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quinta-feira, 27 de março de 2014

MARCAS DA VERDADEIRA RELIGIÃO





A obrigação da veracidade de uma religião é a obtenção da compaixão divina, Segundo Pascal, nenhuma outra religião do mundo fez isso exceto a cristã. A realidade antrópica do homem, seu verdadeiro estado instintivo, a verdadeira vicissitude e a verdadeira fidelidade à religiosidade são objetos cuja inteligência é indissociável.

A grandiosidade das realizações humanas bem como o estado mais deplorável e desprezível de uma entidade deve ser comum à religião verdadeira, a cristandade atende a esses requisitos. 

Nas seitas pagãs, é prática comum a busca por raízes de sua fé em exterioridades exorbitantes. Esse desenvolvimento atitudinal almeja a conquista de pessoas hábeis intelectualmente. Ao passo que o cristianismo, alavanca a equidade no trato com os seus seguidores, fundamenta a fidelidade analítica tanto no sentido interior quanto no exterior. Ela magnifica as classes mais abastardas por suas interioridades, a fé só pela crença na salvação não exigindo uma compreensão total do Deus que se acredita, e os intelectualmente beneficiados pela espiritualidade no desenvolvimento externo da cristandade. 

A aceitabilidade, aos deprimidos e moralmente infelizes os homens que nutrem raiva e rancor em autoflagelo, foi realizada exclusivamente pela fé cristã. A religião cristã demonstrou ser o homem o ser mais próximo à perfeição e paulatinamente mais miserável da face da Terra. Nossa religião discerniu que o pecado nasce com o ser humano carregado dos seus antepassados. Deus se manifestaria grandiosamente se houvesse apenas uma religião. E se por acaso houvesse martírios no cristianismo, somaticamente Ele estaria presente. 

A ocultação etérea da presença divina é corretamente exorbitada na cristandade. Qualquer religião que omita esse fato estará mentindo. A dialética analítica que o ser humano, enquanto agente exponencial da vontade divina, afastou-se do seu soberano Deus caindo em uma situação de desolação e tristeza, necessitando da autarquia da vinda de um Messias para apaziguar lhes espiritualmente, veio do cristianismo. É notável ver que apesar de todos os colapsos e pressões externas que o cristianismo sofreu, soube prevalecer graças a auxilio divino, pois todas as vezes que por impulsos de infiéis, lideres e ditadores dogmáticos a existência da cristandade esteve perto da extinção, o poder divino deu potência para seu levante social.

Jesus Cristo veio para cumprir todas as profecias bíblicas desde os primórdios terrestres com Adão. Fez grandes realizações milagrosas, converteu diversos pagãos; provando a lenda do Messias por toda a posteridade. Muitas religiões querem a aprovação avalizada mediante o autoritarismo, ameaçando os desertores. A religião cristã, por sua vez, usa-se sua retórica nas profecias embasadas na Bíblia. 

As ações virtuosas devem ser reflexos dos discursos humanistas das religiões. Ela deve ser o fio condutor de toda a postura do indivíduo perante sua sociedade. Sobre essa pontuação põem-se a criticar os ímpios e blasfemos, que rotulam a fé cristã como deísta e superficial, uma adoração sem qualquer simbolismo teórico. Deveras, enganam-se, pois a fidelidade cristã parte da crença de um ser do qual não se conhece a totalidade. Ela ensina que para o ser humano ter pleno conhecimento sobre o amor divino, faz-se necessário uma passagem pela miséria tanto fica quanto espiritual, para que com isso possa dar valor e temor ao seu Redentor. O autoflagelo do reconhecimento pessoal de ser um sujeito soberbo, fútil e vago é ponto para a absorção da religiosidade cristã no espírito. A humildade é um dos caracteres mais exaltados pelos cristãos. 


quarta-feira, 26 de março de 2014

MISTÉRIOS DO PECADO DE ADÃO

Primeiro mistério: o estado glorioso de Adão.
No fragmento 431 dos Pensamentos  Pascal faz uma análise do pecado original e algumas de suas consequências. Tais consequências que pretendemos sublinhar agora apresenta-se como três mistérios.

