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segunda-feira, 25 de março de 2019

A existência de Deus: um dos problemas fundamentais da Filosofia da Religião



Arlindo Nascimento Rocha[1]

Resumo: 

Compreender Deus em sua totalidade é preciso primeiramente compreendê-Lo no espírito humano como Ser Absoluto e Supremo, Ser existente e não negado na esfera racional. Portanto, se Deus é o ser que existe na razão, deve-se analisa-Lo filosoficamente e, por meio da reflexão racional e, posteriormente,  afirmá-Lo no espírito. Ao afirmá-Lo no espírito o que constitui a essência da nossa espiritualidade, podemos aferir que Deus não pode ser negado e passa a existir de forma 'Absoluta' contra qualquer dúvida. Por isso, nos próximos parágrafos refletiremos sobre um dos problemas fundamentais da Filosofia da Religião, ou seja, a existência de Deus. 

A existência de Deus: um dos problemas fundamentais da Filosofia da Religião

Em nosso entender, qualquer texto sobre Filosofia da Religião impõe-se como tarefa inicial clarificar suas formas de expressão e a de indicar seus principais temas. Nesse aspecto tanto uma como outra, ou seja, ‘Filosofia’ e ‘Religião’ são conceitos considerados polissêmicos, mas, segundo Paine (2013, p. 101) “longe de ser um sintoma de indefinibilidade, é antes marca de hiperdefinibilidade tal abundância de definições”. Isso é de certa forma corroborado por Kolakowski (1927-2009) em sua obra Philosophie de la religion publicada em 1985. Nessa obra, segundo Pena (1999,p.23), “nem a filosofia nem a religião dispõem de conceitos claros e bem definidos, no sentido de terem sua aceitabilidade consagrada por todos os especialistas”, mas, em nosso entender, essa ‘indefinibilidade’ ou ‘hiperdefinibilidade’ é muito mais discutida quando se trata da religião, “afinal, seja em termos histórico-etimológico seja em termo de teorização contemporânea, não há unanimidade ou equívoca universalidade acerca daquilo que se quer dizer com religião” (AHN apud PICH, 2013, p. 143). Entretanto, ao relacionarmos historicamente os dois conceitos é possível segundo Paine (2013) elencar três tentativas, a saber: (1) filosofia é religião (identidade), ou seja, uma aproximação íntima que se assemelha a uma fusão; (2) filosofia e religião (paralelismo), saberes distintos e inconfundíveis, tanto no método quanto no conteúdo; (3) filosofia na religião (teologias e metafísicas religiosas) uma vez que a cooperação entre ambas gerou grandes teologias, tanto no entendimento da primeira como serva da segunda, no caso do cristianismo, como também em correntes comparáveis como o Judaísmo e o Islã. 

Para clarificar as formas de expressão e indicar os principais temas em torno da Filosofia da Religião, foram trabalhados inicialmente autores como Grondin, Schaefler, Bilimoria, Taliaferro, Plantinga, Philips, e, posteriormente outros como, Paine, Pich, Graham Oppy, Nancy K. Frankenberry, Schilbrack, Yujin Nagasawa, só para citar alguns exemplos que foram abordados no sentido de entender como a Filosofia da Religião vem se posicionando face às outras disciplinas já consolidadas e qual tem sido seu papel na fundamentação epistemológica da Ciência da Religião, pois, como se sabe, ela pode ser entendida como análise e justificação dos fundamentos filosóficos da religião em geral tendo em conta seu interesse por todas as religiões e formas de religiosidade inclusive as contemporâneas. Isso fica explícito a partir do que é afirmando por Taliaferro, pois, segundo ele,
A filosofia da religião explora questões filosóficas que nascem da reflexão sobre a natureza e a verdade da crença religiosa e sobre os significados da experiência religiosa. [...] relaciona-se integralmente com a metafísica, a epistemologia, a ética, a filosofia da mente e outras áreas, das quais a história da filosofia não é uma das menos importantes [...] (TALIAFERRO, 2009, p. 445).
Ainda segundo o mesmo autor, a diversidade religiosa levou muitos a repensar suas crenças particulares e atualmente o estudo da Filosofia da Religião tem crescido bastante com o estabelecimento de novos periódicos dedicados a essa disciplina (Ibid.). Entretanto, como disciplina autônoma de fato, ela afirmou-se somente a partir do séc. XVIII, distanciando paulatinamente da Metafísica e da Ética, muito embora, acredita-se que o diálogo entre ambas é tão antigo como a própria filosofia. Então, pode-se considerar que ela é uma reflexão sobre o ‘fenômeno’ religioso, tendo em conta que está presente em todas as culturas. Nesse sentido segundo Grondin (2012) a primeira tarefa da Filosofia da Religião é redescobrir as indagações para as quais a religião é uma resposta, pois, acredita-se que ela oferece respostas sólidas sobre a existência. Por isso, ela reflete e questiona se a forma prática de vida que se designa como ‘religião’ é racionalmente plausível e o que se pressupõe como realidade é verdadeiro. Croatto (2010, p. 22) destaca Hegel (1778-1831) como sendo o precursor moderno da Filosofia da Religião e reconhece seus antecedentes em Kant (1724-1804), o impulso dado por Schleiermacher (1768-1834) e Schelling no séc. XIX, assim como a contribuição de Ricoeur (1913) e Henry Duméry (1920-2012). Ambos legaram obras importantes para a Filosofia da Religião.

