" O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza. Mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota, de água, bastam para matá-lo. Mas, mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria mais nobre do que quem o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso"
Aprendam ao menos qual é a fé que rejeitam, antes de rejeitá-la. Se esta religião se vangloriasse de ter uma clara visão de Deus e de possuí-la abertamente e sem véus, seria efetivamente um modo de combatê-la o dizer que não se vê nada no mundo que no-la mostre com tal evidência. Mas o cristianismo diz, ao contrário, que os homens estão nas trevas e no forçado afastamento de Deus, que ele se escondeu do conhecimento deles, que é precisamente este o nome que ele a si mesmo se dá nas Escrituras; Deus escondido, Deus absconditus...
Na discussão que Pascal descreveu nas Cartas Provinciais como "perniciosamente
negligente" a moral dos jesuítas, ele classifica muitas ações humanas -
como o homicídio, nos casos em que não é justificável como autodefesa - como imoral. Ele caracteriza essas ações imorais de diversas
maneiras como contrárias à "luz natural", ao "senso comum"
ou à "lei natural". Como Ferreyrolles (1984) mostra, existem
inúmeras referências em Pascal sobre uma "lei da natureza". Entretanto,
Pascal não discute se essa lei natural pode ser descoberta pela razão, ou que
adquire sua força obrigatória da convenção ou dos contratos humanos.
A interpretação jansenista da condição
humana implicava que a natureza humana é corrupta e, portanto, que a razão é uma guia moral não confiável. "Há
indubitavelmente leis naturais, mas a nossa corrompida razão corrompeu tudo"
(Fragmento 56: II, 560). De acordo com este ponto de vista, Deus forneceu
orientação moral confiável aos seres humanos no estado de pré-lapso (antes da queda), e alguns resquícios da lei de Deus continuam a ser refletidos
na natureza caída. A lei natural, portanto, é o que resta da lei de Deus
no estado de concupiscência da natureza humana após a queda. Não há,
portanto, em Pascal um relato filosófico independente da moralidade, a não ser
pela lei de Deus mais ou menos revelada.
De acordo com a lei de Deus, ou aqueles
elementos que sobrevivem nas opiniões amplamente aceitas pelos homens em todo mundo,
existem certas ações que são intrinsecamente maus ou bons. Nossos deveres
morais incluem não apenas os exemplos mais familiares, como a obrigação de
abster-se de homicídio voluntário; Pascal também cita com aprovação que "somos obrigados pela
justiça a dar esmolas do nosso excedente, a aliviar até mesmo as necessidades
comuns dos pobres [...] aqueles que são ricos são meros mordomos do seu
excedente, a fim de dar a quem quer que eles escolherem entre aqueles que estão
em necessidade "( Cartas : I, 714).
Tendo assumido que existem obrigações
morais objetivas, Pascal dirige sua crítica, tanto nas Cartas Provinciais como em suas
contribuições aos Écrits des Curésde Paris[1] (Escritos
dos padres de Paris), à alegação, atribuída aos jesuítas, de que se pode mudar
o caráter moral e a intenção das ações realizadas por um “mudando” no momento em
que é praticado. Por isso, se um agente age de forma imoral, enquanto
formalmente pretende agir de forma imoral, nada pode justificar a ação em
questão. Em todos os outros casos, porém, Pascal descreveu a casuística
dos jesuítas como ensinando que é possível modificar o caráter moral de uma
ação aplicando o método de "dirigir
a intenção, que consiste em selecionar algo que é permitido como objetivo de
nossas ações" (Cartas: I,649). Esta fuga da responsabilidade
moral baseia-se no princípio de que "é a intenção que determina a
qualidade [moral] de uma ação" ( Cartas : I, 679).
A alegação de que alguém poderia dirigir a
intenção de alguém para longe daquilo que de outra forma é uma ação moralmente
repreensível era consistente com a defesa dos casuístas da doutrina do "probabilismo". Esta doutrina,
a que também se opôs Pascal, significava que se podia decidir questões morais
de acordo com qualquer opinião que se diz ser "provável", mesmo que
seja muito menos provável do que opiniões alternativas. 'Provável' nesse
contexto teve pouco a ver com cálculos de probabilidade, mas foi definido como
"tudo o que é aprovado por autores
bem conhecidos" ( Cartas : I, 732). Os limites do que
era moralmente aceitável foram assim fornecidos examinando os escritos de
autores aprovados e encontrando as opiniões morais menos exigentes disponíveis
na literatura. A crítica satírica de Pascal à casuística jesuítica
pressupõe, ao contrário, que as ações humanas têm um caráter moral que é
independente dos pensamentos ou intenções particulares do agente que os
executa, e que não se pode melhorá-las com resultados "intencionais"
que diferem do real efeito ou consequências que se seguem naturalmente de uma
determinada ação. Nesse sentido, a crítica de Pascal é uma versão inicial
de uma objeção moderna ao chamado "Princípio do duplo efeito".
