a sua fonte na luz comunicada por Deus, estava em condição de guiar todas as suas faculdades, no estado de pecado, ele se deixa guiar pelos sentidos na busca do prazer da carne. Os sentidos orientam a razão, rumo ao conhecimento da criatura, e a satisfação de todas as necessidades do corpo enquanto carne. No estado de pós-queda, o homem encontra-se numa situação tal que, tendo a vontade operado esse deslocamento, os sentidos podem indicar à razão onde se encontra o prazer e levá-lo ao conhecimento dos objetos que o satisfaçam. Mas, fazendo-se de si, o centro inverteu também a ordem hierárquica em que se encontrava em relação aos outros seres.

Antes do pecado havia uma espécie de graduação dos seres, que partindo do mais baixo grau de perfeição, o dos animais, passando pelos homens chegando até Deus, definia também estados de dominação dos mais perfeitos sobre os menos perfeitos. Amor de Deus e submissão à sua vontade coincidiam perfeitamente na vontade do homem. Assim, todos os seres animados lhe eram submissos, como ele próprio era submisso a Deus. Depois do pecado a desordem introduzida no mundo pela mudança do centro, o desejo repercutiu também nas relações de dominação e de submissão, assim como entre o homem e a criatura. O pecado subverteu a ordem em que as faculdades humanas estavam dispostas, perturbando a hierarquia que lhes permitia atingir a visão de Deus. O intelecto, e o espírito sofreram as consequências do pecado que enfraqueceu de modo considerável as suas capacidades.

Concordamos com Pascal, quando afirma que, “...o homem é uma criatura que o pecado impede de coincidir consigo mesmo, esquartejada entre o coração que sabe com certeza um saber indemonstrável e a razão que não pode senão tender para o saber convincente”. Diante deste quadro, afirmamos que, a antropologia pascaliana, fundado num princípio teológico (o homem é um ser decaído), é, antes de tudo, uma antropologia que se pode observar, pois é passível de verificação na realidade (o homem não é soberano). A queda é um mito que explica o que vemos no quotidiano.

Assim, em resumo,  elenca-se um conjunto de consequências do pecado original, começando pela destruição da harmonia entre a criatura e o criador, pelo rompimento do domínio das faculdades espirituais da alma sobre o corpo, pela  união entre o homem e a mulher que passa a ser  submetida a tensões, e por isso, suas relações passam a ser  marcadas pela cupidez e pela dominação, pela hostilidade que passa a habitar o ser do homem, pela servidão e corrupção, e, finalmente, se realiza a consequência explicitamente anunciada para o caso de desobediência: o homem 'voltará ao pó do qual é formado' a corrupção universal em decorrência do pecado. Portanto, a morte entra na história da humanidade.


'Pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores'(Rm 5,19). 'Como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, assim a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram...'(Rm 5,12).

A problemática das duas naturezas, que vimos, apresenta um conceito de insuficiência não sob um formato de falta de algum componente estrutural, mas de um cenário no qual a insuficiência surge como consequência de uma não organização entre os componentes antropológicos do homem: Adão era feliz e desejou o mal. Pensar o homem como um ser atormentado por ter duas naturezas é uma das figuras mais fortes da condição insuficiente, pois ela nos remete a uma espécie de falta de funcionalidade humana em virtude de uma multiplicidade de estruturas antropológicas componentes.

Pode-se concluir que, na antropologia pascalina, o homem é o que ele é, antes e depois do pecado, não porque é um senhor  sem Deus, mas porque Deus planeou o Homem como uma criatura, que só pode ser completa quando ligada a si, e, por meio dele o home se realiza como criatura que  necessita de ser resgatado pelo amor de Deus perdida com a Queda.



Bibliografia:
PARRAZ, Ivonil. A Existência em Pascal. Filosofia: (2008). ciência & vida, São Paulo, n. 20, p. 28-37. 
GASTON, Henry Gouhier. Blaise Pascal: “Conversão e Apologética”. (Março de 2000) Tradução de E. M. Itokazu – H. Santiago. São Paulo: Discurso Editorial, 
PONDÉ, Luiz Felipe. O Homem Insuficiente (1979). Comentários de Antropologia pascaliana São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 
http://www.uece.br/polymatheia/dmdocuments/polymatheia_v4n5_segunda_natureza_pascal_hegel.pdf
[1] PASCAL - “ Oeuvres Complétes, pág. 952” ... O pecado original somos todos culpados...”


quinta-feira, 18 de julho de 2013

A MISÉRIA DA CONDIÇÃO HUMANA E A SOLUÇÃO RELIGIOSA


Por Miguel Duclós.

Não conhecemos nem o estado glorioso de Adão, nem a natureza do seu pecado, nem a transmissão que dele se fez em nós. São coisas que se passaram no estado de uma natureza toda diferente da nossa e que vão além da nossa capacidade presente (Pascal 7, fr. 560/431, pág. 176).