Não concebemos nem o estado glorioso de Adão, nem a natureza do seu pecado, nem a transmissão que dele se fez em nós. São coisas que aconteceram no estado de uma natureza totalmente diferente da nossa e que ultrapassam o estado de nossa capacidade presente.É inútil sabermos dessas coisas para sair de tudo isso; e tudo que nos importa conhecer é que somos miseráveis, corruptos, separados de Deus, mas resgatados por Jesus Cristo; e é disso que temos prova admirável sobre a terra.

 O estado glorioso de Adão nos é desconhecido, desta maneira, o homem não conhece a si mesmo, ou seja, o seu estado verdadeiro de homem. Ele não pode dizer nem o que é o homem nem o que ele não é, ficando sob a tutela da contingência qualquer afirmação ou negação que se levante. A isosthenéia seria a “melhor” resposta, ou seja, a resposta é dada sob o olhar do provável, da contingência. 

O homem, estando desprovido de uma resposta satisfatória sobre si mesmo, é visto, na ótica de Pascal, como um ser exilado de si mesmo. A procura de si está fadada ao fracasso, todavia, a procura é sinal de que existe resposta, porém, fora do alcance meramente humano. O pecado de Adão corrompeu toda humanidade e solapou qualquer possibilidade de resposta perene – não contingente – dentro das reflexões humanas. 

O estado glorioso de Adão, no qual se encontra a resposta sobre quem é o homem, torna-se um mistério insondável e o homem como um ser em busca do santo graal, ou seja, Sempre contingente quanto às possibilidade encontrá-lo e, caso encontre, de reconhecê-lo.
Portanto, diante do exílio de seu ser verdadeiro, este, porém, apresentando-se como mistério na antropologia teológica de Pascal, vejamos como Pascal entende o segundo mistério.

 Segundo mistério: a natureza do pecado de Adão.
 Se o estado glorioso de Adão é obscuro, isto não acontece naquilo que diz respeito ao pecado de Adão. Sabemos qual foi seu pecado, ou seja, sua soberba em querer ser igual ou mais do que Deus, mas qual a “natureza de seu pecado”, ou o porquê, o motivo daquela disposição momentânea– como ressalta Mesnard – do pecado de Adão? Ele tinha uma razão esclarecidíssima, contemplava Deus, vivia no paraíso, tinha tudo que lhe era necessário para viver uma vida santa, justa e feliz, sabia da grandeza de Deus, de Seu poder e de Seu mandamento, desta maneira, volta a pergunta: O que passou na cabeça de Adão antes do pecado e que, conseqüentemente, o fez pecar? Todas as respostas parecem insuficientes e misteriosas para Pascal: a contingência envolve tal fato. 

Como Adão presumiu poder ser mais ou igual a Deus? Será que ele realmente acreditava em tal conquista? As perguntas aumentam em maiores proporções que as respostas, todavia, tal acontecimento pareceria ser mais um mistério que abraça o tema do pecado original e lança todas nossas respostas a uma floresta repleta de contingência. Portanto, vejamos agora o que Pascal concebe como o terceiro mistério

Terceiro mistério: a transmissão do pecado.
 Diante do mistério em saber o que é o homem e o motivo do pecado de Adão, outro mistério transparece a nossos olhos: como se dá a transmissão do pecado? Como o pecado de um só homem pode corromper toda a humanidade e, o que parece ferir ainda mais nossa razão, como tal pecado é capaz de corromper toda a natureza a ponto de “[...] que nada que exista na natureza seja capaz de ocupar o seu lugar.”? E, já que a transmissão acontece, como ela acontece? Desta maneira, Pascal declara que a transmissão do pecado é um mistério insondável, portanto, é a contingência que permeia o homem quanto ao mal que todos cometem depois de nascer, sendo contingente o suficiente para fazer deste mistério algo insondável.

 Panorama dos três mistérios.
 Desta maneira, percebemos que Pascal postula três mistérios no 431 dos Pensamentos, estes porém, imersos na contingência: o primeiro, que diz respeito ao estado glorioso de Adão; o segundo, o porque ou a “natureza” de seu pecado; o terceiro, no qual ele indaga-se sobre o modo pelo qual se deu a transmissão do pecado. Entretanto, mesmo respondendo a todas estas perguntas, a situação do homem continuaria a mesma; Pascal ressalta que a resposta destas não livra o homem de sua condição presente. Sabemos que, para Pascal, é a graça regeneradora que garantiria a libertação do homem deste estado pós-queda. 