A teoria política de Pascal também foi
ditada pelo seu relato da concupiscência humana. De acordo com o Fragmento
90 das Pensées, "a concupiscência e a força são as fontes de
todas as nossas ações. A concupiscência provoca ações voluntárias, e a
força provoca aquelas que são involuntárias" (II, 570). Embora o
estado de natureza antes da queda de Adão fosse capaz de orientar o comportamento
humano, as relações humanas estão agora completamente comprometidas pela
concupiscência e pelo exercício do poder por uma pessoa sobre outra. Um
efeito inevitável desta subserviência indesejável é que somos coagidos a
obedecer àqueles que exercem poder político sobre nós, e isso pode ser
interpretado como punição para nossa condição pecaminosa. Esta
interpretação pessimista do poder político e seu possível abuso coincidiu com a
de Lutero e Calvino. Les Trois
discours sur la condition des grands[2](Os três discursos sobre a condição dos grandes) distinguem entre
dons naturais ou habilidades, que variam de um indivíduo para outro e podem
servir de base para nossa estima e variações de status social ou poder
político, que resultam da contingência humana e requerem apenas que nós obedeçamos
aqueles que são nossos superiores (II, 194-9). A igualdade natural dos
seres humanos que está implícita nesta análise, no entanto, não fornece
qualquer base para qualquer teoria da justiça que justifique a oposição a uma
sociedade civil estabelecida ou governo, por mais tirânico que seja (Bove et
al.,2007: Pp. 295 ss). Na verdade, não há uma perspectiva independente
disponível para corromper seres humanos a partir do qual se pode questionar se
as leis de um país são justas; elas são justas, por definição, simplesmente
porque eles são as leis. "A
justiça é o que está estabelecido; assim todas as nossas leis
estabelecidas serão necessariamente aceitas como justas sem ser examinadas,
porque elas são estabelecidas"(Fragmento 545: II, 776). Uma
expressão mais extrema da mesma visão, nas Pensées , é que "a justiça, como a elegância, é ditada pela
moda" (Fragmento 57; II, 562).
Esse conservadorismo político, parcialmente
motivado pela experiência de guerras de Pascal e, em parte, pela sua teoria da
natureza humana corrupta, reflete-se em sua afirmação de que "o pior mal de todos é a guerra civil"
(Fragmento 87: II, 569). Nas Cartas Provinciais, dirige os leitores o ensinamento moral
dos Evangelhos para guiá-los na ação política. "A Igreja[...] sempre ensinou seus filhos a não fazer mal pelo mal[...]
obedecer aos magistrados e superiores, mesmo aos injustos, porque devemos
sempre respeitar neles o poder de Deus que os colocou sobre nós" (I,
744 ). Essa tolerância compulsória ao status quo, por causa do bem comum,
não impede avaliações comparativas do mérito ou de outra natureza de sistemas
políticos diferentes. No entanto, mesmo em tais avaliações, o critério
aplicado por Pascal permaneceu estreita e teologicamente focado na medida em
que os arranjos políticos facilitaram os cidadãos no desempenho de seus deveres
primordiais para com Deus.
A atitude apropriada dos sujeitos ou dos cidadãos às autoridades
políticas estabelecidas que os governam foi exemplificada, pela demanda dos
poderes civis em Paris de que mesmo os jansenistas tinham de assinar e obedecer
o formulário que condenava as cinco proposições supostamente encontradas na
obra de Jansen. Os dissidentes como Pascal não eram obrigados a
concordar, em consciência, com o que não acreditavam; mas eram obrigados a
assentir em seu comportamento, e a obedecer a seus superiores políticos e
eclesiásticos. Da mesma forma, os sujeitos da política de Pascal não eram
obrigados a estimar seus senhores políticos, nem a manter crenças sobre eles
como seres humanos que eles não acreditavam serem verdadeiros. Bastava que
os obedecessem, observassem as leis em seu comportamento e lhes oferecessem a reverência pública adequada a seu status de representantes de Deus, dignos ou
não, na terra.
[1]Os escritos dos Padres de Paris são um conjunto de nove panfletos publicados entre janeiro 1658 e junho 1659, a fim de condenar o pedido de desculpas pelos casuístas, e mais geralmente às críticas da Companhia de Jesus; escrito em nome dos párocos de Paris. Eles foram escritos por um grupo de autores próximos ao jansenismo: Pierre Nicole, Antoine Arnauld e Blaise Pascal. [2] Três discursos sobre a condição do grandes, é um conjunto de discursos educacionais por Blaise Pascal ao futuro duque de Chevreuse Charles-Honoré d'Albert , escritos provavelmente por volta de 1660 . Eles são reconstruídos e transcrita por Pierre Nicole em seu livro A partir da educação de um príncipe, publicado em 1670.
Agradeço a Deus por mais essa oportunidade de estar
realizando mais esse sonho, aos meus pais que não estão mais entre nós, mas,
devem estar orgulhosos de mim, a CAPES, que financiou minha bolsa de estudos, a
PUC e a todos os colegas e professores, e especialmente ao meu orientador que
me abriu as portas aqui na PUC, ao professor Edênico que esteve na minha
qualificação e está aqui de novo, ao professor Andrei que se disponibilizou em
participar dessa banca, aos professores suplentes Ênio Silva e Ivinil Parraz, e
o professor Queiroz e a todos vocês que estão aqui presentes.
TEMA:
ØPARADOXOS DA CONDIÇÃO HUMANA: Grandeza e Miséria
Humana como Paradoxo Fundamental na filosofia de Blaise Pascal.
OBJETIVO GERAL:
ØInvestigar e analisar a concepção existencial do
homem paradoxal presente na obra Pensamentos de Blaise Pascal.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS: ØInvestigar os precursores filosóficos e teológicos
do conceito de natureza humana e a gênese da visão antropológica do homem
pascaliano; ØAnalisar os estados da natureza humana “antes e
depois da queda” e os efeitos da herança do pecado adâmico; ØAnalisar a condição
paradoxal do homem, entre miséria e grandeza como problema da fundamentação do
conhecimento humano; Ø Analisar as
dimensões do conhecimento humano em Pascal e os paradoxos que fazem do eu um
ser dividido entre miséria e grandeza; ØAnalisar os efeitos imaginação, do divertimento e da
angustia na filosofia de Pascal.