Pascal evita especulações excessivas sobre o paraíso adâmico, ao contrário de Agostinho que discorre longamente sobre o assunto. Entretanto, nos Escritos sobre a graça, o apologista vê-se obrigado a tratar da questão (e para isso apela para a teologia agostiniana) para garantir que a condenação de Adão não foi injusta e que este teve o poder e a liberdade de pecar. Assumindo o pecado original, Pascal pode se calar sobre a questão da transmissão do pecado. Esta obscuridade, porém, não nos impede de ver que o pecado teve alcance infinito e que a culpabilidade foi humana.

O homem quis fazer-se centro de si mesmo. Sua grandeza junto a Deus fê-lo pensar que podia ser grande por si só. O orgulho levou-o, deste modo, para a miséria. Se não tivesse feito isso, Adão poderia ter uma eternidade de vida e felicidade para si e seus descendentes. Pecando, obteve dor, sofrimento, morte e condenação eterna para toda a humanidade. Após o pecado, o homem tornou-se pequeno e miserável, e por isso nenhuma de suas boas ações pôde compensar o mal criado por Adão. Só ele tinha a grandeza para escolher livremente, sem atrações irresistíveis, entre o mal e o bem eterno, só ele tinha proporção com o infinito. Por esta razão é justo que Deus condene toda a posteridade em nome do pecado de Adão: nenhuma das virtudes humanas pode recuperar tal proporção. Através de Adão, o homem escravizou-se à concupiscência. Como diz Pascal na 

Carta sobre a morte de seu pai: Deus criou o Homem com dois amores, um por Deus, outro por si mesmo; mas com esta lei, que o amor por Deus seria infinito, isto é, sem nenhum outro fim além de Deus mesmo, e que o amor por si mesmo seria finito e ligando-se a Deus. (...) O pecado tendo chegado, o homem perdeu o primeiro destes amores; e o amor por si ficou nesta grande alma capaz de um amor infinito; este amor próprio se estendeu e inundou o vazio deixado pelo amor de Deus; e assim ele se amou por si e a todas as coisas por si, isto é, infinitamente. (Pascal 6, pág. 277)

A partir disto, o homem tornou-se um campo de batalha: o corpo luta contra a alma e ambos lutam contra Deus. A carne passou a ser uma inimiga ferrenha da salvação e dominou todo o ser humano. Por isso, nenhuma possibilidade de conversão existe enquanto o homem não odeia a si mesmo e se anula totalmente para se colocar à disposição de Deus. A conversão verdadeira consiste em aniquilar-se diante desse ser universal que tantas vezes tem sido irritado e que pode perder-vos legitimamente a todo momento. (Pascal 7, fr. 470/378, pág. 153

A existência humana, para Pascal, é paradoxal, quando colocada em relação com os dois extremos opostos, tudo e nada. Existe um dualismo presente em todas as coisas. A busca pela superação deste paradoxo nos leva a formular uma série de teorias, que quando aceitas, trazem de volta ao bem estar e ao terreno seguro e constante do Ser.

Nos pensamentos de Pascal, a condição humana é colocada em relação: ele tanto pode ser como não ser. O tema dos dois extremos opostos aparece em várias passagens dos Pensamentos: “o homem é nada em relação ao infinito, tudo em relação ao nada”. Para Pascal, o homem é este ponto intermediário entre o tudo e o nada, ponto este pertencente à estrutura interna, psicológica do homem, vivendo em meio à estrutura maior do universo. Por isso, é impossível ao homem conhecer a verdade, pois esta exige o conhecimento dos dois extremos.

O ser humano é um ser deslocado perante a imensidão da natureza, e esta não lhe é ermitido conhecê-la nem de maneira mais vaga. O homem está deslocado justamente por causa do seu odiável e tirano eu, que de forma irreal, se coloca como o centro do mundo, para poder construir o mundo perceptivo e social visto através de sua perspectiva. O eu não é em si, mas algo criado. Para manter seu amor ao eu, o homem tem de inventar inúmeros mentiras e disfarces. O caráter intrínseco do eu e da personalidade humana, é, portanto, hipocrisia e enganação.

O tema do eu na filosofia ganha tratamento específico a partir de Descartes. Porém, no desenvolvimento do seu próprio pensamento filosófico, e especialmente depois de sua conversão ao cristianismo, Pascal se põe numa posição contrária à orientação racionalista de Descartes. Pascal julga pretensioso o projeto que Descartes de dar os alicerces da construção de uma ciência universal, e não concorda com Descartes, que através de sua dúvida metódica, reduziu o mundo a uma dimensão solipsista, até chegar à primeira verdade: o eu é uma coisa que pensa. Pascal  condena o uso de Deus em Descartes, que serviria “apenas” para objetivar o mundo.

Embora Pascal releve importância fundamental ao pensamento, seu eu está bem longe da concepção de cogito cartesiano, que é a condição primeira para a existência, e portanto do saber humano. Em Descartes, o ponto fixo é a busca desta verdade primeira, sob a qual se pode erguer o edifício das ciências, que resultou no cogito. Em Pascal, o ponto fixo está ligado à busca  de princípios morais fixos, uma vez que o eu está sempre em movimento. A natureza do homem é movimento, fluxo, só os mortos permanecem em repouso.