De acordo como Frankenberry (2016), atualmente é possível identificar três trajetórias distintas em Filosofia da Religião, a saber: 1) o estudo comparado das tradições religiosas através do emprego de uma pluralidade de metodologias e perspectivas filosóficas; 2) uma abordagem centrada nos argumentos sobre a existência de Deus; o problema da linguagem religiosa; os desafios do positivismo lógico; e, o problema do mal; 3) e, finalmente, uma terceira abordagem em que a Filosofia da Religião formou alianças com áreas como método e teoria no estudo da religião, ética e o estudo científico-social da religião. Nessa pesquisa termos como foco, a segunda abordagem, mais especificamente, como referimos no título acima refletiremos sobre o tema A existência de Deus como sedo um dos problemas fundamentais na história da Filosofia da Religião, embora Schilbrack (2014) em seu artigo What is philosophy of religion afirme que este assunto não deve ser limitado apenas a afirmações sobre Deus, mas também deve incluir as reivindicações filosóficas de religiões politeístas e não-teístas, tendo em conta que, “o raio de ação da Filosofia da Religião é muito mais amplo, pois, terá de tomar posição em face de todas as filosofias que ocasionaram violência e foram redutivas em relação à religião” (TERRIN, 2003, p. 32). O conceito de Deus, segundo (ZILLES, 2004, p. 11) é um dos mais antigos, mais universais e mais fecundos do patrimônio cultural da humanidade. Por isso, esse tema sempre preocupou os filósofos desde a filosofia pré-socrática até nossa era, esse assunto tem sido amplamente discutido principalmente por teólogos e filósofos da religião. Nesse aspecto, os que atacam os argumentos a favor da existência de Deus criticavam sua forma argumentativa; e, os que defendiam, aceitavam sem sentido implícito. Entretanto, essa questão continua em aberto, pois, ela não foi solucionada, e, apesar dos argumentos de ambos os lados pode-se concluir que se não há provas da existência de Deus, também é verdade que não existem provas da sua não existência. No entanto, é plausível afirmar que, “poucos argumentos na história da filosofia produziram tanto debate quanto essas famosas tentativas de defender a Deus sem fazer referência à experiência sensível” (WILKINSON, 2014, p. 136).

Se consideramos que a filosofia teve início com os assim chamados pré-socráticos, cujo principal objeto de estudo era a natureza, em Sócrates (469 a.C.-399 a.C.) assistimos uma mudança de objeto de estudo que passa a ser o homem, em seguida Platão (427/347 a.C.) criou o mundo das ideias e finalmente Aristóteles (384 a.C./322 a.C.) trouxe ao mundo real as concepções ideais do mundo das ideias do seu mestre. Mas, neles todos é possível verificar que a reflexão sobre Deus não passou despercebido a começar por Talles de Mileto (624 a. C.- 546 a.C.) a quem se atribui a célebre passagem segundo a qual “tudo está cheio de deuses” ou ainda a célebre frase de Heráclito de Éfeso (535 a.C. - 475 a.C.) convidando os visitante a entrar em sua cozinha: einai gar kai enthautha theus, “pois, aqui também existem deuses” (LANGLOIS, et al 2009, p. 14). Superando o período clássico veio a Idade Média onde surgem vários filósofos tentando provar a existência de Deus, muitas vezes com argumentos difíceis de serem entendidos. Entre eles podemos citar o argumento ontológico de Santo Anselmo[2] (1033-1109) e as cinco vias da prova da existência de DeusSão Tomás de Aquino (1225/1274). Lentamente chegamos a Descartes (1596-1650), Pascal (1623-1662), Hume (1711-1776), Kant (1724-1804), e, finalmente, Nietzsche (1844-1900) e seu pensamento cético, tendo ele, segundo Pena (1999), proclamado no final do século XIX a morte de Deus, e, essa conclusão Nietzschiana “foi acompanhado de um processo de distanciamento da filosofia ocidental da religião e da Filosofia da Religião e, finalmente, surgiu o pensamento analítico que parecia destruir tudo” (ZILLES, 2004, p. 45), pois, ele argumentara que, não haveria lugar para Deus num século totalmente dominado pela relevância alcançada pela ciência [...] o mundo já dominado pelo pensamento mecanicista, não oferecia mais espaço para reflexões do estilo teológico ou metafísico (PENNA, 1999, p.17). Entretanto, ele seria superado pelo pensamento existencialista de Sartre (1905-1980), e, contrariamente à Kierkegaard (1813-1855) que colocara o homem diante de Deus e da sua eternidade, Sartre afirmava que o homem é uma paixão inútil que está entregue a sua própria sorte e é o único responsável pelo seu próprio destino.

Diferente de Anselmo, Aquino e Descartes, Blaise Pascal não acredita nas provas sobre a existência de Deus, e questionava: afinal, Deus existe ou não existe. Para que lado pendemos? Ele não pretendeu chegar a Deus através de provas racionais, mas, a partir do funcionamento do homem, recorrendo ao paradoxo, ou seja, a dualidade entre a sua miséria e a sua grandeza. Em sua Apologia destaca-se a tentativa de compreender a natureza humana através de sua procedência divina e a tentativa de compreender algo de Deus através de Sua imagem impressa no coração do homem. Daí, a existência contraditória representada pela nobreza da criatura divina e na abjeção, por ter renegado a Deus. Desde Pascal, costuma-se opor o Deus dos Filósofos ao de Abraão, Isaac e Jacó. Para ele, o primeiro seria o de Descarte ou o de Espinoza, ou seja, um Deus racional que funda o cálculo metódico que criou o mundo e o homem, enquanto que o segundo seria o Deus que toca o sujeito no seu íntimo. Pascal nega categoricamente a possibilidade de provar a existência de Deus através dos argumentos ditos racionais, pois, para ele, por mais que sejam belos e bem elaborados, eles serão sempre insuficientes, e sustenta que,
Se há um Deus, ele é infinitamente incompreensível, uma vez que, não tendo as partes nem limites, não tem qualquer comparação conosco. Somos, pois, incapazes de conhecer, quer aquilo que ele é, quer se ele é. Assim sendo, quem ousará compreender a tarefa de resolver essa questão? Não somos nós, que não temos nenhum ponto em relação a ele (PASCAL, 2005, p. 159). 
Para os que acreditam que seja possível provar Sua existência racionalmente, Pascal, insiste em sustentar as limitações da razão, pois, segundo ele, “a razão nada pode determinar a esse respeito” (ibid.), uma vez que, ela é fraca, insuficiente e limitada, e, só nos proporciona o conhecimento do milieu (meio). Segundo ele,
Conhecemos, pois, a existência e a natureza do finito porque somos finitos e extensos como ele. Conhecemos a existência do infinito e ignoramos a sua natureza porque ele tem extensão como nós, mas não tem limites como nós. Mas, não conhecemos nem a existência nem a natureza de Deus porque ele não tem nem extensão e nem limites (PASCAL, 2005, p. 159). 
Entretanto, ele defende que, pela fé conhecemos Sua existência e pela glória sua natureza, mas, isso só será possível através da Aposta, pois, ao invés das demonstrações racionais ele defende as provas históricas do cristianismo e o raciocínio que ressaltam a razoabilidade da doutrina da Queda, por isso, sua Aposta não visa provar a existência de Deus, mas levar o incrédulo a aceitar que é melhor apostar na Sua existência do que na Sua não existência, pois, quando se aposta contra o infinito (Deus) perdemos sempre, então, para Pascal, “é preciso apostar” (ibid.). A Aposta, segundo ele, é a atitude mais racional, pois, aquele que aposta na existência de Deus não tem nada a perder e tudo a ganhar, a salvação e a vida eterna, por isso, é preciso olhar para aquilo que traz maior benefício. Ele afirma que não temos escolha entre o acreditar ou não, pois, se “você vence, você ganha tudo, mas se você perde, você não perde nada. Assim, sem hesitar, aposte que Ele existe”(Ibid.).