PROBLEMA DE PESQUISA ØAté que ponto legado filosófico e teológico pascaliano
sobre a condição paradoxal do homem, revela-se atual nos dias de hoje.
HPOTESE: ØPartindo do pressuposto teológico (pecado original) e, consequentemente a
queda, analisar a concepção antropológica paradoxal do homem pascaliano,
visando corroborar a tese de Pascal segundo a qual “a grandeza do homem
é grande por ele conhecer-se miserável [...] É então ser miserável conhecer
(-se) miserável, mas é ser grande conhecer que se é miserável”.
ORGANIZAÇÃO DA
DISSERTAÇÃO
CAPÍTULO – I
Do pensamento de Blaise pascal: gênese – afirmação – reconhecimento: ØCaráter introdutório e biográfico de Pascal, onde
ilustramos três momentos distintos na formação do seu pensamento: a gênese, a afirmação e o reconhecimento
da obra de e a repercussão do seu legado.
ØAnalisamos as bases teóricas para a compreensão do
homem pascaliano, através do estudo antropológico, relacionando assim as duas
antropologias com os dois estados de natureza humana (antes de depois da queda)
para que pudéssemos fundamentar o conhecimento do homem em suas múltiplas
dimensões, como ser natural e racionalmente limitado, e melhor compreender os
paradoxos humanos.
CAPÍTULO
IV
Grandeza e miséria como paradoxo fundamental na filosofia de Pascal ØAnalisamos os conceitos de grandeza e miséria como argumento
antropológico em Pascal que, “começa com a observação: os seres humanos exibem qualidades de grandeza e miséria”. Essa
premissa norteou nossa investigação e nos permitiu confirmar à luz do
pensamento pascaliano e de outros scholars,
a hipótese inicial.
ØNosso foco foi a epistemologia e a psicologia
pascalianas, uma vez que, existe entre elas uma relação estreita. Ambas são marcadas
por traços de insuficiência, desproporção e miséria existencial, observáveis
empiricamente a partir do momento em que o homem passa a constatar sua
verdadeira natureza.
1.
Do pensamento de Blaise pascal gênese – afirmação – reconhecimento
Numa breve apresentação de Pascal Bem Rogers Afirma
que:
Sabemos pouco e paradoxalmente
sabemos muito sobre Pascal. Primeiro porque não escreveu sobre si mesmo,
entretanto sabemos muito porque seus escritos sobre a natureza humana, a
sociedade e a salvação dizem muito sobre ele.
Blaise Pascal (1623-1662)
considerado como sendo gênio da ciência, (matemático, físico), filósofo,
teólogo, gênio da literatura universal, defensor do cristianismo, polemista mordaz.
Em muitos aspectos pode ser considerado o homem mais representativo da França. Jacques
Attali ousa afirmar que:
O que Platão é para Grécia, Dante para
Itália, Cervantes ou Santa Teresa para a Espanha, Shakespeare para
Grã-Bretanha, Pascal é para a França.
Mas não foi fácil chegar a esse
patamar, primeiro censurado, depois negligenciado, para depois ser admirado e
objeto de culto. Embora tenha tido uma vida breve, soube justificar sua
existência. De criança prodígio a gênio, não foi preciso muito tempo, mas, tudo
foi à custa de um corpo débil que após vários trabalhos ligados à ciência retomou
o caminho da religião. Não há dúvidas que Pascal, foi realente um apologeta,
que soube compreender o drama de sua época e a tragédia vivida pelos homens. Sua
apologia propõe métodos e conteúdos atuais, porque dirige diretamente ao
coração do homem, lá onde cada um sente amado e provocado.
2. Precursores
filosóficos e teológicos da concepção da natureza humana em Pascal
Ao investigarmos sobre a natureza
humana em Pascal, quando traçamos um paralelo com outros pensadores é inegável
que se tenha ora aproximado, ora afastada dos mesmos, como forma de fundamentar
sua própria concepção. Ele organiza seu pensamento em torno de questões que já
haviam sido tratados por Santo Agostinho. Acabamos observando que as posições assumidas
posteriormente acabam corroborando as teses que emergiram da controvérsia entre
Agostinho e Pelágio. De entre esses pensadores investigados, o que mais próximo
de Pascal, é Descartes, a quem conheceu pessoalmente (1647), mas, como ficou
expresso, o clima reinante entre os dois não era propriamente de amizade.
Pascal, muitas vezes critica seu contemporâneo, chegando mesmo a apelida-lo de
inútil e incerto.
Porém, suas contribuições e as dos outros
pensadores, foram determinantes, uma vez que, Pascal, por experiência sabe que
não se deve descartar o contraditório. É por isso que o homem pode viver com
suas contrariedades, suas fraquezas e grandezas, sua fé e sua razão, sua
suficiência e sua insuficiência. Assim concluímos que, a natureza humana em
Pascal é marcada pela inconstância, diversidade, relatividade, contingência,
paradoxo e desproporção. O homem parece estar suspenso entre o nada e o
supremo: muito mais que o nada, muito menos que o supremo, (ser do meio) suas
realizações parecem conduzi-lo ao nada ou a transcendência.
3. Concepção
antropológica do homem pascaliano
Seguramente, a antropologia
pascaliana tem raízes na interpretação bíblica, em torno do pecado original[1], da queda, do
livre-arbítrio e da graça. Ele funda um campo antropológico da INSUFICIENCIA
humana, partindo de uma questão teológica (abstrata), para chegar ao aspecto
psicológico, social, político, epistemológico e mesmo ontológico da
insuficiência.
