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terça-feira, 10 de maio de 2016

BLAISE PASCAL, POR ANDREI VENTURINI MARTINS




Andrei Venturini Martins, é um estudioso da obra Pascaliana, é "Graduado em Filosofia (2003), possui mestrado em Ciência da Religião (2006) e doutorado em Filosofia (2011), ambos pela PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO. Realizou na UNIVERSITÉ DE CAEN BASSE-NORMANDIE, no período de um ano (maio/2010 - maio/2011), o estágio de bolsa sanduíche financiado pela CAPES, a fim de elaborar a seguinte tese: "Amor Próprio e Vazio Infinito: uma análise do homem sem Deus em Blaise Pascal". Atualmente é professor no INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO SUL DE MINAS GERAIS (IFSULDEMINAS) e membro da "Associação Brasileira de Filosofia da Religião" [http://www.escavador.com/sobre/5612279/andrei-venturini-martins].
Andrei foi convidado diversas vezes para falar sobre a filosofia de Blaise Pascal no programa “A Hora da Coruja” apresentado pelos filósofos: Paulo Ghiraldelli e Francielle Chies,entre 2013 a 1015.  

ESTADO DA ARTE 
"Hoje, Blaise Pascal é um pensador canônico não só para a história da ciência, como também da filosofia e da teologia. Menino prodígio, místico e um dos maiores polímatas de todos os tempos, seus Pensamentos reúnem, por vezes em um único fragmento, intuições ainda hoje fecundas para os campos da matemática, física, psicologia, pedagogia e sociologia, comunicadas no estilo caracteristicamente conciso e límpido que elevaria esse rematado frasista a uma posição única no panteão da literatura francesa" [...] (http://oestadodaarte.com.br/pascal/).

Numa entrevista a Revista CULT (2010) o filósofo, Luiz Filipe Pondé, afirma que, “na França, Pascal é muito conhecido e estudado, mas fora não tanto. Na Inglaterra e no Japão existem alguns scholars pascaliano, mas, existem poucos trabalhos importantes publicados sobre Pascal fora da França”. Em França podemos destacar alguns autores que ao longo dos anos dedicaram ao estudo de sua obra como Jean-Louis Bischoff, Henri Gouhier, Gérard Lebrun, Jacques Attali, Zacharie Bere, entre outros. No Brasil conhecemos algumas traduções desses autores, mas, contamos também com alguns scholares pascalianos e uma crescente produção acadêmica (artigos, dissertações e teses) nos últimos anos. Entre esses scholars podemos destacar os seguintes: Jackson de Figueiredo, Franklin Leopoldo e Silva, Luis Felipe Ponde, Luis César Olívia Guimarães, Ivinil Parraz, Andrei Venturini Martins, entre outros.(ROCHA, A. N. 2016).                                              
                                                          
                                                          A POLÍTICA EM PASCAL
"A reflexão política de Pascal incide sobre aquilo que os homens não deixam de apresentar no espaço social, signos, mais geralmente sobre os signos cujo jogo, troca, composição, circulação constitui a própria vida desse singular domínio; ela é imediatamente hermenêutica, interrogação sobre a maneira de interpretar esses signos que, todos, podem sê-lo. Assim, esses signos exteriores de respeitabilidade, que, em grande quantidade os magistrados ostentam: suas roupas vermelhas, seus arminhos, com que se envolvem os palácios onde julgam, as flores de lis, todo esse aparato augusto era muito necessário". [...](ADORNO, 2000, p. 117).

Programa publicado em 18 de dezembro de 2015 

A FILOSOFIA DE PASCAL 
"Pascal viveu no século XVII, que foi um século de profunda luta entre a inteligência e a repressão, onde se inaugura a Filosofia Moderna, com a solidificação do conceito de subjetividade, com o surgimento da moderna epistemologia e a ruptura com a doutrina Escolástica. Em seu seio, originam-se duas escolas ou doutrinas epistemológicas que se contraporiam pelos séculos seguintes: o empirismo, com Francis Bacon, e o racionalismo, com René Descartes.Na França, transcorriam as disputas religiosas e os entrechoques entre escolas de pensamento. Espírito profundamente intuitivo, Pascal sentiu e sofreu as contradições de seu tempo: empirismo x racionalismo, razão x fé, ciência x religião. Foi um homem de espírito sintético. Transcendeu as oposições entre empirismo e racionalismo nascentes. Viveu e integrou os impulsos da razão e da fé, da ciência e da religião. Buscou, assim, conciliar e harmonizar tendências que se opunham em seu tempo, integrando-as em uma construção superior do conhecimento".[http://www.institutopascal.org.br/visao/institucional/blaise-pascal.php]

Programa exibido no dia 16 de abril de 2013


O ÓCIO E O TEMPO LIVRE 
“Pascal já falava sobre o ócio como a distração de si. Pascal tinha consciência de que o homem sem alguma atividade iria secar de tédio. Ele, escreveu: "Quem suporta ficar em um quarto vazio de braços cruzados?". Pascal escreve isso para mostrar que o verdadeiro pensador consegue lidar consigo mesmo, mesmo sozinho, justamente por ter trabalhado para si mesmo, como uma distração de si. Em nosso dias, a maioria das pessoas trabalha quase um dia inteiro para não produzir nada além do que seus chefes querem que produza para eles mesmos”. (Recanto das Letras, 28/11/2015).
Programa publicado em 05 de agosto de 2014