Entretanto, para alguns críticos, a Aposta de Pascal é uma falácia argumentativa denominada falso dilema, em que se tenta restringir o número de possibilidades quando, na realidade há muitos outros. Entre eles pode-se citar o britânico Richard Dawkins (1941), ateu confesso que, em seu entendimento, a Aposta de Pascal, só poderia ser, quando muito, um argumento para se fingir a crença em Deus, pois, segundo ele, o acreditar não é algo que esteja sujeito à decisão, um rumo por que se opta (DAWKINS, 2018). Matt Dillahunty (1969) ex-presidente da Atheist Community of Austin é outro ateu que afirma que a Aposta é uma falsa dicotomia, pois, ela ignora todas as outras possíveis religiões, ignora outros paraísos e outros infernos, faz a afirmação de que adorar e acreditar não custa nada, presume que a crença esteja sujeito ao arbítrio e que, determinando que se tenha uma aposta segura, e que se pode ir adiante e escolher acreditar, e, por isso, é uma das coisas mais ridículas. Entretanto, muitos cristãos acreditam que Aposta de Pascal, reforça e incute nos crentes a coragem para decidir em prol da existência de Deus. 

Mais recentemente, e ainda versando sobre essa questão na tentativa de superar as diversas visões que os crentes, filósofos e cientistas têm em relação a Deus, na introdução da obra Abordagens Científicas da Filosofia da Religião,Nagasawa (2012) reflete sobre a questão da existência de Deus e usa os seguintes termos O Deus de Abrão, o Deus dos filósofos e o Deus dos cientistas. Segundo ele, na primeira é chamada de abordagem sobrenatural, pois, os crentes tentam compreender a existência e natureza de Deus através de meios sobrenaturais, na segunda os filósofos tentam compreender a existência e natureza de Deus através do pensamento racional e analítico, e, na terceira, ou seja, na abordagem científica, os cientistas tentam compreender a existência e natureza de Deus, apelando para a pesquisa empírica e estudos científicos. Esta é uma interessante combinação das duas abordagens tradicionais acima. Nesse aspecto, segundo Hock (2010, p. 15), “uma perspectiva de cooperação entre a Ciência da Religião e a Filosofia da Religião está se abrindo no esforço partilhado em prol de uma linguagem científica comum, com base em padrões e modos de procedimento metodologicamente claros”. 

Considerações finais:

Depois de tudo o que foi investigado e escrito, não restam dúvida, sobre a importância da Filosofia da Religião como área de conhecimento que reflete sobre questões cruciais entre Filosofia e Religião, mas, seu objetivo não é tornar as pessoas religiosas, pois, o trabalho dos filósofos não visa doutrinar o público, ensinar ou incentivar as pessoas a serem crentes, principalmente no que tange a existência ou não de Deus, pois, o desejo de conhece-Lo é como a busca de um cego a caminho do desconhecido, e, partindo de uma frese de Lessing, um suspiro sem palavras dirigido a Deus é a melhor maneira de adorá-Lo. Mas, torna-se inevitável não concordar com a sentença Nietsche sobre a morte de Deus, pois, ele sustenta que com isso a história do Ocidente atinge o ápice do niilismo, embora vozes contrárias dizem que Ele esteve, está e estará sempre presente nas pequenas ações e coisas simples, e, os mais otimistas não duvidam que estudos hoje clássicos mostram a influência da ideia de Deus e as concepções teológicas exercem sobre a ciência importantes influências, por isso, muitos defende que Deus é a maior ideia inventada pelo homem, mas, dele pouco ou nada sabemos, pois, Ele escapa à verificação científica, a ordem do ser e nossa linguagem será sempre insuficiente na sua tentativa de expressar o inefável. 