Nesse aspecto a interpretação das
três ordens desempenha um papel fundamental na compreensão da antropologia
existencialista pascaliana, na medida em que nos ajuda a entender melhor a
verdadeira situação do homem após a queda e a relacionar as três concupiscências
(carne, olhos e orgulho) com as três ordens das coisas (carne, espírito e
vontade) para melhor distinguir os três tipos de homens (carnais, curiosos e
sábios).
Entre essas três ordens não há
possibilidades comunicação, tendo em conta as suas naturezas disjuntivas. Para
André Comte Sponville, “Pascal é o filósofo que separa as ordens, e por isso
sua filosofia é trágica.” Uma coisa é certa, Pascal, está convicto que, depois
da queda o espírito humano perdeu o poder de discernir a verdade, inclusive no
campo religioso.
Como foi referido o argumento
antropológico de Pascal começa com a seguinte observação: os
seres humanos exibem qualidades ou traços de grandeza e de infinitas
misérias. Para
Robert Velarde:
Esse
argumento é atraente, porque começa com uma observação da natureza humana, em
vez de um argumento à existência de Deus, a confiabilidade na Bíblia, a
validade da crença na ressurreição de Cristo.
Em nossa opinião, a formulação desse
argumento teve como precursores dois filósofos: Epiteto e Montaigne, cada um
representando uma corrente filosófica, o Estoicismo e o Ceticismo, (análise
unilateral do homem). Mas, nem um, nem outro estava certo, uma vez que segundo
Pascal, a verdadeira condição do homem, só pode estar na conjugação dessas duas
posições sobre o homem. Segundo Peter Kreeft.
Os filósofos não deveriam ser divididos em “otimistas”
e “pessimistas” ou em filósofos da grandeza e miséria, mas em “paradoxicalists”
e “nonparadoxicalists”. Paradoxicalists são filósofos como Pascal que tem uma
visão aberta para ver em ambas as direções. Ver para o homem com ambos os olhos
abertos. Muitos filósofos são
unidimensionais (nomparadoxicalists) porque cobrem um dos olhos.
Segundo Pascal, o homem vive uma
situação paradoxal marcada por traços de grandeza e miséria. No plano interno,
ela reflete-se na luta entre a razão e as paixões; no plano externo entre o
homem e a natureza. Apesar de viver constantemente em guerra consigo mesmo e
com os outros, o homem ambiciona o amor e a estima dos outros. De acordo comFranklin L. e Silva
Isso acontece porque a
contradição está presente na natureza humana. Existe em nós uma grandeza, (origem
divina) e uma miséria, (pecado original), e fora dessa contradição constitutiva
de nós mesmos, não há conhecimento possível.
É por isso que é perigoso
demonstrar ao homem sua miséria sem lhe mostrar a sua grandeza. E é também
perigoso mostrar-lhe demais a sua grandeza sem a sua miséria. É mais perigoso
ainda deixá-lo ignorar uma e outra coisa, mas é vantajosíssimo apresentar-lhe
uma e outra.
É incontestável para nós que exista
uma relação estreita entre a epistemologia e a psicologia pascaliana, uma vez
que, na sua epistemologia, não existe uma “razão suficiente” como queria
Descartes. A razão humana segundo Pondé é reclusa de um “provincianismo
cognitivo”. Peter Kreeft afirma que:
Ela
não é inválida, mas é fraca, Ela é como a visão humana: somente uma estreita
faixa de uma cor é visível para ela. Todos os extremos são invisíveis para os
olhos e incompreensíveis para a razão.
Entretanto, ao perceber sua
condição insuficiente, nada mais lhe resta a não ser apelar à imaginação, como
forma de superar suas barreiras cognitivas, mas, a imaginação, nada mais é do
que a superpotência enganadora da razão. Sozinho, infeliz, incapaz de
transcender sua condição miserável, o homem cai no tédio, após várias
tentativas de fuga se si mesmo através do divertimento.
Finalizando, não temos dúvida que
nossos objetivos foram atingidos e nossa hipótese corroborada por várias
passagens ao longo da dissertação que traz a tona, a tragicidade com que Pascal
analisa o destino do homem pelaarrogância de querer igualar-se a Deus, pela finitude
diante da infinitude e da atemporalidade do seu Criador, pela sua miserabilidade
existencial, pela pigmeização diante de um universo grandioso, pela incapacidade
racional de ordenar e conhecer tudo o que o rodeia e o transcende e pela infinita
procura do lugar perdido, enfim, tudo no homem, parece começar e terminar com “gemidos”
de dor e de desespero.
PARA ACESSAR A DISSERTAÇÃO NA INTEGRA, CLIQUE AQUI:
[1]O conceito teológico de “pecado original” apoia em
várias passagens das Escrituras: a Epístola de Paulo aos
Romanos (5:12-21) e aos Coríntios (1 Co 15:22), e uma passagem
do Salmo 51, Pascal fará a distinção entre os dois estados do homem “antes
e depois do pecado”.
O Jansenismo, pode ser definido sob duas perceptivas:
1. Conjunto de princípios estabelecidos por Cornélio Jansênio (1585-1638), bispo de Ipres condenado como herege pela Igreja Católica, que enfatizam a predestinação, negam o livre-arbítrio e sustentam ser a natureza humana por si só incapaz do bem.
2. Movimento político que se originou do jansenismo
teológico e, estimulado pela oposição dos religiosos da abadia de Port-Royal a
Luís XIV, prolongou-se por todo o sec. XVIII.