PASCAL E O TRÁGICO
 "Lê-se nos manuais que Pascal trata da condição miserável do homem, dilacerado entre o nada de onde saiu e o infinito que o envolve, incapaz de compreender seu princípio bem como seu fim. Vejamos o que isto significa: antes de tudo, que a única compreensão real ao alcance do homem pascaliano é a de ser superado por infinitos que ele não pode fixar, mas que sente serem irremediavelmente necessários para a compreensão do mundo e de si mesmo. Afinal, o homem é uma parte do todo, a qual tem infinitas relações com as outras, de modo que a compreensão da parte implica conhecer o todo em que se insere. Na dura visão de Pascal, o homem é profundamente infeliz pois só um bem infinito, e portanto inabarcável, poderia satisfazer seus anseios. De um lado, se a imaginação disfarça esta necessidade de infinitude, o homem perde-se inutilmente nos bens materiais, sofrendo contínuas decepções. De outro, se  compreende esta necessidade (através da humilhação que sente ao ser superado), percebe sua incapacidade de sequer imaginar o infinito. “Por mais que ampliemos as nossas concepções e as projetemos além dos espaços imagináveis, concebemos tão somente átomos em comparação com a realidade das coisas. Esta é uma esfera infinita cujo centro se encontra em toda parte e cuja circunferência não se acha em nenhuma.” Luís César Oliva."Filosofia CULT". 
Programa publicado em 24 de abril de 2013

Livros publicados/organizados ou edições
MARTINS, Andrei Venturini. Comentário e Tradução da obra "Discurso da Reforma do Homem Interior" de Cornelius Jansenius. 1. ed. São Paulo: Filocalia, 2016. v. 1. 128p.

MARTINS, Andrei Venturini. A Verdade é Insuportável: ensaios sobre a hipocrisia. 1ª. ed. São Paulo: Editora Garimpo, 2015. v. 1. 140p .
  

quarta-feira, 4 de maio de 2016

UMA INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO FILOSÓFICO DE BLAISE PASCAL

Nessa três vídeo aulas sobre o pensamento de Blaise Pascal, nos dá uma visão ainda que introdutória, mas, bastante elucidativa, uma vez que, inicialmente traça uma possível trajetória dos pensamentos que corroboram com perspectivas contemporâneas, como o existencialismo. Fala-se também sobre a natureza humana, principalmente da natureza decaída, que fundamenta a antropologia existencialista pascaliana,e, termina mostrando que o homem, não conseguindo por suas forças sair do estado de indigência, pode, reconhecer seu nada existencial, e apostando sua finitude com vistas à infinitude, conhecer a Deus sensível ao coração e tornar-se disponível para que Ele através de sua graça restaure-o à sua primeira natureza. Eis o desfecho do drama existencial do homem proposto por Pascal. 

                                             BLAISE PASCAL - VIDA E OBRA - PARTE 1 

  BLAISE PASCAL - VIDA E OBRA - PARTE 2 
                                         
                                               BLAISE PASCAL - VIDA E OBRA - PARTE 3

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Epiteto, Montaigne e Pascal

Epiteto, Montaigne e Pascal


Epiteto (55-135 d. C) filósofo estoico; Montaigne (1533 – 1592), filósofo, político, e escritor cético francês. Dois pensadores cronologicamente distantes que influenciaram Blaise Pascal, na formulação do seu argumento antropológico.

Epiteto: observando os traços da primeira grandeza do homem e ignorando-lhe a corrupção, tratou a natureza humana como sã e sem necessidade de reparação, o que leva a soberba [...]

Montaigne: observando a miséria presente e ignorando a primeira grandeza do homem, trata a natureza humana como enferma e irreparável, o que o precipita na desesperança, de chegar ao verdadeiro bem [...]

Conclusão: Essas duas visões são incapazes de explicar a verdadeira condição humana, exatamente por analisarem o homem sob um único ponto de vista. Conhecidos separadamente conduzem a dois vícios, o orgulho ou a preguiça [...]
O argumento antropológico de Pascal começa com uma observação simples: os seres humanos exibem qualidades de grandeza e miséria:
Frag. 114 (397) “A grandeza do homem é grande por ele reconhecer-se miserável: uma árvore não se conhece miserável. É então ser miserável conhecer (-se) miserável, mas é ser grande conhecer que se é miserável”;
Frag. 122 (416) “Concluindo-se a grandeza da miséria e a grandeza da miséria, alguns concluíram tanto mais a miséria quanto mais tomaram como prova sua grandeza, e outros concluíram a grandeza com tanto mais força quanto mais a concluíram da miséria mesma” [...]
Frag. 117 (409) “A grandeza d homem é tão visível que ela se extrai até mesmo de sua miséria, pois, aquilo que é natureza nos animais, chamamos miséria no homem” [...]

Frag. 121 (418) “É perigoso mostrar ao homem quanto ele é igual aos animais sem lhe mostrar a sua grandeza. É também perigoso mostrar-lhe demais a sua grandeza sem a sua baixeza. É mais perigoso ainda deixá-lo ignorar uma e outra coisa, mas é vantajoso representar-lhe uma e outra”. 
[...] 