Todas as tentativas humanas de responder estas perguntas cairiam em um mistério insondável, pois, quando aconteceram tais fatos estávamos em um estado de natureza diferente do presente, de modo que a “nossa capacidade” presente, ou seja, contingente, não permite estabilizar nenhuma resposta que se obteve afirmativamente ou negativamente. Diante destes três mistérios que envolvem nossa condição em função do pecado, vejamos se podemos medir qual é a proporção do mesmo.

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O Pecado e a Contingência afeta a todos os Homens

Pascal destaca que o pecado adâmico é transmitido para toda posteridade de Adão.
Vejamos:

Este pecado passou de Adão a toda sua posteridade – que foi corrompida com ele como um fruto saindo de uma malvada semente –, assim, todos os homens saídos de Adão nascem na ignorância, na concupiscência, culpados do pecado de Adão e dignos de morte eterna.

O pecado de Adão é transmitido a toda posteridade, a todos os homens, mulheres, crianças e toda criação. A queda causa efeito em todo cosmos. Se a fonte é suja, o rio é sujo.A culpa do pecado adâmico corrompe não somente Adão, mas todos seus descendentes. O pecado pareceria ser um traço, um componente, um ingrediente, que constitui toda humanidade depois da queda.

Todos os homens estão na “ignorância”, ou seja, vivem a mesma situação contingente de Adão. Ele é o modelo de homem-pecador mais conhecido da humanidade. Todos estão condenados a imitar Adão e viver na gravidade do pecado. 

A “concupiscência” traduz o desejo humano de ser mais do que Deus ou igual a Ele e, desta forma, este desejo torna-se um vício repetido dentro da mecânica concupiscente do estímulo e do deleite que fecham o homem dentro de uma cadeia pecaminosa, uma espécie de rua sem saída, ou, para melhor esclarecer, a cobra comendo o próprio rabo. 

Mas somente Adão tem culpa de todo este drama cósmico? Não para Pascal, todos pecaram em Adão, todos são  culpados junto com ele e “dignos de morte eterna.”. Culpa infinita para desobediência tão horrenda. 

Tal desobediência é tão grande que nem mesmo a morte a qual o homem está condenado poderia servir de parâmetro para nos auxiliar a entender qual foi o tamanho do pecado de Adão. Desta maneira, diante da corrupção atávica de toda humanidade causando tamanha desproporcionalidade entre o homem e Deus e dificultando para entendermos o tamanho do pecado humano, Pascal irá comparar o tamanho do ultraje com a grandeza da graça.

http://www.sapientia.pucsp.br/tde_arquivos/7/TDE-2006-07-03T07:43:27Z-2340/Publico/ANDREI%20VENTURINI%20MARTINS.pdf

segunda-feira, 24 de março de 2014

EM BUSCA DA DA FELICIDADE

Todos os homens procuram a Felicidade. Então, o que há de errado nessa busca incessante? A felicidade existe? Se existe onde ela se encontra? Dentro ou fora de nós? 
Muitos filósofos ao longo da história tentaram responder essas indagações, porém, continuamos ainda colocando as mesmas perguntas, sem respostas definitivas...  

Não será justamente a felicidade o que todos querem, sem exceção?, interrogava Santo Agostinho, no século V. «Todos somos iguais no nosso desejo de sermos felizes e de ultrapassarmos o sofrimento», considerou, nos nossos dias, o Dalai Lama, expressando uma resposta praticamente unânime e consensual(...)  

“Estamos cheios de coisas que nos lançam para fora. O nosso instinto faz-nos sentir que é preciso procurar a nossa felicidade fora de nós. As nossas paixões levam-nos para fora, mesmo quando os objetos se não oferecessem para excitá-las. Os objetos de fora tentam-nos por si próprios e chamam-nos, ainda quando não pensamos neles. E assim, mesmo que os filósofos digam: «Recolhei-vos em vós mesmos, aí encontrareis o vosso bem», não se acredita neles; e aqueles que acreditam são os mais vazios e mais tolos”. 
                                                          Blaise Pascal, in "Pensamentos"



Para o filósofo Blaise Pascal, há uma indagação primeira para a qual o ser humano sempre tentou encontrar uma resposta, qual seja: por que as pessoas parecem incapazes de buscar a felicidade? Nesse sentido, há de se também indagar: por que os homens procuram a pura agitação e o mero divertimento como forma de se obter a máxima felicidade? E o contrário disso procede? O homem em completo equilíbrio e em total estado de repouso – longe de tumultos e de agitações – é quem estaria, de fato, apto a alcançar a tão sonhada felicidade? Como se vê, existem várias abordagens para o mesmo tema. Portanto, para o referido autor, muito se pensou a respeito desse assunto; muito se especulou acerca de qual seria a causa de todas as nossas infelicidades.