JANSENISMO NO BRASIL
A obra "Jansenismo no Brasil"do Padre Amarildo José de Melo, revela como o
fenômeno do jansenismo marcou profundamente o catolicismo, sobretudo no Brasil.
O autor aponta a centralização da moral no pecado, o medo da condenação, a
moral sexual repressiva, dentre outras questões, como consequências diretas desse
fenômeno. Além de mostrar a influência do jansenismo na formação do ethos
católico brasileiro, o livro revela que o fenômeno pode estar voltando com
outras cores e expressões.
Segundo ele, o jansenismo chegou ao Brasil
via Portugal, ainda no século XVIII. Na Metrópole, a novidade ganhou força nos
tempos do Marquês de Pombal, cuja reforma pedagógica impôs nas escolas
primárias o uso da tradução do Catecismo de Montpellier, elaborada
pelo bispo de Évora, Dom João Cosme da Cunha (1715-1783). E, não obstante
fosse mais que sabido que tal Catecismo havia sido condenado pela
Igreja em 21 de janeiro de 1721, o alvará de 9 de outubro de 1770,
publicado na chancelaria mor, o oficializaria.
RELIGARE: CONHECIMENTO E RELIGIÃO SOBRE JANSENISMO NO BRASIL
O Jansenismo deixou marcas
profundas na moral cristã moderna e influenciou decisivamente o ethos católico
brasileiro. A centralização da moral no pecado, o rigor, o medo da condenação,
os escrúpulos de consciência, a dependência da confissão, a estreita ligação
entre a confissão e a eucaristia, são alguns de seus sinais, junto com uma
moral sexual repressiva. Uma soteriologia profundamente expiatória integra a
base desta antropologia teológica. Mas o Jansenismo tem também injunções
políticas, marcantes na Europa e no Brasil. Longe de ser página virada na
história, ele continua como hermenêutica de vida, presente na atualidade. E
pode estar voltando hoje com outras cores e expressões.
Amarildo José de melo, é natural de Araújos-MG, é doutor
em História da Teologia Moral pela Academia Alfonsiana deRoma; mestre em
Teologia; licenciado em Filosofi a; membro da Sociedade Brasileira de Teologia
Moral (SBTM); professor de Teologia Moral no Instituto Santo Tomás de Aquino
(ISTA-BH) e no Instituto Dom João Resende Costa (IDJ da PUC-Minas). Presbítero
da diocese de Divinópolis-MG.
De acordo com Edgar Morin, o pensamento dos Pensamentos de Pascal inscreve-se no entrecruzamento de uma cultura europeia que, desde a Renascença, opõe fé e dúvida, razão e religião. No seio da cultura europeia, a cultura francesa foi aquela em que o debate/combate entre essas diversas instancias se conduziu de maneira mais radical, e Pascal foi aquele que incluiu em seu próprio espírito esse combate que se opões os espíritos na França. Em lugar de enxergar a fé, a dúvida, a razão, a religião como instâncias inimigas e naturalmente exclusivas, identificou nela elementos conflituosas, mas também complementares de sua própria tragédia interior.
Em Pascal, a oposição entre a ordem absurda da fé e a ordem empírico-racional da ciência acompanha-se de uma complementaridade dialógica de uma e de outra. Fé, dúvida, razão, religião se reencontram, se entrecombatem e se alimentam uma da outra. A grandiosidade de Pascal é ter tornado seu enfrentamento complementar e fecundo. Essas características deveriam ter permitido reconhecer melhor a unidade complexa da obra pascaliana. Em lugar disso, o que se tem sobre essa obra são visões parciais e separadas uma da outra.
MORIN, Edgar. Meus filósofos. 2a edição. Traduzido por Edgard de Assis Carvalho e marisa Perassi Bosco. - Porto Alegre: Sulina, 2014.
Data
de Nascimento:19
de junho de 1623 em Clermont (agora Clermont-Ferrand), Auvergne, França
Morreu
em:19
de agosto de 1662 em Paris, França
De acordo co Edgar Morim (1921), em seu livro Os Meus
Filósofos, Blaise Pascal é o maior pensador, o mais próximo (ao mesmo tempo que
Heráclito). Pascal é para ele as verdades mais fulgurantes que surgem
bruscamente no fluxo descontínuo dos “Pensamentos”, e, afirma que o fato dessa
obra não ter sido acabada aumenta sua grandiosidade.
Segundo ele, algumas obras são grandiosas porque não
formam terminadas. No caso dos “Pensamentos” de Blaise Pascal, sua forma
aforística confere-lhes uma violência singular, como se vê em Nietzsche. De
Acordo com Morim, se os “Pensamentos” tivesse sido concluídos, empobreceria a
própria obra, uma vez que teria adquirido uma forma racionalizadora. O que
definiu a originalidade dos Pensamentos, foi a morte prematura de seu autor.
Morim afirma:
Li Pascal muito cedo e hoje
compreende o que me pascalizava e me pascaliza para sempre: é o laço
extraordinário e complementar entre a fé, a razão, a dúvida; combate,
complementaridade que sempre foram os meus. (MORIM, 2014, p. 53)
Certa ocasião, Morim foi convidado a proferir uma sessão
de abertura na Universidade Blaise Pascal em Clermont-Ferrand, ele ficou
surpreso, pois, constatou que, Pascal havia sido dividido em fragmentos
separados uns dos outros: Pascal Polêmico, Pascal Jansenista, Pascal estudioso,
Pascal escritor.