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Referências

CROATTO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa: uma introdução à fenomenologia da Religião. – 3ª ed. – São Paulo: Paulinas, 2010.
DAWKINS, Richard. A desilusão de Deus. – Rio de Janeiro: Leya, 2018.
FRANKENBERRY, Nancy. Enduring questions in philosophy of religion: a response to Neville and Godlove. American Journal of Theology & Philosophy 37, no. 1 (2016): 36-52.
GRONDIN, Jean. Que saber sobre filosofia da religião. – Aparecida, SP: Editora Ideias & Letras, 2012.
HOCK, Klauss. Introdução à ciência da religião. Tra. Monika Otterman. - São Paulo: Edições Loyola, 2010. 
KOŁAKOWSKI, Leszek. Philosophie de la religion. – Paris: Fayard, 1985.
LANGLOIS, Luc; ZARKA, Yves Charles (Org.). Os filósofos e a questão de Deus. – São Paulo; Edições Loyola, 2009.
MARCONDES, Danilo. Textos básicos de filosofia: Dos pré-socráticos a Wittgeinstein. - 7ª ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2011. 
NAGASAWA, Yujin. The God of Abraham, the God of the philosophers and the God of the ccientists. In: scientific approaches to the philosophy of religion. University of Birmingham, UK: Springer, 2012.
PAINE, Scott, Randall. Filosofia da religião. In: compendio de ciência da religião. João Décio Passos, Frank Usarski (Org). – São Paulo: paulinas, 2013.
PASCAL, Blaise. Pensamentos. - 2ª ed.- São Paulo: Martins Fontes, 2005. (Paidéia).
PENNA, Antônio Gomes. Em busca de Deus: introdução à filosofia da religião. – Rio de Janeiro: Imago, Ed., 1999.
PICH, Roberto Hofmeister. Religião como forma de conhecimento. In: compendio de ciência da Religião/ João Décio Passos; Frank Usarski (Org.). - São Paulo: Editora Paulinas: Paulus, 2013.
SCHILBRACK, Kevin. What is Philosophy of Religion? Publicado em 2014. Disponível em: <http://philosophyofreligion.org/?p=51868>. Acesso em 04/12/2014.
TALIAFERRO, Charles. Filosofia da religião. In: Compendio de Filosofia da Religião. Nicholas Bunnin; E. P. Tsui-James (Org.). – 1ª ed. – São Paulo: Editora Loyola, 2009.
TERRIM, Aldo Natale. Introdução ao estudo comparado das religiões. – São Paulo: Editora Paulinas, 2003. - (Coleção Religião e Cultura).
WILKINSON, Michael B. Filosofia da Religião. Michel B. Wilkinson; Hugh N. Campbell. – São Paulo: Paulinas, 2014. 
ZILLES, urbano. Crer para compreender. – Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.
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[1] Doutorando em Ciências da Religião – (PUC-SP) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; bolsista da CAPES. E-mail.arlindonascimentorocha@gmail.com.

[2] Segundo Pena (1999, p. 70), um dos argumentos mais discutidos, mais criticados é, todavia, mais presentes em toda a história da filosofia, é o argumento ontológico proposto por Santo Anselmo de Canterbury. Parte-se de uma afirmação de que Deus é um ser perfeito, daí decorrendo a necessidade mesma de sua existência [...] a rejeição do argumento foi enfaticamente efetuada por Kant, quando denunciou não ser a existência um predicado [...].

segunda-feira, 11 de março de 2019

O Memoria de Pascal - publicado em 1740



Depois de participar em grupos dados à "libertinagem" e aos jogos de azar, Pascal experimentou uma revolução na sua vida. Em 1654, escapou da morte num acidente de carruagem numa das pontes de Paris. Logo depois, num êxtase espiritual, decidiu dedicar-se com fervor à militância religiosa e depois à contemplação e à oração. após a conversão, documentada de forma comovente em Memorial:


Ano da graça de 1654.
Segunda-feira, 23 de Novembro, dia de são Clemente, papa mártir, e de outros no Martirológio. 
Véspera de São Crisógono, mártir, e  outros. 
Desde cerca de dez horas e meia da noite, até por volta de meia-noite e meia.

Fogo.

Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob e não dos filósofos e dos sábios.
Deum meum et Deum vestrum (1) 
Certeza, certeza, sentimento, alegria, paz.
(Deus de Jesus Cristo)
Deus de Jesus Cristo.  
Teu Deus será meu Deus
 Esquecimento do mundo e de tudo, menos de Deus.
Ele só se encontra fora das vias ensinadas no Evangelho.
Grandeza da alma humana.
 Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci. 
Alegria, alegria, alegria, lágrimas de alegria.
Apartei-me d'Ele
Derliquerunt Me fontem aquae vivae (2) 
Meu Deus, me abandonareis vós.  
Não fique eu separado d'Ele eternamente.  
Esta é a vida eterna, que te conhecem como só e verdadeiro Deus e aquele que enviaste, Jesus Cristo. 
Jesus Cristo. 
Jesus Cristo. 
Separei-me d'Ele, fugi dele, renunciei, crucifiquei. 
Nunca seja eu separado dele.
Ele só se conserva pelas vias ensinadas no evangelho.
Renuncia total e suave.
etc.
Submissão total a Jesus Cristo e a meu diretor.
Eternamente em alegria para um dia de exercício na terra.
Non obliviscar sermones Tuos. (3) Amén.

Fonte: 
PASCAL, Blaise. Pensamentos. - 2ª ed. - São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 270. Laf. 913.

(1) "... vosso povo será meu povo e vosso Deus é meu Deus."
(2) "... Eles me abandonaram, a mim, fonte de água viva."
(3) "Meditarei sobre as tuas justificações, não esquecerei as tuas palavras."

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Pascal: Não é caridade o outro nome da verdade?