Segundo Pascal, todas as pessoas buscam a felicidade. Não há exceção para isso. Sejam quais forem os meios diferentes que empreguem, todos objetivam esse alvo. A razão de alguns irem à guerra, e de outros a evitarem, é o mesmo desejo em ambos, visto de perspectivas diferentes. A vontade nunca dará o último passo em outra direção. Esse é o motivo de cada ação de todo ser humano, mesmo dos que se enforcam. O homem já teve a verdadeira felicidade, da qual agora resta nele apenas o sinal e o espaço vazio, que ele tenta em vão preencher com as coisas ao seu redor, procurando em coisas ausentes a ajuda que não obtém nas coisas presentes. Essas porém, são todas incapazes, porque o abismo infinito pode ser preenchido somente por um objeto infinito e imutável , ou seja, apenas pelo próprio Deus."

Ainda de acordo com Pascal, é de se registrar que a infelicidade humana provém de uma só causa: o fato de o homem não suportar ter que pensar a sua infeliz condição, de ter que se debruçar sobre a sua vida tediosa, opaca e sem brilho. Razão pela qual os homens atribuem às coisas externas, “ou na lebre que se persegue”, os reais objetivos com os quais se busca a felicidade. Mas essa felicidade é passageira, uma vez que a posse e a conquista de uma determinada coisa (seja um bem ou um objeto específico, bem como a realização de algum projeto no âmbito pessoal ou profissional) não garantem a efetiva felicidade por parte do indivíduo. Pelo contrário, renova-se o anseio de se conquistarem mais coisas e de se projetarem novas possibilidades de satisfação.

Sendo assim, conforme assinala o próprio Pascal, “o homem (...) estando cheio de mil causas essenciais de tédio, a menor coisa, como um taco e uma bola que ele empurra, basta para diverti-lo”. Desse modo, a aspiração do indivíduo é pela caça e não pela presa, sendo a felicidade (momentânea) fruto da diversão; de tudo aquilo que desvia a atenção do ser humano das questões que dizem respeito à sua verdadeira natureza, encarada sob o ponto de vista da precariedade e do total abandono.

Por outro lado, muitos filósofos acreditam que a felicidade só pode ser alcançada no mais completo estado de repouso, longe das agitações e das incertezas cotidianas. Que a busca da felicidade pela via da cupidez e do puro divertimento é algo considerado absurdo e não condiz com o sentido último do ser humano, que é de conhecer a si mesmo. Assim, a felicidade estaria nessa nossa procura pela introspecção e na forma que o ser humano tem de pensar e encarar a sua própria inserção no mundo, guiando-se exclusivamente pela prudência e pela vida virtuosa, condição esta considerada essencial para se atingir a completa felicidade. No entanto, Pascal não acredita nesse argumento, por achá-lo demasiadamente reducionista, tendo ele observado que “(...) mesmo quando nos consideramos bastante seguros por todos os lados, o tédio, com sua autoridade privada, não deixaria de sair do fundo do coração, onde tem raízes naturais, e de nos encher o espírito de seu veneno”.

No fundo, para o filósofo Pascal, as duas posições estão certas e erradas. Para ele, somos movidos por dois instintos contrários e secretos: um que nos leva à posse de determinadas coisas, como se isto nos garantisse a verdadeira felicidade, apesar de buscarmos o puro divertimento; e o outro instinto que nos faz procurar incessantemente por algo a mais, algo que nos conforte e que só pode ser encontrado no mais absoluto repouso – a esse objeto tão procurado e desejado pelo ser humano, a ele damos o nome de Deus, embora esse mesmo Deus seja algo considerado pelo filósofo como inalcançável, pelo menos nesse plano (terreno) de existência.