De acordo com Bem Roger (2001, p, 11), como polêmico, “Pascal
é lido como o autor da obra-prima cartas Provinciais, um violento ataque a
corrupta teologia e moral relaxada dos jesuítas e seus aliados na Igreja
Católica.” Quanto ao Pascal jansenista, segundo Rossi (2004, p. 120), “é óbvio
que não se pode falar de uma verdadeira conversão de Pascal ao jansenismo, mas
de forte e crescente interesse por essa doutrina, vista por ele como freio
salutar ao pensamento libertino e as ilusões de uma razão sempre menos
instrumento e sempre mais fim e escopo indevido do homem”. Entretanto, essa
tese de Rossi, parece não ser a mesma de outros estudiosos de Pascal. Jacques Attali
defende que a conversão aconteceu duas ou três vezes na vida de Pascal.
Pascal conheceu o evangelho por influência do jansenismo:
um movimento dentro da igreja, fundado pelo bispo holandês Cornelius Jansen
(1585–1638), que preconizava uma reforma católica com base na igreja primitiva
e uma espiritualidade interior. O que muitos designam como a primeira conversão,
data de uma altura que o pai de Pascal sofreu um acidente. Dois jovens médicos
afetos ao jansenismo que cuidaram dele, introduziram na família pascal, as
ideias defendidas pelos jansenistas, vinculadas principalmente a Antoine Arbauld
e Sint Cyrram. Neste sentido, podemos afirmar que, a principal influência sobre
o pensamento religioso de Pascal veio do jansenismo, um movimento católico
francês que enfatizava a experiência religiosa pessoal e especialmente a
conversão súbita como capaz de colocar a alma em relação direta com Deus.
Pascal foi tocado o que lhe levou a converter ao jansenismo tendo arrastado
toda a família com ele.
Já a segunda conversão aconteceu em uma data precisa (23
de novembro de 1654, numa segunda-feira à noite, “das dez e meia da noite, mais
ou menos, até cerca de meia-noite e meia”) e em um lugar determinado (em seu
quarto, enquanto lia a sós a oração sacerdotal de Jesus, em João 17). Na mesma
ocasião, ele registrou essa experiência em um pedaço de pergaminho. Como esse
escrito estava costurado no forro do seu casaco, quando morreu, oito anos
depois, supõe-se que Pascal o tenha carregado na roupa o tempo todo.
Pascal é classificado como “gênio” precoce, uma vez que,
desde cedo demonstrou uma inteligência que o colocava em um lugar distinto das
outras crianças da sua idade. Ele foi um gênio precoce da geometria e da
física, aos 12 anos publicou seu primeiro ensaio sobre o som, aos 14 já
frequentava o círculo dos eruditos, aos 16 escreveu o Ensaio sobre as Cônicas,
aos 19 concebe a máquina de calcular. Entre outras obras, destacamos os
Pensamentos, publicados após a sua morte. Mas a unidade de Pascal, segundo
Morim, permanece mal conhecida, sem dúvida porque, em si mesma, inclui a
presença de componentes aparentemente antagônicos.
Em lugar de enxergar a fé, a dúvida, a razão e a religião
como instâncias inimigas e mutuamente exclusivas, identificou nelas elementos
conflituosos, mas também complementares de sua própria tragédia interior. Em
Pascal a oposição entre a ordem absurda da fé e da ordem empírico-racional da
ciência acompanha-se de uma complementaridade dialógica de uma e de outra.
Fé, dúvida, razão, religião se encontram, se
entrecombatem e se alimentam uma da outra. A grandiosidade de Pascal é ter
tornado seu enfrentamento complementar e fecundo. Essas características
deveriam ter permitido reconhecer melhor a unidade complexa da obra pascaliana.
Em lugar disso, o que se tem sobre essa obra são visões parciais e separadas
uma da outra.
Referências
ROSSI,
Roberto. Introdução à Filosofia: histórias e sistemas. - 2ª Ed. Edições Loyola,
São Paulo, Brasil, 2004.
ROOGERS,
Bem. Pascal: elogio do efêmero. Tradução de Luiz Felipe Pondé. – São Paulo :
Editora UNESP, 2001.- (Coleção grandes filósofos).
MORIM,
Edgar. Meus filósofos. - 2ª edição. Traduzido por Edgard de Assis Carvalho e
Mariza Perassi Bosco.- Porto Alegre: Sulina, 2014.
Hoje, 19 de Agosto de 2016, comemoram-se os
354 anos da morte de Blaise Pascal. Pascal morreu aos 19 de agosto de 1662 com apenas 39 anos e deixou uma
obra prodigiosamente fecunda tanto no domínio das ciências, da filosofia, da
política e da teologia, tendo escrito nos últimos anos de sua vida uma Apologia
ao Cristianismo. Algumas fontes apontam para a causa da morte como
tuberculose, mas foi feito uma necrópsia em seu corpo e foi detectado graves
problemas de estômago e foi constatado que seu cérebro estava bastante
danificado, o que se sugere um câncer de estômago que se alastrou até o
cérebro. Em vida, Pascal sofria fortes dores de cabeça e de fato ele teve os
sintomas de tuberculose antes da morte.
NASCIMENTO: 19
de Junho de 1623 - Clermont-Ferrand, França.
MORTE: 19 de
agosto de 1662 - Paris, França.
CAUSA DA
MORTE: Câncer no estômago. De nacionalidade francesa, Blaise Pascal Pascal, matemático, físico, inventor, escritor e filósofo cristão. Foi uma criança "prodígia" que foi educado pelo pai. Os primeiros trabalhos dele foram em ciências naturais e aplicadas onde ele trouxe contribuições importantes ppara o estudo de fluídos e esclareceu os conceitos de pressão e vácuo. generalizando o trabalho de Evangilista Torricelli. Pascal também escreveu em defesa da religião, sua obra mais importante é de caráter teológico conhecido como Pensées (Pensamentos) publicada após sua morte. Pascal é listado como um dos melhores polemistas franceses de sua época, especialmente e, em particular, pela sua falta de artificio, ele impressionava seus leitores com o uso da lógica e pela força de sua dialética.