Referências: 
PASCAL Blaise. Pensamentos. Edição, apresentação de notas Louis Lafuma; Tradução Mário Laranjeira, Revisão técnica Franklin Leopoldo e Silva, revisão da tradução Márcia valéria Martinez de Aguiar; introdução da edição brasileira Franklin Leopoldo e Silva. – 2ª Ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2005. – (Paidéia).
PASCAL, Blaise. Do Espírito geométrico e da arte de persuadir. Seleção, tradução e notas: Henrique Barrilaro Ruas. Estudo de : Eduardo Abranches de Soveral. Porto Editora – Porto – Portugal, 2003. 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

PASCAL E NIETZSCHE

Pascal ( 1623-1662) e Nietzsche (1844-1900)


Blaise Pascal - gênio da ciência, matemático, físico, filósofo, pai da computação digital, da probabilidade, da física experimental, da hidráulica, do cálculo integral e diferencial, da geometria projetiva, gênio da literatura universal".

Friedrich Nietzsche - um filósofo e escritor alemão de grande influência no Ocidente. Sua obra mais conhecida é “Assim Falava Zaratustra”. O pensador estendeu sua influência para além da filosofia, penetrando na literatura, poesia e todos os âmbitos das belas artes.
Obras para download 

"Pascal e Nietzsche compartilham uma insatisfação essencial com relação à condição humana atual [...] o cristianismo trágico de Pascal e a filosofia trágica e anticristã de Nietzsche mantêm algo mais do que uma mera relação de exclusão recíproca [...] ao longo de sua obra Nietzsche enumera as suas afinidades com Pascal: A partir de sua primeira obra que critica explicitamente a moral cristã (Aurora, 1881) Pascal aparece para Nietzsche como um caso, um exemplo mórbido de como um intelecto brilhante se deixou seduzir pela visão cristã do mundo. Tal lamento nietzschiano encontra a sua expressão mais clara na passagem de Além do Bem e do Mal (1886), em que descreve a “fé de Pascal” como um “contínuo suicídio da razão” e um “sacrifício do intelecto”. Paradoxalmente, em Ecce Homo (1888), Nietzsche reúne na mesma afirmação admiração e crítica, ou afeto e censura, ao declarar “amar” Pascal como “a mais instrutiva vítima do cristianismo, lentamente assassinado”.

http://gen.fflch.usp.br/…/…/files/upload/cn_08_02%20Brum.pdf

quarta-feira, 13 de abril de 2016

ARGUMENTO ANTROPOLÓGICO DE PASCAL


o argumento antropológico de Pascal começa com uma observação simples: os seres humanos exibem qualidades de grandeza e miséria. Tal argumento é atraente em um ambiente contemporâneo, pois começa com uma observação da natureza humana, em vez de um argumento direto para a existência de Deus, a confiabilidade da Bíblia, a validade da crença na ressurreição de Cristo, ou uma variedade de outras abordagens apologéticas. O argumento antropológico apenas pretende iniciar a discussão sobre a natureza da condição humana. Quando certos princípios foram posteriormente estabelecidas, ele oferece um argumento apontando para o Cristianismo como a melhor explicação para a condição observada. DG Preston comenta. Abordagem apologética geral de Pascal:

Pascal o empirista começa com os dados, nomeadamente o fenômeno inexplicável da humanidade:

Inquestionavelmente corrupto, sujeito a inconstância, ao tédio, ansiedade e egoísmo, fazendo qualquer coisa nas horas de vigília para desviar a mente de miséria humana, mas mostrando os vestígios da inerente grandeza em realização da mente dessa condição. A natureza humana também é finita, suspensa entre duplo infinito, revelado por telescópios e microscópios, e consciente de um vazio interior que o mundo finito não consegue satisfazer. Nenhuma filosofia faz sentido a isso. Nenhum sistema de moral nos faz melhor ou mais feliz. Uma hipótese sozinho, criação à imagem divina seguido pela queda, explica a nossa situação e, por meio de um redentor e mediador com Deus, oferece para restaurar nosso estado de direito.[1]

Argumento antropológico de Pascal usa uma abordagem única para a apologética cristã: em vez de oferecer argumentos da teologia natural,[2] ele é projetado para se relacionar com os incrédulos em um nível prudencial de interesse. Esse argumento, de fato, oferece uma observação sensata e apelo ao julgamento prático com base no evidências disponíveis.

É a abordagem de Pascal relevante hoje? Afinal de contas, seu argumento  parentemente repousa sobre doutrinas tais como seres humanos criados à imagem de Deus (imago Dei) e do pecado original (a queda) - Vistas muitos percebem como fora de moda, mítico, ou simplesmente falsa [...] 



VELARDE, Robert. Greatness and Wretchedness: The Usefulness of Pascal’s Anthropological Argument in Apologetics. Christian Research Journal, v. 27, p. 32-40.                                                                              




[1] DG Preston, New Dictionary of Theology, ed. Sinclair B. Ferguson, David F. Wright e JI Packer (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1988), sv "Pascal, Blaise."
[2] A teologia natural refere-se a obtenção de conhecimento de Deus através da natureza. Pascal acreditava que os argumentos para provar a existência de Deus, baseados em fatos  naturais não têm a força eo alcance necessários para levar um cético a crença em Cristo. 
                                    

terça-feira, 5 de abril de 2016

O QUE É MAIS VANTAJOSO?