Nessa perspectiva, somos por um lado miséria e sofreguidão, tendo que nos preocupar e nos entreter com objetos externos como razão de ser de nossa suposta felicidade, apelando ao divertimento como estratégia de fuga/desvio perante essa vida frágil e precária. Por outro lado, só Deus é esse objeto que nos acalanta e que pode, de fato, nos proporcionar a verdadeira felicidade.

Enfim, no dizer desse filósofo, somos seres divididos e incompletos, marcados pela dualidade e pela contradição, no que diz respeito à nossa incessante busca pela felicidade, que ora se baseia em Deus (inacessível e inatingível), ora na mais simples e pura diversão. Estranhas criaturas condenadas a viver o seu triste destino, já que “acreditam buscar sinceramente o repouso, mas não buscam de fato senão a agitação”.

BAUMAN, Zygmunt Zygmi - A Arte da Vida - Editora ZAHAR 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

PECADO ORIGINAL (SANTO AGOSTINHO)

O estudo da natureza humana em Pascal foi inspirado na doutrina do pecado original que se apoia em várias passagens das Escrituras: “a Epístola de Paulo aos Romanos  (5:12-21) e aos Coríntios (1 Co 15:22), e uma passagem do Salmo 51”. A doutrina cristã que pretende explicar a origem da imperfeição humana, do sofrimento e da existência do mal através da queda do homem “Adão”. Este ponto de partida é realmente fundamental a toda reflexão de Pascal. Porém, a primeira exposição sistemática sobre o pecado original é a de Agostinho de Hipona (Santo Agostinho), no século IV, que associa o pecado à culpa herdada por todo o gênero humano que devido ao orgulho e egoísmo de Adão, rejeitou o amor e a obediência devida a Deus.

O objetivo aqui é ver como Santo Agostinho concebe a questão do pecado original e suas consequências perante a humanidade em geral.
Como se sabe, Santo Agostinho partilha da ideia que Deus é o sumo bem, e tudo que Deus criou é bom por excelência, como o homem, que gozava de plena perfeição e liberdade, flexível ao bem e ao mal, antes do pecado. “A natureza do homem foi criada no princípio sem culpa e sem nenhum vício.” Mas depois da queda, causada pela desobediência do primeiro homem – Adão – à ordem de Deus, ver-se-ia enlanguescido na injustiça, no ódio e longe do Criador. Depois da queda o homem perdeu sua primeira condição santa, justa e forte. Vejamos o que o pecado causou ao homem na visão de Agostinho.

 Mas a atual natureza, com a qual todos vem ao mundo como descendentes de Adão, tem agora necessidade de médico devido a não gozar de saúde. O sumo Deus é o criador e autor de todos os bens que ela possui em sua constituição: vida, sentido e inteligência. O vício, no entanto, que cobre de trevas e enfraquece os bens naturais, a ponto de necessitar de iluminação e de cura, não foi perpetrado pelo seu criador ao qual não cabe culpa alguma.

Santo Agostinho faz uma descrição da condição do homem depois do pecado. Todos os homens são descendentes de Adão, desta forma, assim como Adão é pai de toda humanidade, pelo seu pecado, torna-se causa de todo pecado. “Por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte; e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.” diz São Paulo (Rm 5,12) citado por Santo Agostinho. O pecado, desta forma, é transmitido atavicamente à toda criatura e não estamos livres dele pelas forças da natureza, pois esta está corrompida.

A natureza humana encontra-se doente, agora precisaria de um médico que possa restabelecer a saúde, desta maneira, o remédio não está no próprio homem. “Assim, para Agostinho, a liberdade só podia ser a culminação de um processo de cura.” O Mediador, Jesus Cristo, faria este papel savífico mediante a sua misericórdia. “De quem procede a misericórdia? Não é daquele que enviou Jesus Cristo a este mundo para salvar os pecadores [...]?”. Este porém, destinada àqueles que Deus predestinou e escolheu por sua infinita justiça e infinita misericórdia, pois, “[...] toda raça humana merece castigo.” Depois do pecado de Adão, “o vício” enfraqueceria a natureza, cobrindo-a de trevas, sendo o Mediador a luz para as trevas e a cura para uma natureza doente.