DE BERNARD GRASSET

Qual é a verdade? Existe uma verdade universal? Se sim, a filosofia pode alcançá-lo e como? Se questionarmos a verdade a partir da perspectiva do pensamento pascaliano, onde ela ocupa um lugar central, devemos primeiro apontar uma abordagem cética e dialética da história da filosofia destacada na Entrevista com o Sr. de Sacy e a recuperação. nos Pensamentos. Os filósofos se contradizem interminavelmente e a verdade continua girando em suas mãos. Não existe verdade universal na filosofia. De fato, Pascal traz a filosofia de volta a duas grandes tendências: o dogmatismo (estoicismo epictético) e o pirronismo (o ceticismo de Montaigne). Essas duas correntes têm alguma verdade (a grandeza do homem para o primeiro, a miséria do homem para o segundo), mas apenas uma parte. Para acessar uma verdade que não é parcial, fragmentária, mas plena, completa, uma universalidade da verdade, devemos deixar o terreno da razão filosófica, o campo cartesiano do claro e distinto, para acolher um mistério inexplicável, além de da razão, que por si só explica a nossa existência e responde às questões da razão. Apegar-se à única razão, à ordem de Arquimedes, é privar-se da plenitude da verdade que irrompe na terceira ordem, a ordem da caridade.



sábado, 10 de março de 2018

A FRAQUEZA DA RAZÃO E A INCERTEZA DO CONHECIMENTO DA VERDADE EM BLAISE PASCAL


RESUMO

O objetivo desse artigo é analisar as críticas de Pascal ao pensamento racional que pretendia legitimar a verdade, baseando-se apenas na razão. Ele inicia seu percurso científico ainda criança, inspirado pelas discussões no círculo dos eruditos, e, por ter tido desde cedo a orientação do pai, seu único professor que lhe introduziu no estudo da geometria e da matemática. Mais tarde, ele viria a dedicar-se ao estudo das Sagradas Escrituras. Como prova de sua fé, escreveu uma Apologia ao cristianismo. Após sua morte, amigos e familiares reuniram os fragmentos que foram publicados sob o título de Pensées. Nessa obra, Pascal aproxima-se do ceticismo fideísta ao apontar os limites da razão e a incerteza do conhecimento racional que só podem ser superadas pela fé. Ele elabora o tema da contradição da natureza humana, presente na discussão moderna desde as suas raízes do humanismo renascentista e retomado por ele a partir de Montaigne. 

Palavras-chaves: Pensamento racional; Limites da razão; Incerteza do conhecimento; Ceticismo fideísta; Natureza humana.

TEXTO COMPLETO: 

domingo, 24 de dezembro de 2017

O problema do mal e a ocultação de Deus: uma análise sobre o pecado original como princípio do mal em Blaise Pascal





Resumo

Vários argumentos sobre a existência do mal foram apresentados em diversas épocas, podendo ser traduzidos em duas alternativas: uma visão centrada em Deus e outra no homem. No primeiro caso, pode-se apontar três possibilidades: Deus é bom, tudo o que existe é bom e o mal não existe; o mal existe e Deus está empenhado na batalha contra o mal; Deus não pode agir errado e, portanto, tudo o que Ele faz é bom. Enquanto que no segundo, afirma-se que, a bondade seria de menor valor, se fosse parte inalienável da natureza do homem. O objetivo deste artigo é apresentar a visão pascaliana sobre o mal, ou seja, o pecado original que determinou a entrada do mal no mundo, e, consequentemente a ocultação de Deus.

Palavras-chave: pecado original, mal, ocultação, Pascal, cegueira.

Para acessar o artigo em pdf, clique no link:

https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sites&srcid=ZGVmYXVsdGRvbWFpbnxyYmZyZmlsb3NvZmlhZGFyZWxpZ2lhb3xneDoyZjg2ZDkzMzViYTdiNTQz

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O que pode ser mais existencialmente perturbador que o tédio?




Os Deuses estavam entediados, por isso, criaram o homem. Adão ficou entediado por estar só; por isso, Eva foi criada. Desde então o tédio penetrou no mundo e cresceu em proporção exata ao do crescimento da população.

Kierkegaard  


Por: Arlindo Nascimento Rocha[1]


De acordo com o autor da obra Filosofia do tédio, (publicada inicialmente em 1999), Lars Svendsen, professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Bergen, na Noruega, o problema do tédio é uma das grandes questões, e sua análise deveria revelar algo importante sobre as condições em que vivemos atualmente. Por ter sentido na pele as mazelas do tédio por algum tempo, fez com que seu interesse aumentasse sua curiosidade, já que o tédio também é um problema filosófico. Então, partindo de uma experiência vivida, passou a investigar a visão de alguns pensadores que refletiram profundamente sobre o assunto, tendo posteriormente chegado a conclusão que, encontramos em grandes filósofos pensamentos brilhantes quanto ao tema. O tédio, segundo nosso autor é uma experiência existencial fundamental, pois, o homem é abandonado a si próprio, e dessa forma, aqueles que enfrentam o próprio tédio conhecem-se melhor a si mesmos do que os que fogem buscando diversões. Diante deste cenário parafraseamos Jon Hellesnes: o que pode ser mais existencialmente perturbador que o tédio?

Quase todos que falaram e falam sobre esse tema, consideram-no como um mal existencial. Schopenhauer o descreve como, anseio insípido sem nenhum objeto particular; para Kafka, era como se tudo o que ele possuísse lhe tivesse deixado; Moravia diz que o tédio é como uma doença das próprias coisas, que faz toda a vitalidade murchar e morrer; Garborg, o classifica como um frio mental; Dostoievski descreve o tédio como aflição indefinível; para Fernando Pessoa, o tédio é tão radical que não pode ser superado sequer pelo suicídio; Kierkegaard ousa afirmar que, os deuses estavam entediados, por isso, criou Adão, que ficou entediado por estar só, por isso, Eva foi criada. Desde então o tédio penetrou no mundo e cresceu em proporção exata ao do crescimento da população; e, para Nietzsche, até os deuses lutavam em vão contra o tédio. Ao contrário desses dois últimos autores, Svendsen acredita que o tédio, é um fenômeno recente, e que no paraíso o tédio não teria tido lugar, uma vez que, o espaço estava preenchido por Deus;

Através da passagem anterior, pudemos observar que várias mentes brilhantes, possivelmente atormentados pelo tédio, tentaram definir o que para eles seria uma explicação para o mesmo. Porém, para Svendsen, uma das mentes mais cintilantes que refletiu sobre o assunto, foi Blaise Pascal, filósofo do século XVII, que associa o tédio a problemática teológica. Ele é de opinião que o homem sem Deus está condenado à diversão, e, nesse aspeto a vida do homem torna-se uma fuga da vida, que, sem Deus, é fundamentalmente um nada. Por isso, toda a tentativa de escapar do tédio através das diversões, é sinónimo da fuga da realidade, assim, Pascal afirma que nada é mais insuportável para o homem quanto estar no estado de pleno repouso, sem paixões, sem ocupações, sem diversão, sem esforço.    