ACREDITAR OU NÃO ACREDITAR NA RELIGIÃO CRISTÃ[1]


Em “Os Pensamentos”, Blaise Pascal fez sua defesa da religião cristã, destinada a tocar os libertinos (pessoas que negam toda religião revelada, a qual se deve demonstrar) e os céticos (que colocam tudo em dúvida). Segundo Pascal, o homem é um ser miserável, um “nada do ponto de vista do infinito universo, um tudo do ponto de vista do nada, isto é, um meio-termo entre o nada e o tudo”. Ele é incapaz de atingir a verdade, pois a razão humana é constantemente enganada pela imaginação ou outras “potências enganadoras”. Sua única esperança é Deus: ele tem tudo a ganhar apostando na existência Dele. É o famoso argumento da aposta.[2]

Nossa alma está lançada no corpo, no qual acha número, tempo, dimensões. Raciocina sobre isso e lhe dá o nome de natureza, necessidade, sem poder acreditar em outra coisa. A unidade agregada ao infinito em nada o aumenta, do mesmo modo que um pé a uma medida infinita. O finito se aniquila em presença do infinito e se torna um simples zero. Assim o nosso espírito diante de Deus; assim a nossa justiça diante da justiça divina.

Não há tão grande desproporção entre a nossa justiça e a de Deus como entre a unidade e o infinito.[3] É preciso que a justiça de Deus seja enorme como a sua misericórdia: ora, a justiça para com os réprobos é menos enorme e deve aliviar menos do que a misericórdia para com os eleitos.

Sabemos que há um infinito e ignoramos a sua natureza, assim como sabemos que é falso que os números sejam finitos; é, pois, verdade que há um infinito em número, mas não sabemos o que ele é. É falso que seja par, é falso que seja ímpar; porque, acrescentando-lhe a unidade, ele não muda de natureza: no entanto, é um número, e todo número é par ou é ímpar; isso é verdadeiro para todos os números finitos.

Pode-se, pois, saber que existe um Deus sem saber o que ele é.Conhecemos, pois, a existência e a natureza do finito, porque somos finitos e extensos como ele. Conhecemos a existência do infinito e ignoramos sua natureza, porque ele tem extensão como nós, mas não tem limites como nós. Não conhecemos, porém, nem a existência nem a natureza de Deus, porque ele não tem extensão nem limites. Mas, pela fé, conhecemos sua existência; pela glória, conheceremos sua natureza. Ora, já mostrei que não se pode conhecer bem a existência de uma coisa sem conhecer a sua natureza.

Falemos, agora, segundo as luzes naturais.

Se há um Deus, ele é infinitamente incompreensível, uma vez que, não tendo nem partes nem limites, nenhuma relação possui conosco: somos, pois, incapazes de conhecer não só o que ele é, como também se ele é. Assim sendo, quem ousará empreender resolver essa questão? Não somos nós, que nenhuma relação temos com ele.

Quem, pois, censurará os cristãos por não poderem dar satisfação de sua crença, eles que professam uma religião de que não podem dar satisfação? Expondo-a ao mundo, eles declaram que isso é uma tolice, stultitiam. No entanto, vós vos lastimais porque eles não a provam! Se a provassem, faltariam à sua palavra; é por não terem provas que não lhes falta o senso. Sim; mas, embora isso escuse os que assim a oferecem e os livre da censura de produzi-la sem razão, não escusa os que a recebem.

Examinemos, pois, esse ponto, e digamos: Deus é, ou não é. Mas, para que lado penderemos? A razão nada pode determinar ai. Há um caos infinito que nos separa. Na extremidade dessa distância infinita, joga-se cara ou coroa. Que apostareis? Pela razão, não podeis fazer nem uma nem outra coisa; pela razão, não podeis defender nem uma nem outra coisa.Não acuseis, pois, de falsidade os que fizeram uma escolha, pois nada sabeis disso. "Não: mas, eu os acusarei de terem feito, não essa escolha, mas uma escolha; porque, embora o que prefere coroa e o outro estejam igualmente em falta, ambos estão em falta: o justo é não apostar".

Sim, mas é preciso apostar: isso não é voluntário; sois obrigados a isso; (e apostar que Deus é, é apostar que ele não é). Que tomareis, pois? Vejamos, já que é preciso escolher, vejamos o que menos vos interessa: tendes duas coisas que perder, o verdadeiro e o bem, e duas coisas que empenhar, vossa razão e vossa vontade, vosso conhecimento e vossa beatitude; e vossa natureza tem duas coisas que evitar, o erro e a miséria. Vossa razão não é mais atingida, desde que é preciso necessariamente escolher, escolhendo um dentre os dois. Eis um ponto liquidado; mas, vossa beatitude?