Educação de Pascal
O pai de Blaise Pascal, Étienne Pascal, teve uma educação
ortodoxa e decidiu educar seu filho na mesma direção. Ele decidiu que seu filho
não devia estudar matemática antes dos 15 anos, por isso, todos os materiais
foram retirados de sua casa. Pascal, no entanto, era curioso sobre tudo isso e
começou a trabalhar em geometria com a idade de 12 anos. Ele descobriu que a
soma dos ângulos de um triângulo são dois ângulos retos. Quando seu pai
descobriu isso cedeu e deu Pascal um texto de Euclides.
Pascal Cientista
Pascal foi educado por seu pai, que lhe deu
uma formação científica e humanística, mas, inicialmente seu interesse estava
focado em matemática e física. Aos 14 anos ele participava de reuniões
científicas do Padre Mersenne que pertencia a ordem religiosa dos Mínimos e sua
casa em Paris era um ponto de encontro frequente para Fermat, Gassendi, e
outros intelectuais. No entanto, ele não manifesta tanto interesse em ciência
como Descartes; muito mais cético sobre o possível alcance do nosso
conhecimento sobre a natureza, concebia a ciência como uma atividade destinada
a apontar resultados aproximados de alguma coisa, capaz de orientar a ação
humana, mas não é capaz de expressar a essência última das coisas. Aos 16 anos,
ele escreveu seu "Ensaio Sobre as Cônicas", com a idade de 18
inventou uma máquina de calcular e realizou inúmeros experimentos científicos
expostos no "Tratado sobre o peso da massa de ar" e o "Tratado
Sobre o Equilíbrio dos Líquidos”. Seus trabalhos são relacionados com problemas
diversos da matemática e da física, o trabalho influenciou decisivamente o
posterior desenvolvimento da ciência do seu tempo.
Ele pode ser considerado como o fundador do
cálculo das probabilidades, formulado em 1654 como Geometria do Acaso em sua
correspondência com Fermat. O Tratado do Triangulo Aritmético, prolonga essas
ideias e mostra a importância do triângulo em questões como o cálculo combinado
e o cálculo da potência de um binômio. A partir dessa data, ele interrompeu
quase completamente seu trabalho científico, embora ele contribuiu em 1658 com
outra obra fundamental "Lettres A. Dettonville contentant quelques unes de
ses invenções de geometrie" que resolve vários problemas relacionados com
a ciclóide que tinha proposto aos mais importantes cientistas de sua época e
nenhum deles conseguiu desvendar.
Seu pensamento é determinado pelo seu status
de cientista que desconfia da razão para abraçar os problemas fundamentais da
vida e sua profunda religiosidade onde encontra a salvação para não cair na
filosofia do absurdo. Isso o leva a admitir dois princípios do conhecimento: o espírito
geométrico (razão), orientada as razões científicas e o espirito de finesse
(coração), que são na forma de intuições princípios básicos para a compreensão
da vida e até mesmo os princípios fundamentais que começa toda a ciência.
Pascal filósofo e
teólogo
Sua doutrina filosófica é destinada a uma
Apologia do Cristianismo. Em 1646 entra em contato com a religião através das
obras de A. Arnauld. Converteu-se ao jansenismo e arrastou com ele toda a sua
família. Em 1654, após um período dedicado à vida mundana, acontece a segunda
conversão como resultado de uma segunda experiência religiosa que ocorreu na
noite de 23 de Novembro do mesmo ano. Ele intensificou sua religiosidade e
juntou-se à comunidade dos solitários de Port-Royal. A partir deste centro
religioso e intelectual foi realizada uma série de polêmicas com os jesuítas,
em torno do pecado e da graça, onde interveio Pascal com a publicação das
suas famosas "Cartas Provinciais" verdadeiros monumentos da
literatura francesa e mundial. A sua filosofia é um tratado contra o
intelectualismo cartesiano, cuja finalidade foi exclusivamente apologética,
podemos citar a teoria das duas faculdades de conhecimento, sua ideia do homem
como situado entre dois infinitos, superando o ceticismo e o paradoxo humano
pela fé, sua teoria de que o valor supremo é a santidade suas concepções são
principalmente expressas nas Cartas de "Louis de Montalte" a um
provincial sobre a moral, política e religião.
De acordo com Pascal, razão e coração são
dois caminhos igualmente válidos do saber, e talvez o segundo é superior à
abstração racional, como expõe, dizendo: "Conhecemos a verdade não só com
a razão, mas também com o coração" e "o coração tem razões que a
razão não conhece". Ambos conduzem a verdade, mas com lógica e mecanismos
diferentes. Através do coração a realidade é atingida em sua singularidade e
mesmo Deus se manifesta ao homem através do coração. Nesta demonstração e
aceitação de Deus através do coração Pascal chama de fé, princípio necessário
para viver como homens e alcançar a divindade. Mediante esta fé e este
conhecimento por sentimento não se opera só como uma parte do homem, como
ocorre com o conhecimento abstrato e racional.