Segundo nosso autor, outro brilhante filósofo que aborda este tema é Kant. Ele trata do tédio no contexto da filosofia moral, e, segundo o mesmo, o tédio estava ligado ao desenvolvimento cultural. Para ele, no tédio, o homem é tomado por uma abominação ou náusea diante da sua própria existência, por isso, para ele um bom argumento para as diversões baratas é o momento mori - lembra-te que vais morrer!

Para Svendsen, as reflexões de Kant, sobre o tédio são uma clara antecipação da teoria de Thomas Mann, que faz uma descrição fenomenológica do tédio, e sugere que a cura é mudar frequentemente os hábitos, uma vez que segundo ele, novos hábitos são as únicas formas de animar nossa vida. Por outro lado, Svendsen alerta que a problemática descrita por Mann, já havia sido defendido antes por Kierkegaard, que exageradamente afirma que o tédio é a raiz de todo mal. Ele descreve o tédio como um panteísmo demoníaco e afirma que não conhece expressão mais forte, mais verdadeira, pois, somente o semelhante conhece o semelhante. Segundo Kierkegaard, a sensação de tédio é para o homem refinado, uma vez que pressupõe um elemento de autorreflexão ou de contemplação no tocante à nossa própria situação no mundo. Essa ideia é corroborada por Leopardi, que afirma que o tédio é reservado às almas nobres, e que, a multidão, pode na melhor das hipóteses, sofrer de simples ociosidade. Essa atitude elitista do tédio, encontraremos também em Nietzsche que abordarmos mais a frente. 

Já em Schopenhauer, segundo Svendsen o homem pode escolher em geral, entre sofrimento e tédio, uma vez que a vida oscila entre o sofrimento e o tédio, por isso, se o homem consegue interromper o tédio, o sofrimento retornará, portanto, o homem quando não sabe mais o que fazer sucumbe ao tédio. Assim quando as metas não são alcançadas, o resultado é o sofrimento; quando são, o resultado é o tédio, por isso, na falta de satisfação no mundo real, o homem cria um imaginário, dando origem assim, as várias religiões como tentativa de escapar do tédio.       

Para Nietzsche, segundo nosso autor afirma, o tédio é a desagradável calma da alma que precede aos atos criativos e afirma que ele é o próprio hábito do trabalho, que agora se faz sentir sob a forma de uma necessidade nova e adicional, ele será tanto mais forte quanto mais forte for o desejo de trabalhar. Para escapar do tédio o homem ou trabalha além da medida das suas necessidades, ou inventa o jogo. Mas ao enfastiar do jogo e não tem nenhuma necessidade de trabalhar, é atacado pelo anseio de um terceiro estado.

Para finalizar, essa pequena exposição sobre o tédio, usaremos a classificação proposta por Milan Kundera, que, segundo o mesmo o tédio pode ser classificado três tipologias: 1) o tédio passivo (quando alguém boceja); 2) o tédio ativo (quando alguém se dedica a um hobby); e, o tédio rebelde (quando um jovem quebra vitrines de uma loja), tipologias essas muito presentes em nossa sociedade atual. E, para responder nossa questão inicial: O que pode ser mais existencialmente perturbador que o tédio, não é tão complicado como parece! Acredito que, a resposta é simples e objetiva, NADA, ou seja, o tédio é um das piores males da humanidade.

Referência: 
SVENDSEN, Lars. Filosofia do tédio. Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2006.  






[1] Mestre em Ciência da Religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – SP; Pós Graduado (lato senso) em Administração, Supervisão e Orientação Pedagógica e Educacional na Universidade Católica de Petrópolis – RJ; Licenciado em Filosofia para docência na Universidade Pública de Cabo Verde; Curso de Formação de Professores do Ensino Básico Integrado pelo Instituto Pedagógico do Mindelo – Cabo Verde. E-mail: arlindonascimentorocha@gmail.com.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

BLAISE PASCAL:

Desejo e divertimento como fuga se si mesmo na antropologia pascaliana


Arlindo Nascimento Rocha[1]




Resumo

Este artigo tem como objetivo trazer à tona e refletir sobre os conceitos pascalianos de desejo e divertimento como categorias antropológicas, que nos ajuda a entender melhor a necessidade (desejo) e a busca permanente pela agitação (divertimento) como marcas do desvio da nossa condição insustentável. Pascal interpreta o divertimento como manobras para desviar o pensamento das nossas misérias existenciais, das nossas múltiplas insuficiências, da nossa incapacidade de nos manter em repouso, mas também podemos interpretá-lo como sendo uma condição essencial do homem que impede o acesso ao momento e à eternidade. Portanto, se há um conceito que Blaise Pascal reinventou de forma original, é o divertimento, visto como todos os estratagemas usados pelo homem visando à fuga de si mesmo. Esta condição de insatisfação dos nossos desejos e da eterna procura pelo divertimento é precisamente a contingência da nossa existência inautêntica e miserável.

Palavras-chave: desejo; divertimento; misérias existenciais; condição insustentável; insatisfação.