Pesemos o ganho e a perda, preferindo coroa, que é Deus. Estimemos as duas hipóteses: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, nada perdereis. Apostai, pois, que ele é, sem hesitar. Isso é admirável: sim, é preciso apostar, mas, talvez eu aposte demais.Vejamos. Uma vez que é tal a incerteza do ganho e da perda, se só tivésseis que apostar duas vidas por uma, ainda poderíeis apostar. Mas, se devessem ser ganhas três, seria preciso jogar (desde que tendes necessidade de jogar) e seríeis imprudente quando, forçado a jogar, não arriscásseis vossa vida para ganhar três num jogo em que é tamanha a incerteza da perda e do ganho. Há, porém, uma eternidade de vida e de felicidade; e, assim sendo, quando houvesse uma infinidade de probabilidades, das quais somente uma fosse por vós, ainda teríeis razão em apostar um para ter dois, e agiríeis mal, quando obrigado a jogar, se recusásseis jogar uma vida contra três num jogo em que, numa infinidade de probabilidades, há uma por vós, havendo uma infinidade de vida infinitamente feliz que ganhar. Mas, há aqui uma infinidade de vida infinitamente feliz que ganhar, uma probabilidade de ganho contra uma porção finita de probabilidades de perda, e o que jogais é finito. Jogo é jogo: sempre onde há o infinito e onde não há infinidade de probabilidades de perda contra a de ganho, não há que hesitar, é preciso dar tudo; e, assim, quando se é forçado a jogar, é preciso renunciar à razão, para conservar a vida e não arriscá-la pelo ganho infinito tão prestes a chegar quanto a perda do nada.

Por conseguinte, de nada serve dizer que é incerto ganhar-se e que é certo arriscar-se, e que a infinita distância entre a certeza do que se expõe e a incerteza do que se deve ganhar iguala o bem finito, que certamente se expõe, ao infinito incerto. Não é assim: todo jogador arrisca com certeza para ganhar incertamente o finito, sem pecar contra a razão. Não há infinidade de distância entre essa certeza do que se expõe e a incerteza do ganho; isso é falso. Há, na verdade, infinidade entre a certeza de ganhar e a certeza de perder. Mas, a incerteza de ganhar é proporcional à certeza do que se arrisca, segundo a proporção das probabilidades de ganho e de perda; de onde se conclui que, havendo tantas probabilidades de um lado como do outro, a aposta deve ser igual; e, então, a certeza do que se expõe é igual à incerteza do ganho; bem longe está de ser infinitamente distante. E, assim, a nossa proposição é de uma força infinita, quando há o finito que arriscar num jogo em que há tantas probabilidades de ganho como de perda, e o infinito que ganhar. Isso é demonstrativo; e, se os homens são capazes de algumas verdades, essa é uma delas.

Eu o declaro e o confesso. Mas, não haverá ainda um meio de ver o segredo do jogo?

Sim, a Escritura, e o resto, etc.

Sim; mas, tenho as mãos atadas e a boca muda; forçam-me a apostar, e não estou em liberdade; não me soltam, e sou feito de tal maneira que não posso crer. Que quereis, pois, que eu faça?

É verdade. Mas, conhecei ao menos a vossa impotência para crer, já que a razão a isso vos conduz, e que todavia não o podeis; trabalhai, pois, não para vos convencerdes pelo aumento das provas de Deus, mas pela diminuição das vossas paixões. Quereis chegar à fé, mas ignorais o caminho; quereis curar-vos da infidelidade, mas pedis os remédios: aprendei com os que estiveram atados como vós e que apostam agora todo o seu bem; são pessoas que se curaram do mal de que desejais curar-vos. Segui a maneira pela qual começaram: fazendo como se acreditassem, tomando água benta, mandando dizer missas, etc. Naturalmente, isso vos fará crer e vos embrutecerá.[4]

Mas, é o que receio. E porquê? que tendes que perder?





PASCAL, Blaise. Pensamentos. versão para eBook (ebooksBrasil.org) - Ridendo Castigat Mores (org), 2002.


[1] Esse artigo tem, na edição de 1779, este titulo: COMO É DIFÍCIL DEMONSTRAR A EXISTÊNCIA DE DEUS PELAS LUZES NATURAIS, MAS COMO O MAIS SEGURO É CRER NELA; e, no volume de Cousin e na edição de Faugère, o seguinte: INFINITO, NADA. O título da presente edição é o da de 1670.
[2] Este argumento tem o formato que se segue: se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito; se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita; se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito; se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.
[3] Ou, segundo a edição de Port-Royal: "Não há tão grande desproporção entre a unidade e o infinito como entre a nossa justiça e a de Deus."
[4]  "Dissera Montaigne antes de Pascal: "Precisamos embrutecer para tornarmo-nos sábios." E São Paulo: Nemo se seducat: si quis videtur inter vos sapiens esse in hoc sceculo, stultus fiat ut sit sapiens; sapientia enim hujus mundi stultitia est apud Deum. (Epist. ad Corinth., III, 19).

quinta-feira, 17 de março de 2016

PRIMEIRO DISCURSO SOBRE A CONDIÇÃO DOS GRANDES




Primeiro Discurso

Para entrar no verdadeiro conhecimento de vossa condição, considerai-a nesta imagem. Um homem é jogado pela tempestade numa ilha desconhecida cujos habitantes estavam inquietos por encontrar seu rei, que se perdera; e, tendo muitas semelhanças de corpo e rosto com esse rei, é tomado por ele e reconhecido nessa qualidade por todo esse povo. De início ele não sabia que decisão tomar, mas resolve-se enfim a entregar-se à sua boa fortuna. Ele recebeu todos os respeitos que se lhe quis dar e se deixou tratar como rei.