No entanto, a fé e a captação de Deus é o
mais importante para a vida do homem, mas, não é concedida gratuitamente e sem
esforço, há que buscá-lo com determinação. Esta busca é realizada com base no
reconhecimento da grandeza e da miséria do homem, que está entre o infinito e
do nada. O ponto de partida é, portanto, reconhecer os limites que o homem se
encontra. Tal reconhecimento é sempre doloroso e uma prova disso é a
"diversão" pela qual o homem chega a uma extroversão ou diversão,
para escapar de si mesmo. O homem precisa voltar para si mesmo, e, reconhecer
suas próprias limitações, buscar a Deus e aceitar as razões do coração que o
colocou em contato com Ele.
Pascal Político
A reflexão política de Pascal incide sobre
aquilo que os homens não deixam de apresentar no espaço social, ou seja,
signos, visando legitimar sua autoridade face aos demais. Ele é considerado um
extraordinário teórico da política, mas ainda desconhecido, uma vez que, seu
pensamento político encontra-se dissolvido em diversos fragmentos na sua obra
maior, Pensées, (Pensamentos), e por isso, durante muito tempo sua erudição
política permaneceu desconhecida do grande público. Pascal se vê na pele de um
sociólogo e político, um cidadão integrado na sociedade de sua época preocupado
com a política e com os governantes, que no final da sua vida pronuncia
palavras que mais tarde seriam transformados na obra que hoje conhecemos como
“Os três Discursos sobre a condição dos Grandes”.
Pascal analisa o mistério que marca a
condição humana, revelando “uma sensibilidade aguda para o fato de que o homem
parece ser, um ser que, quando exposto a demasiada luz, se dissolve”. O
conhecimento das coisas é um conhecimento do meio (milieu), isto é, um
conhecimento das aparências. Ele submete todo tipo de atitude e conhecimento a
uma contingência irremediável. o que nos leva a verificar que a
"insuficiência humana" é algo passível de ser constatada de forma
empírica em todas as dimensões da vida humana. "A hipótese explicativa do
mito da queda é uma forma de iluminar um fato que por si só se impõe", ou
seja, o ser humano é empiricamente corrompido.
Sobre a matéria dos “grandes”, presente nos Três
discursos Sobre a Condição dos Grandes, editados postumamente por Pierre
Nicole, pode-se concluir que, ao contrário de alguns, temerosos de um Pascal
revolucionário, seu discurso político é legitimado pelas bases clássicas, que são
claras em autores anteriores. Para Pascal, prevenir qualquer revolta é a
garantia da paz no Estado. Para tanto, não basta a arte do bem governar: é
preciso usar a força. Ora, como a força não se deixa manipular por se tratar de
uma qualidade palpável, ao passo que a justiça se presta a isso, por ser uma
qualidade espiritual, manipula-se a justiça para justificar a força. Esvaziado
o velho conceito de justiça: "dar a cada um o que lhe é devido", esta
passa a ser o disfarce da força. Os homens passaram a conviver em paz, apesar
da concupiscência. Mas, para que essa convivência seja pacífica, é preciso
adequar a justiça ao reino da concupiscência.
Pensées (Pensamentos) de Pascal
A obra Pensamentos é de autoria de pascal,
mas o título foi conferido pelos editores que publicaram o texto após a sua
morte. Toma-se como edição mais importante a de 1670, que já aparece com a
indicação de 2ª edição, porque no ano anterior havia sido publicada a primeira,
mas com pequena tiragem e restrita ao seu conteúdo. Isso não é difícil de
explicar, uma vez que pascal deixou como textos inéditos grande número de
pastas contendo ideias, reflexões, pensamentos opiniões lançados no papel sem
ordem alguma que o faziam parte de um projeto de um livro destinado a fazer uma
apologia da religião cristã. Ante a morte permatura de pascal, célebre como
cientista e pensador, os editores se empenharam em publicar seus escritos, mas
se depararm com um acumulo impressionante de esboços, textos dispersos e
muitos, inclusive, incompletos e interrompidos. Decidiram, no entanto, publicar
a obra. conferindo certa ordem às anotações do autor, e concordam em dar à obra
o título de pensamentos.
Por essas razões, as primeiras edições
divergem entre si. Além do mais cada editor conferia aos papeis deixados pelo
autor a ordem que bem entendia e acrescentava alguns pensamentos a mais que o
outro. Depois de dois séculos de diferentes edições, apareceu em 1897 a edição
de Brunschvicq, considerada como definitiva durante décadas por muitos
pesquisadores e estudiosos. Em 1951, porém, a questão foi reaberta com a edição
de Lafuma, organizada de forma diferente, embora o conteúdo fosse o mesmo. As
edições posteriores de outros editores respeitam ora uma ora outra das duas
anteriores, com diferenciações irrelevantes. Ad edições desses últimos anos
reproduzem a de Brunschvicq, indicando a numeração dos pensamentos constante
daquela de Lafuma, ou vice versa.
Referências:
CASTILLO, Carlos. El Legado
de Blaise Pascal. Publicada em 14 de dezembro de 2011. Disponível em: < http://ellegadodeblaisepascal.blogspot.com.br/>,
acessado em 19/08/2016.
ROCHA,
Arlindo Nascimento. Uma Leitura Atual
Sobre a Construção Política e Social na Filosofia de Blaise Pascal. In:
Rev. Parlamento e Sociedade. São Paulo, v. 2 n. 3, p. 53-69, jul./dez. 2014.
Disponível em: <http://www.camara.sp.gov.br/escoladoparlamento/wp-content/uploads/sites/5/2015/05/REVISTA_PARLAMENTO_SOCIEDADE_2015_WEB.pdf
>, acesso em 19/08/2016.
SILVA, A. G. PASCAL: Cientista e Filósofo Místico. São Paulo: Lafonte, 2011. (Coleção
Filosofia Comentada).