Se para Descartes o cogito é como a alavanca de Arquimedes que permite mover o mundo, para Pascal o ponto fixo é um ponto de vista que adequado para refletir sobre a verdade e o mundo. É um ponto que lhe permite refletir sobre sua situação paradoxal, e um ponto de equilíbrio entre os dois extremos. Qualquer movimento em direção a um dos contrários é um movimento perigoso, que afasta do outro. Logo, a questão do equilíbrio passa a ser crucial. Este ponto de equilíbrio não é intermediário, mas sim o princípio de alheamento que proporciona a conciliação entre os dois extremos; mesmo sem eles deixarem de existir, o ponto de equilíbrio oferece a posição necessária para o homem refletir sobre sua condição a partir de seu próprio conflito. Este ponto é dado pela religião, quando o homem reconhece sua miséria, e por isso torna-se grande. Admitindo Deus e Jesus Cristo como o centro e a razão de todas as coisas, o homem encontra consolo e repouso para sua alma. Somente em Deus os dois extremos se unem, num círculo. Porém, para conhecer Deus, o homem deve primeiro saber-se nada. Sabendo-se nada, torna-se tudo. É este o segredo que o fino moralismo de Pascal guarda o de que, ao livrar-se de sua máscara que a arrogância, o amor e o ódio ao eu produzem, o homem consegue achar uma solução para a tensão entre os dois contrários.

Mas Deus não é conhecido pela razão. O espírito geométrico não ocupa a totalidade do espírito, o sentimento, com efeito, é mais presente do que o raciocínio. É por uma faculdade específica humana, um tipo de inteligência imediata e intuitiva, que é permitido ao homem a compreensão de que Deus existe e das verdades reveladas. O coração, diz Pascal, tem razões que a própria razão desconhece, e é ele quem permite perceber a conciliação  entre os dois infinitos: a de que Jesus é o mediador entre o finito e o infinito.

Assim, está na religião, pelo menos o consolo para a verdade de que o homem, ser transitório, não passa de folha ao vento, barco navegando sem rumo pela imensidão do mundo, julgando ser verdade que é o mundo relativo a ele, e não ele em relativo ao mundo, criando seu próprio centro com o auxílio frágil do eu e da razão, um sendo uma mentira, a outra, frágil demais para conhecer a verdade. A religião, através da igreja proporciona  a fusão entre sujeito e objeto. A relação com Cristo dissolve o Eu. A conduta moral deve sempre lembrar do dever de conduzir bem o pensamento. Isto significa que a verdade é complexa, feita de elementos múltiplos e discordantes. Nunca devemos nos esquecer desta verdade. Na moral de Pascal, existe, devido a esse caráter complexo, uma  procura de uma prática da anatomia moral, que busca o funcionamento secreto das paixões.

Referências

DESCARTES, René. Descartes. Volume da coleção Os Pensadores, vários livros. Editora Nova Cultural. São Paulo, 1996.
LEBRUN, Gérard. Pascal Coleção Encanto Radical. Editora Brasiliense, São Paulo.
MARTON, Scarlett. “Pascal: a busca do ponto fixo e a prática do anatomia moral”, in Revista Discurso nº 24. Discurso Editoral, São Paulo, 1994.
PASCAL, Blaise. Pensamentos in Os Pensadores, volume XVI, editora Abril Cultural. São Paulo, 1973.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O HOMEM INSUFICIENTE

Comentários de antropologia pascalina.


TRECHO DO LIVRO:

“[...] A insuficiência se revela, portanto, como um conceito que, ao mesmo tempo que indica a raíz teológica do homem como ser concebido para o Sobrenatural –  princípio que recusa a natureza como conceito que dê conta do homem porque não aceita a posição ‘naturalista’ que exclui a ‘sobrenatureza’ enquanto premissa estrutural e dinâmica –, e assim nega a suficiência natural como realidade válida para o homem, é também vivido como miséria a partir do instante em que o homem abandona essa condição de insuficiência diante do mistério (insuficiência mística) pelo projeto de suficiência ‘humanista-naturalista’: trajeto conceitual da queda.

Na origem da antropologia pascaliana, a insuficiência representa essencialmente a idéia de que o conceito de natureza suficiente é inconsistente para iluminar a realidade humana. É por isso que, quando tomado como natureza, o  omem se revela desordenado.

Quando condenado a viver como se fora um ser de natureza, após a queda, revela-se insuficiente empiricamente: o homem como um agrupamento de componentes e funções não faz sistema, pois tais componentes e funções não se integram fundando uma ordem — natureza disjuntiva. Essa ausência de sistema é a raiz da insuficiência como miséria.

A manifestação empírica dessa insuficiência como ausência de sistema é a diversidade da miséria no homem exterior. Resumindo: o homem é um ser que, quando exilado do Sobrenatural, seu caráter místico-teológico insuficiente — ele não é um ser de natureza –, se degenera na multiplicidade da miséria. O que o homem interior viveria como mistério divino no exterior degenera em miséria humana.