Mas, como não podia esquecer sua condição natural, ele refletia que não era aquele rei que esse povo procurava, e que esse reino não lhe pertencia. Assim ele tinha um duplo pensamento: um pelo qual agia como rei, outro pelo qual reconhecia seu estado verdadeiro, e que não fora mais que o acaso que o havia colocado no lugar em que estava. Ele escondia este último pensamento e descobria o outro. Era pelo primeiro que ele tratava com o povo, e pelo último que tratava consigo mesmo.

Não imaginai que seja por um acaso menor que possuís as riquezas das quais vos encontrais senhor do que aquele pelo qual aquele homem se encontrava rei. Não tendes nenhum direito por vós ou por vossa natureza, não mais que ele: e não somente não vos encontrais filho de um duque, mas não vos encontrais no mundo, senão por uma infinidade de acasos. Vosso nascimento depende de um casamento, ou antes, de todos os casamentos daqueles de quem descendeis. Mas de que esses casamentos dependem? De uma visita feita por encontro,[1] de um discurso no ar, de mil ocasiões imprevistas.

Tendes, dizeis, vossas riquezas de vossos ancestrais; mas não é por mil acasos que vossos ancestrais as adquiriram e as conservaram? Imaginais também que seja por alguma lei natural que esses bens passaram de vossos ancestrais a vós? Isso não é verdadeiro. Essa ordem somente se funda sobre a tão-só vontade dos legisladores que puderam ter boas razões, das quais porém nenhuma é tomada de um direito natural que tenhais sobre essas coisas. Se lhes tivesse agradado ordenar que esses bens, após haver sido possuídos pelos pais durante sua vida, retornariam à república após sua morte, não teríeis nenhum motivo para disso vos lamentar[2].

Assim, todo o título pelo qual possuíeis vosso bem não é um título de natureza, mas de um estabelecimento humano. Um outro giro de pensamento naqueles que fizeram as leis vos teria tornado pobre; e é somente esse encontro do acaso que vos fez nascer com a fantasia das leis favoráveis a vosso respeito que vos coloca em possessão de todos esses bens.

Não quero dizer que eles não vos pertencem legitimamente e que seja permitido a um outro de vos os violar; pois Deus, que delas é o senhor, permitiu às sociedades fazer leis para as partilhar; e quando essas leis são uma vez estabelecidas, é injusto violá-las. É o que vos distingue um pouco daquele homem que possuiria seu reino somente por engano do povo; porque Deus não autorizaria aquela posse e o obrigaria a renunciar a ele, enquanto autoriza a vossa. Mas o que vos é inteiramente comum a ele é que o direito que tendes ao vosso reino não é nada fundado, não mais que o dele, sobre alguma qualidade e sobre algum mérito que esteja em vós e dele vos torne digno. Vossa alma e vosso corpo são de si mesmos indiferentes à condição de barqueiro ou à de duque; e não há nenhum vínculo natural que os ligue a uma condição de preferência a uma outra.

Que resulta daí? Que deveis ter, como este homem de quem falamos, um duplo pensamento; e que, se agis exteriormente com os homens segundo vossa classe, deveis reconhecer, por um pensamento mais escondido contudo mais verdadeiro, que não tendes nada naturalmente acima deles. Se o pensamento público vos eleva acima do comum dos homens, que o outro vos abaixe e vos mantenha em uma perfeita igualdade com todos os homens; pois este é vosso estado natural[3].

O povo que vos admira não conhece talvez este segredo. Crê que a nobreza é uma grandeza real e considera quase todos os grandes como de uma outra natureza que os outros. Não lhes descobri esse erro, se quereis; mas não abusai dessa elevação com insolência, e sobretudo não vos desconhecei vós mesmos acreditando que vosso ser tem alguma coisa de mais elevada que o dos outros.

Que diríeis desse homem que teria sido feito rei por engano do povo, se ele viesse a esquecer de tal modo sua condição natural a ponto de imaginar que aquele reino lhe era devido, que o merecia e que ele lhe pertencia de direito? Admiraríeis sua insensatez e seu desatino. Mas há menos de insensatez e desatino nas pessoas de condição que vivem num tão estranho esquecimento de seu estado natural? 

Quão importante é este conselho! Pois todos os arrebatamentos, toda a violência e toda a vaidade dos grandes vêm de que eles não conhecem absolutamente o que são: sendo difícil que aqueles que se olhassem interiormente como iguais a todos os homens, e que estivessem bem persuadidos de que não têm nada em si que mereça essas pequenas vantagens que Deus lhes deu acima dos outros, os tratassem com insolência. É preciso esquecer-se de si mesmo para isso e crer que se tem alguma excelência real acima deles; nisso consiste essa ilusão que eu me esforço de vos descobrir[4].

PASCAL, Blaise. Três Discursos Sobre a Condição dos Grandes. Apresentação, tradução e notas de João Emiliano Fortaleza de Aquino. Kalagatos - REVISTA DE FILOSOFIA DO MESTRADO ACADÊMICO EM FILOSOFIA DA UECE FORTALEZA, V.2 N.4, VERÃO 2005, P. 201-214