Deus não é, para Agostinho, causa do pecado, pois foi o próprio homem que fez mal uso do livre arbítrio que Deus o concedeu no momento da criação, desta maneira, a fonte de todos estes males “é o pecado original que foi cometido por livre vontade do homem”. Antes da queda o livre arbítrio era flexível para o bem e para o mal, mesmo com o pecado o homem continua com seu livre arbítrio, mas este totalmente diferente daquele que se encontrava no primeiro homem, agora suas escolhas se restringem a uma gama de amores viciosos e maléficos. “O meu amor é meu peso. Para onde quer que eu vá é ele que me leva.”. O pecado corromperia a natureza e afastaria o homem do sumo Bem, Deus. Desta maneira, fazer-se-ia necessário distinguir o que Santo Agostinho entende por natureza.

Igualmente, quanto ao termo “natureza”. Entendemos de um jeito, quando falamos em sentido próprio, isto é, a respeito da natureza específica, na  qual o homem foi primeiramente criado no estado de inocência. De modo  diferente, entendemos o termo “natureza” quando tratamos dessa natureza na qual como consequência do castigo imposto ao primeiro homem, após sua condenação, nascemos mortais, ignorantes e escravos da carne [...].

O termo “natureza”, como relata o próprio autor, pode ser entendido de duas  maneiras específicas. A primeira seria aquela que se refere a uma natureza antes do pecado de Adão e, a segunda, depois do pecado. O estado que se encontrava e que se encontra o homem tem como ponto de referência Adão. O primeiro termo natureza é aquele da inocência, seria o homem saído das mãos de Deus, bom, saudável, forte, sem mácula, contemplando Deus face a face. Adão era o mais perfeito dos homens e não havia como superá-lo. O segundo modo, seria aquele que caracterizaria o homem depois do pecado de Adão, castigado e condenado por Deus à morte, sendo assim, “mortal”, “ignorante” e “escravo”.

Se antes do pecado o homem desfrutava da imortalidade, através da bondade de Deus em seu ato criador, da sabedoria, por contempla-LO face a face, e liberdade em sua capacidade de escolha, com o pecado, estes adjetivos tornar-se-iam contrários àqueles do primeiro estado de natureza, de maneira especial naquilo que diz respeito ao livre arbítrio na discussão pelagiana, pois este será visto como capaz somente do mal quando deixado sob o comando de suas próprias forças. “Dessa maneira, aprouve, muito justamente a Deus, que governa soberanamente todas as coisas, que nascêssemos daquele primeiro casal, com ignorância e dificuldade no esforço e na mortalidade.” Pela justiça de Deus os homens são condenados a viver ignorantes e mortais. “Isso porque ao pecarem foram precipitados no erro, na dor e na morte.”

As características do primeiro estado de natureza em Santo Agostinho são diferentes do segundo estado de natureza, logo a aplicação dos termos também se diversifica. É importante ressaltar que Santo Agostinho não fala de duas naturezas, pois, desta maneira, cairia em contradição com a tese de que Deus não é causa do pecado. Se Deus criasse as duas naturezas, a primeira não haveria problemas, pois trata-se de uma natureza boa, no entanto, a segunda natureza criada seria corrompida e Deus não poderia criar nada corrompido, mesmo porque, a corrupção nada mais é do que a ausência de Deus, ou seja, aquilo que Agostinho chama de mal.

Diante desta distinção do conceito de natureza construída ainda quando dialoga com os maniqueus, Santo Agostinho estaria apto para, mais tarde, responder à intervenção de Pelágio173 que, diante da afirmação de Santo Agostinho que a natureza, depois do pecado de Adão, é má, acusa-o de substancializar o pecado, o que é o mesmo que substancializar o mal.

Se dermos por certo que o pecado não é substância, não se diria também que o não comer, para não falar de outras coisas, não é substância? Dir-se-ia melhor que é o privar-se da substância, pois o alimento é substância. Mas o abster-se de alimento não é substância, mas a substância corporal, se se priva do alimento, de tal modo se enfraquece, deteriora-se pelo desequilíbrio da saúde, consomem-se suas forças, se extenua e se abate pela lassidão que, se de algum modo continua vivendo, mal poderá se acostumar novamente ao alimento, cuja abstenção foi causa de sua ruína.