___________________________
[1] Artigo submetido em 02/02/2017. Aprovado em 07/03/2017. 1 Mestrando em Ciência da Religião, Pós-Graduado em Administração, Supervisão e Orientação Pedagógica, Licenciado em Filosofia. arlindonascimentorocha@gmail.com

[ISSN 2317-0476] Diversidade Religiosa, João Pessoa, v. 7, n. 1, p. 241-259, 2017

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A condição humana no cristianismo pascaliano: o paradoxo entre grandeza e miséria

COLÓQUIO PASCAL USP – 07/06/2017


Nome: Arlindo Nascimento Rocha
Nível acadêmico: Mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP
Dissertação: Paradoxos da Condição Humana: Grandeza e miséria como paradoxo fundamental na filosofia da Blaise Pascal. 
Orientador da dissertação: Luís Felpe Pondé


TÍTULO DA APRESENTAÇÃO

A condição humana no cristianismo pascaliano:

o paradoxo entre grandeza e miséria


OBS: Este artigo publicado na “Revista Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento”, em abril de 2017, no seguinte endereço eletrônico:

                                                         RESUMO

Blaise Pascal (1623-1662) pensador francês, considerado gênio da ciência, matemático, físico, filósofo, teólogo, pai da computação digital, da física experimental, do cálculo integral e diferencial, da geometria projetiva, gênio da literatura universal, defensor do cristianismo, polemista tentado pela reclusão, mas, muitas vezes obscurecido pela lenda.

Como pensador, seus escritos teológicos e filosóficos são contagiantes, uma vez que, desenvolveu uma influente leitura da condição humana em sua época. Nessa apresentação, analisarei os conceitos de grandeza e miséria como argumento antropológico em Pascal que, segundo Robert Velard: “Começa com uma observação simples: os seres humanos exibem qualidades de grandeza e miséria”.


A obra de Pascal é construída sobre o paradoxo do homem: Grandeza e miséria, razão-coração; finito-infinito, tempo-eternidade, carne-espírito. Pascal afirma que, “fonte de todas as heresias é não conhecer o acordo de duas verdades opostas”. Ao refletir sobre o paradoxo entre grandeza e miséria, no fragmento “Laf. 114; Bru. 397”, Pascal nos mostra uma dialética entre esses dois conceitos que caracterizam antropologicamente a natureza humana, através da seguinte passagem: “a grandeza do homem é grande por ele conhecer-se miserável [...] É então ser miserável conhecer (-se) miserável, mas é ser grande conhecer que se é miserável”.

Segundo Alain Couprie, “Pascal não descreve a miséria do homem por misantropia ou pelo ódio de seus conterrâneos”. Essa dialética que Pascal articula exprime a situação dramática do homem no limiar dos tempos modernos. [...] Todavia, é preciso ressaltar que a grandeza do homem em Pascal não se confunde com a riqueza, a glória ou o exercício de altos cargos. Para ele, essas são “grandezas de estabelecimento” resultantes de um acidente de nascimento ou de instituições políticas e sociais. Eles não constituem nenhum caso de grandeza real, uma vez que, a verdadeira grandeza se funda na dignidade do homem.

De acordo com Robert Velarde: 
O argumento antropológico de Pascal começa com uma observação simples: os seres humanos exibem qualidades ou traços de grandeza e miséria. Tal argumento é atraente em um ambiente contemporâneo, porque começa com uma observação da natureza humana, em vez de um argumento direto à existência de Deus, a confiabilidade na Bíblia, a validade da crença na ressurreição. 

Esse argumento apenas pretende iniciar a discussão sobre a natureza da condição humana. Segundo Bem Rogers: a dialética de Pascal alerta o interlocutor agnóstico para dois elementos da condição humana em geral, e para sua dificuldade em particular:
Procura mostrar que ninguém, baseando-se apenas em meios humanos, é capaz de entender a confusa mistura de baixas qualidades e alto potencial presente no homem (maços 2-7);
Apesar da evidente capacidade para a felicidade, o homem é naturalmente miserável e nada que os filósofos foram capazes de sugerir pode aliviar essa miséria (maços 8-10).
Pascal pinta um quadro absolutamente trágico da condição paradoxal do homem, questionando sua verdadeira essência nas seguintes palavras:

Que tipo de quimera é então o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que fonte de contradições, que prodígio? Juiz de todas as coisas, verme imbecil, depositário da verdade, cloaca de incerteza e de erro, glória e rebotalho do universo.
É visível que o homem vive uma situação paradoxal marcada por traços de grandeza e miséria. No entanto, o homem recusa-se a ver a verdade da sua condição e vive disfarçando, forjando para si uma máscara que esconda a sua miséria. Miséria essa, que marca o homem com o selo da discórdia, interna e externa.
 No plano interno, ela reflete-se na luta entre a razão e as paixões;No plano externo entre o homem e a natureza.Ou seja; O sujeito pascaliano vive eternamente em conflito consigo mesmo.
O paradoxo entre grandeza e miséria, é a nosso ver, o cerne da antropologia pascaliana, uma vez que, assinala duas naturezas antagônicas, porém inseparáveis.  Ou seja, o homem é um misto de misérias e de grandezas, e, naturalmente, entre essas duas dimensões existe uma relação de alteridade.
De acordo com, Jean Mesnard, a noção de miséria pode ter alternativas como: mesquinhez e fraqueza, ideia essa, encontrada em Santo Agostinho. Mas, as duas noções que Pascal desenvolve juntas, a saber: Primeira: a grandeza, que Epiteto pretendia realizar unicamente pela força do homem, e; Segunda: a miséria, que Montaigne pretendia acomodar numa posição de orgulho e de preguiça, são na realidade dois momentos compreensíveis somente na perspectiva cristã [...] Segundo Humberto Rohden “entre os dois está o cristianismo, que não [super-humaniza] nem [infra-humaniza] o homem, [...] O homem era grande antes da queda, mas ele é miserável sem Deus. Sua salvação depende da graça de Deus”.
Para Pascal a grandeza do homem vem de sua origem divina, e sua esperança de salvação é sustentada pela redenção de Jesus Cristo, sem a qual o conhecimento de Deus seria inútil para o homem. Ainda segundo Pascal, “o homem não é nem anjo nem animal”, por isso:
É perigoso mostrar-lhe o quanto é igual aos animais sem lhe mostrar sua grandeza. É também perigoso mostrar-lhe sua grandeza sem a sua miséria. É mais perigoso ainda deixá-lo ignorar uma e outra coisa, mas é vantajosíssimo apresentar-lhe uma e outra.
 Por isso, Pascal nos mostra como fazer isso no fragmento “Laf. 130; Bru. 420” da seguinte forma “se ele se gaba, eu o rebaixo. Se ele se rebaixa, eu o gabo. E o contradigo sempre. Até que ele compreenda que é um mostro incompreensível”.