[1] Rencontre: encontro; aqui no sentido de um encontro não marcado, nãoplanejado, isto é, não-proposital. Distinto de rendez-vous, encontro marcado. Pascal busca justamente acentuar nesta passagem a natureza casual, nãonecessária, da existência de quaisquer indivíduos, neste caso, dos reis.
[2] Em toda essa passagem, encontra-se a crítica pascaliana da moderna teoria do direito natural. Para ele, a vida civil não se regula por lei e/ou direito natural, mas apenas pelo convencional, pelo historicamente estabelecido, ao qual concorrem os acasos. Mas não se trata, por isso, de uma impossibilidade de legitimidade do estabelecimento humano, mas sim que tal legitimidade só pode encontrar-se no próprio estabelecimento humano, o qual, entendido como situado no estado de concupiscência, deve buscar garantir a justiça das concupiscências e, justamente assim, evitar a tirania.
[3] O “estado natural” aqui em questão não significa nenhum “estado de natureza” anterior e distinto da sociedade (ou Estado) civil, mas diz respeito à natureza do homem tal como somos e podemos nos conhecer, a saber, situados na “segunda natureza”. Em segunda natureza, somos o que somos em igualdade de corpo e de alma, não havendo neste âmbito, por natureza, qualquer distinção hierárquica, vertical, entre os indivíduos. Contudo, justamente por estarmos no estado de concupiscência da segunda natureza, distinguimo-nos horizontalmente uns dos outros por “qualidades naturais”, que nada mais são do que distintas concupiscências desenvolvidas. Por isto mesmo, a justiça significa, para Pascal, o reconhecimento das ordens distintas em que se situam as concupiscências, ordens qualitativamente distintas cujo desconhecimento produziria a tirania. 
[4] O délfico e socrático conhece-te a ti mesmo significa aqui saber-se igualmente finito, mortal, concupiscente e falível, condição para que o governante não se exceda. É esta excedência, esta démesure, que, na versão pascaliana da moral clássica do comedimento, conforma a tirania.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Reflexões pascalianas sobre o amor-próprio


A natureza do amor-próprio e deste eu humano é de só se amar a si e de só se considerar a si. Mas que há-de fazer? Não saberia impedir que este objecto que ama esteja cheio de defeitos e de misérias: quer ser grande e vê-se pequeno; quer ser feliz e vê-se miserável; quer ser perfeito - vê-se cheio de imperfeições; quer ser objecto do amor e da estima dos homens e vê que os seus defeitos só merecem a sua aversão e o seu desprezo. Este embaraço em que se encontra produz nele a mais injusta e a mais criminosa paixão que é possível imaginar; porque concebe um ódio mortal contra esta verdade que o repreende, e que o convence dos seus defeitos. Ele desejaria aniquilá-la, e não a podendo destruir em si mesma, destrói-a, tanto quanto pode, no seu conhecimento e no dos outros, isto é, põe todos os cuidados em encobrir os seus defeitos, aos outros e a si mesmo, e não suporta que lhos façam ver, nem que lhos vejam.É sem dúvida um mal estar cheio de defeitos; mas é ainda um mal muito maior estar cheio e não os querer reconhecer, visto que é acrescentar-lhe ainda o de uma ilusão voluntária. Não queremos que os outros nos enganem; não achamos justo que queiram ser mais estimados por nós do que o que merecem: não é portanto justo também que os enganemos e queiramos que nos estimem mais do que merecemos. 


Assim, quando só descobrem imperfeições e vícios que nós com efeito temos, é visível que não nos prejudicam, visto que não são eles a causa dessas imperfeições, e que nos fazem um benefício, por nos ajudarem a libertar-nos de um mal, que é a ignorância das imperfeições. Não nos devemos zangar porque as conheçam, e porque nos menosprezem: sendo justo que nos conheçam pelo que somos, e que nos desprezem se somos desprezíveis. 


Eis os sentimentos que nasceriam de um coração cheio de rectidão e de justiça. Que devemos portanto dizer do nosso, quando nele encontrarmos uma disposição completamente contrária? Pois não será verdade que odiamos a verdade e aqueles que no-la dizem, e que gostamos que se enganem com vantagem para nós e que queremos ser estimados por eles por sermos diferentes daquilo que com efeito somos? 

(...) A vida humana é apenas uma ilusão perpétua; o que fazemos é enganar-nos e iludir-nos mutuamente. Ninguém fala de nós na nossa presença como na nossa ausência. A união que existe entre os homens é fundada sobre este mútuo embuste; e poucas amizades subsistiriam se cada um soubesse o que o seu amigo diz dele quando não está presente, ainda que ele fale então sinceramente e sem paixão. 


O homem é apenas disfarce, engano e hipocrisia em si mesmo e para com os outros. Não quer que lhe digam a verdade e evita dizê-la aos outros; e todas estas disposições tão afastadas da justiça e da razão têm uma raiz natural no seu coração. 

Blaise Pascal, in "Pensamentos"



terça-feira, 15 de setembro de 2015

PASCAL E DESCARTES


Recorte do filme "Blaise Pascal" em que Pascal ouve Discurso do Método de Descartes e argumenta seus pontos de vista que são bem recebidos por Descartes.


terça-feira, 21 de abril de 2015

RELIGIÃO & MORTE


Como “futuro” Cientista da Religião, talvez não faria essa relação tangencial entre a Religião e a morte. Consigo sim, mesmo ainda que preso a algumas amarras da minha formação intelectual ver uma certa ligação entre ambos, mas, ciente de que são duas esferas da condição paradoxal da natureza humana. O homem é um ser essencialmente paradoxal, naturalmente insuficiente e contingente. Sua grandeza e sua miséria são dimensões de uma existência efêmera, povoado de acontecimentos que pela sua incapacidade de abarcar tudo, flerta com teorias sobre a vida, a morte, vida após a morte, reencarnação, ressurreição, religião, alma, Deus...