 O pecado não é substância, assim como o não comer não é substância. Mas o que é substância para Santo Agostinho? “[...] Deus é substância [...].” O nome “substância”, que problematiza aquilo que seria o mal, é dado porque, sendo a substância algo que subsiste por si mesmo, ou seja, Deus, o mal não poderia ser substancializado de maneira nenhuma, e nisto concordam tanto Agostinho quanto Pelágio. Para sair da acusação da substâncialidade do mal por Pelágio, Santo Agostinho recorre a uma analogia: “o não comer”. O não comer não é substância, mas é o “privar-se da substância”, pois neste caso, o que caracteriza a substancialidade é o alimento. O alimento, para Agostinho, não é Deus – em um sentido panteísta –, pois, não podemos esquecer que esta passagem é uma analogia metafórica. Sendo o alimento a substância, privar-se dele deteriorizaria o corpo e, consequentemente, “desequilibraria a saúde” minando as forças e consolidando um estado de cansaço que causaria a morte.

Mesmo “o não comer” não sendo uma substância, ele é capaz de deteriorar o corpo, assim como o pecado que, mesmo não sendo uma substância, pode corromper o corpo. Será necessário o alimento para novamente estabelecer o corpo em seu estado de saúde, da mesma forma que precisar-se-á, para estabelecer a alma, da cura de seus males.

O pecado original, fonte de todos os males, prejudica ativamente o homem, desta maneira, devemos temer tudo aquilo que é pecaminoso, pois “[...] com esse nome se expressa o ato de uma má ação.” Santo Agostinho tenta livra-se das acusações de maniqueísta por parte dos pelagianos, pois, se fosse afirmado uma substancialidade ao mal, consequentemente Deus, que é criador de tudo, seria criador do mal, no entanto, como de Deus nada provém que não seja bom, o mal existiria per si, como uma entidade absoluta. Sendo o mal manifesto na corrupção da matéria e esta criada por Deus, poderíamos supor que o mal é transmitido pela matéria? Vejamos a explicação de Costa.

Logo, o ponto de partida para a explicação de como se deu a transmissão do pecado original de Adão aos seus descendentes só pode estar na alma, e o pecado só pode partir da alma para o corpo, uma vez que, [...] o corpo é um bem neutro, um elemento passivo ou um mero instrumento a serviço da alma, que pode servir-se dele tanto para o bem como para o mal.

O corpo em Agostinho é passivo, ele recebe as inerências da alma que o corrompe, desta maneira, a corrupção atávica dar-se-ia “na alma”, pois ela é infectada pelo pecado de Adão e transmite este pecado para toda humanidade. Mas de onde vem alma? Difícil resposta. Todavia, uma coisa é certa: o mal tem como causa o pecado original. Mas antes de tentar resolver o atavismo do mal, Santo Agostinho encontraria outro problema: o livre arbítrio. Deus não poderia ser causa da queda, nem o homem coagido a pecar, o pecado porém, insere-se na alma, desta maneira, qual a origem do pecado de Adão – a causa é o homem ou há outra causa, perguntará Agostinho – e como ficaria sua capacidade de escolha depois da queda? Neste momento é necessário ressaltar uma diferença importante na obra de Santo Agostinho: a diferença entre o livre arbítrio e a liberdade. Iniciemos esta distinção pelo conceito de liberdade na discussão com os maniqueus.
Arlindo Rocha (Graduado em Filosofia) 

Fonte Principal:

Dissertação de Mestrado de  Andrei Venturini Martins   

“CONTINGÊNCIA E IMAGINAÇÃO EM BLAISE PASCAL” 





quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

PASCAL E DESCARTES



Um maravilhoso encontro entre dois vultos da filosofia moderna “René Descartes e o Jovem Blaise pascal”. Diálogo esse que gira em torno da “busca de certeza do conhecimento”. Por um lado, Descartes procurava afirmar a possibilidade de um conhecimento certo e seguro ao propor um método que partindo da dúvida seguisse por noções claras até alcançar a verdade; em contrapartida, Pascal quis reavaliar a ideia de possibilidade de conhecimento e refutar a doutrina cartesiana com o argumento da limitação e distinção natural de cada modo de apreender que dispõem o homem.

Partindo da concepção de que não podemos julgar certamente, pois ainda não dispomos de uma doutrina que nos forneça ideias claras, como poderíamos tomar qualquer coisa por certo? Na verdade não poderíamos, qualquer caminho escolhido em meio a tanta confusão se provará correto ao fim do percurso quando se avaliar o trajeto.