Será que o homem na sua dimensão existencial concreta necessita de tudo isso? Nossa vida e a vida dos nossos amigos serão melhores se conseguirmos responder todas as questões candentes sobre a nossa real situação? Precisamos ser religiosos para tornar mais sublime nossas reflexões sobre a morte? Ou, precisamos acreditar que a vida após a morte é em último caso, a possibilidade de realizar tudo o que essa vida passageira não nos possibilitou realizar?

Acredito que, desde os primórdios da humanidade o homem sempre questionou sobre a sua existência e o seu perecimento, e, nessa tentativa desesperada, era preciso encontrar respostas que apaziguasse suas dúvidas. Porém, ainda hoje, continuamos fazendo as mesmas perguntas e tendo as mesmas dúvidas. Ser religioso realmente é uma garantia que após essa passagem terrena estaremos aptos para uma segunda chance? Nesse caso, pela pluralidade de religiões, qual seria e eleita de Deus que garantisse efetivamente, que nossas ações enquanto homens comuns teriam a eternidade como recompensa?

Face a esses questionamentos, prefiro pensar a religião na dimensão existencial prática, como fenômeno social que molda o comportamento de seres humanos pensantes, mas que não resolve o problema da morte. Essa é a verdadeira marca da nossa miséria, quando nós nos deparamos com a nossa pequenez e infinitude diante de um cosmo infinitamente grande, quando comparado com a nossa existência mísera.

B. Pascal Filosofo francês do sec. XVII, num dos seus famosos fragmentos questiona: Afinal que é o homem diante da natureza? Nada, em relação ao infinito; tudo, em relação ao nada; um ponto intermediário entre o tudo e o nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas quanto o seu princípio permanecem ocultos num segredo impenetrável, e é-lhe igualmente impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve.   

 Mediante esse fragmento podemos ver que o desespero do homem é tão grande, que torna um imperativo fazer construtos cada vez mais elaborados na tentativa de escapar desse vazio interior que o assombra. A morte talvez seja uma das maiores preocupações do homem, porém, em minha opinião, não deveria ser, ou se fosse, seria para que o homem pudesse viver melhor enquanto habitante desse cosmo.

Como nada está garantido ou dado, para o homem a melhor solução, é nunca apostar contra o infinito, porque caso o fizer ele perde sempre. As pessoas preferem confiar nos dogmas religiosos como mediador entre a finitude humana e a infinitude de Deus. Fazendo isso, e de acordo com Pascal, não se perde nada! E isso me faz mais uma vez lembrar de outro fragmento de Pascal onde ele tenta convencer racionalmente um libertino (ateu) sobre a existência de Deus. É o argumento da aposta. Segundo pascal, “se você acredita em Deus e morre e Deus não existe, você não perdeu nada; se você acredita em Deus, você e ele existe, você ganha a eternidade; mas, se você não acredita em Deus, você morre, e Deus existe, você será condenado eternamente”.

Daí, ser preferível acreditar na sua existência porque o homem não tem nada a perder. Seria legitimo fazer o mesmo com a religião? Bom, pelo menos sobre as religiões sabemos algumas coisas! E sobre a morte? O que sabemos? Nada! Só sabemos que ela é certa! E o que vem depois dela? Paraíso, escuridão, caos, fogo eterno?! Como se diz no senso comum, nunca ninguém voltou para dizer como foi!
Entretendo, ultimamente e com a facilidade de usar e acessar as redes sociais, muito se tem falado e compartilhado “experiências científicas” provando a existência da alma e a vida após a morte! Em primeiro lugar, é preciso suspender o juízo e depois procurar saber as fontes de tais informações, pois, nem tudo o que se partilha ou publica provém de fontes fidedignas.  

Recuando um pouco, e falando um pouco mais sério, a tradição filosófica como não poderia deixar de ser, também se preocupou com o destino do homem após a morte. Hoje, embora essa reflexão esteja afastada do centro das reflexões filosóficas, não deixou de ser uma preocupação do homem contemporâneo. Embora, podemos constatar empiricamente que, uma boa parte dos homens atuais estão mais preocupados com o aqui e agora! Será que eles estão errados? E se não estiverem? Viver um dia de cada vez e usufruir o máximo de prazer, alegria e felicidade seria o melhor caminho? Tenho minhas dúvidas! O vazio existencial que muitas vezes me assombra me leva a constatar o contrário! Precisamos nos angustiar antes, para que possamos valorizar momentos de felicidade! Também não tenho uma resposta! Mas sei que preciso viver para poder morrer! A vida e a morte são passagens para outras dimensões ou com a morte tudo acaba?! Bom, se tudo acaba, é melhor aproveitar a vida! Mas se existe um propósito e uma nova etapa após a morte, vala a pena levar uma vida mais austera e mais uma vez não apostar contra o infinito! Infinito! Mas o que sabemos do infinito? Será que morremos para poder viver ou vimemos para poder morrer!? 

VIVAMOS TODOS PORQUE UM DIA MORREREMOS TODOS!!!    

Arlindo nascimento Rocha

E, lembrando de  Manuel Bandeira,  não esqueçamos de dançar um tango argentino.
Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire. 

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.