A escolha se manifesta em contornos relativos. Parece ser melhor seguir com resolução no mesmo caminho para não vagar a esmo na busca pelo saber verossímil. Com a impossibilidade de julgar com segurança como queria Pascal e de que Descartes concorda até certo ponto, faz-se necessário uma moral provisória para ser resoluto no caminho escolhido e para cultivar a razão com o propósito de no fim conhecer certamente todas as coisas gerais (DESCARTES, 1994, p. 59).


O método cartesiano, criado por René Descartes, consiste no ceticismo metodológico - duvida-se de cada ideia que pode ser duvidada. Ao contrário dos gregos antigos e dos escolásticos, que acreditavam que as coisas existem simplesmente porque precisam existir, ou porque assim deve ser, Descartes institui a dúvida: só se pode dizer que existe aquilo que possa ser provado. O próprio Descarte consegue provar a existência do próprio eu (que duvida, portanto, é sujeito de algo - cogito ergo sum, penso logo existo). O ato de duvidar como indubitável.

Também consiste o método na realização de quatro tarefas básicas: 
a)  Verificar se existem evidências reais e indubitáveis acerca do fenômeno ou coisa estudada; consiste em nunca aceitar algo como verdadeiro sem conhecê-lo evidentemente como tal, isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; não incluir nos meus juízos nada que não se apresentasse tão clara e distintamente à minha inteligência a ponto de excluir qualquer possibilidade de dúvida.

b) Analisar, ou seja, dividir ao máximo as coisas, em suas unidades de composição, fundamentais, e estudar essas coisas mais simples que aparecem. Trata de dividir o problema em tantas partes quantas fossem necessárias para melhor poder resolvê-lo.

c)  Sintetizar, ou seja, agrupar novamente as unidades estudadas em um todo verdadeiro; e conduzir por ordem os meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir pouco a pouco, gradualmente, até o conhecimento dos mais compostos; e admitindo uma ordem mesmo entre aqueles que não apresentam nenhuma ligação natural entre si.

d) Enumerar todas as conclusões e princípios utilizados, a fim de manter a ordem do pensamento, ou seja, fazer enumerações tão completas, e revisões tão gerais, que tivesse certeza de nada ter omitido.

Pascal defende que, conhecemos a verdade, não só pela razão, mas também pelo coração; é desta última maneira que conhecemos os princípios, e é em vão que o raciocínio, que deles não participa, tenta combatê-los (Blaise Pascal).

A fundamentação do conhecimento em Pascal, ao invés de apontar para a capacidade ilimitada da razão “suficiência humana” como defende Descartes, indica antes a existência de limites “insuficiência epistemológica” que impede o homem de conhecer com tudo certeza. Por mais que conheça, o homem está encurralado num provincianismo cognitivo, por isso, jamais, poderá alcançar os limites da suficiência. Mesmo sendo feito visivelmente para pensar, ele se esbarra com os limites epistemológicos, aos quais ele não pode escapar.

Por isso, propõe o pluralismo metodológico para chegar à verdade, ou seja, não há um método por excelência para chegar a verdade, mas sim, um conjunto de métodos, o que quer dizer que para cada situação existirá um método específico, uma vez que não podemos, por exemplo, definir ou demonstrar a certeza relativa aos fundamentos que sustentam a razão, mas podemos ao menos definir e demonstrar tudo que vier após os fundamentos.

Para pascal existem duas formas para chegar ao conhecimento, o coração e a razão. O coração é responsável por captar os primeiros princípios (conhecimento intuitivo) e a razão cabe fazer a demonstração desses princípios “conhecimento demonstrativo”. Por isso, é impossível pedir ao coração que demonstre qualquer coisa que ou então pedir a razão que sinta alguma coisa, cada um atua no seu âmbito. Quando Pascal afirma “O coração tem razões que a razão desconhece” quer com isso, reafirmar a importância dessas duas faculdades para o conhecimento e ao mesmo tempo reconhece que ambos têm seus limites. Onde um opera com legitimidade, o outro não interfere...

Concluído, verifica-se que Descartes defende a suficiência humana, ou seja, a capacidade do homem conhecer através da razão, e, por outro lado Pascal defende a insuficiência humana, apontando o limite racional e empírico para se chegar ao conhecimento, ou seja, está vedado ao homem, a possibilidade de chegar ao conhecimento pela razão e o mesmo acontece no que tange a experiência empírica.

Arlindo Rocha
Graduado em Filosofia