É importante assinalar que, segundo nos relata Kreeft, as duas heresias humanas fundamentais são o ‘animalismo’ e o ‘angelismo’. Ou seja, “o homem tem uma existência paradoxal: grandeza miserável, animal racional, espírito mortal, caniço pensante”.

Existem três paradoxos no fragmento, que devem ser distinguidos;
1º metafisicamente, o homem é sujeito e objeto. Um objeto pequeno e fraco, como um caniço. Mas ele é também sujeito: mente e espírito, pensamento e consciência, ou seja, uma folha de grama que filosofa;
2º psicologicamente o homem é grande e miserável, exaltado e rebaixado; e,
3º moralmente o homem é mau e bom, capaz do inferno ou do paraíso [...].

Nessas três vias, o homem é instável, sua natureza é dupla (corpo e espírito), sua consciência é dupla (exaltado e rebaixado) e a sua potencialidade é dupla (inferno ou paraíso).
O paradoxo entre grandeza e miséria nos leva a refletir sobre a verdadeira situação do homem e a formular algumas interrogações pertinentes:
De que forma podemos perceber a miséria e a grandeza no homem contemporâneo?
O conhecimento desse paradoxo muda efetivamente a forma de pensar do homem?
Certamente, a humanidade diante de tantas calamidades, sofrimentos, perdas e corrupção já está num estágio de entorpecimento, e, a única saída, é a fuga de si mesmo. Todo homem está à procura da felicidade, porém essa vem sendo buscada de maneira egoísta e envaidecida. Contudo, na via pascaliana, a grandeza deve associar-se à miséria humana pela reflexão, uma vez que, segundo André Soarès “a mediocridade, que mantém o mundo, é a mesma vaidade que salva os homens”.
Pascal acreditava que só a religião cristã é que explica justamente a natureza do homem. O homem é tanto mísero como grande. Muitas religiões reconhecem a grandeza do homem, mas não conseguem ver a sua miséria e vice versa.

Exemplos: 
 O movimento da Nova Era; o homem é Deus e o pecado é uma ilusão;
Os humanistas seculares consideraram o homem um animal; 
Os behavioristas vêm o homem como uma máquina.  
Portanto, só o cristianismo vê o homem pelo que ele realmente é; o homem é miserável e grande.
Na formulação do paradoxo, Pascal, teve como precursores dois filósofos: Epiteto e Montaigne, cada um representando uma corrente filosófica diferente, o Estoicismo e o Ceticismo, cada uma, apresentando uma análise unilateral do homem. Esses dois filósofos, influenciaram o pensamento de Pascal na elaboração do conceito de homem paradoxal, cindido entre miséria e grandeza. Segundo Peter Kreeft, ao filósofos não deveriam ser divididos em “otimistas” e “pessimistas” ou em filósofos da grandeza humana e filósofos da miséria humana, mas em “paradoxicalists” e “nonparadoxicalists”.
Paradoxicalists são filósofos como Pascal que tem uma visão aberta o suficiente para ver profundamente em ambas as direções ao mesmo tempo. (Paulo, Agostinho, Pascal, Kierkegaard e Dostoiévski são verdadeiros paradoxicalists);
Muitos filósofos ao contrário são unidimensionais, ou seja, nomparadoxicalists porque eles cobrem um dos olhos ao analisarem o homem. Eles são otimistas ou pessimistas, racionais ou empiristas, espiritualistas ou materialistas.
A influência de Epiteto e de Montaigne fica clara na conversa com o Senhor da Sacy, onde Pascal apresenta de forma sistemática ser conhecedor dessas duas posições, cujo objetivo era mostrar que nenhuma análise unilateral do homem é capaz de explicar sua verdadeira condição.
Em Pascal, como vimos o homem é um composto integrado de miséria e grandeza, portanto, nem Epiteto, nem Montaigne estavam certos ao defenderem suas teses, uma vez que, a verdadeira condição do homem, está na conjugação das duas posições.
Atualmente, não é difícil enxergar que o homem se revela ao mundo apresentando traços de grandeza, e traços de infinitas misérias, fruto da ruptura com o seu Criador. Mas, segundo Pascal, Cristo voltará um dia para trazer à história humana, com toda a sua grandeza e miséria, a uma conclusão definitiva. Então, sua causa como mediador será justificada e seus discípulos fiéis, serão recompensados.
Só resta ao homem viver na esperança, se ele souber que todas as coisas terminarão bem com a vinda de Cristo. Sua soberania será definitivamente estabelecida, e todas as pessoas serão submetidas ao seu reinado. Até esse dia chegar, devemos ser fiéis e esperar por Ele com esperança, pois, como vimos anteriormente, ele é o único caminho que leva ao Senhor, uma vez que o homem sozinho está condenado à perdição, já que ele é um indivíduo, mas é também a síntese da humanidade, e os pecados da humanidade são de certa maneira os pecados do homem. A aliança em Cristo redime os pecados, e, a história da salvação manifesta-se como uma grandiosa pedagogia divina que aponta para Cristo.
 
Referências bibliográficas  

KREEFT, Peter. Cristianity for modern pagans: Pascal´s Pensées. Edited, Outlined and explained. – San Francisco: Ignautos press, 1993. 341p.

MESNARD, Jean. Les Pensées de Pascal. Paris, Sedes, 1993.

PASCAL, Blaise, Pensamentos. – 2ª edição. Apresentação de notas Louis Lafuma; Tradução Mário Laranjeira, Revisão técnica Franklin Leopoldo e Silva, revisão da tradução Márcia Valéria Martinez de Aguiar; introdução da edição brasileira Franklin Leopoldo e Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 441p. – (Paidéia).

ROGERS, Ben. Pascal. Elogio do efêmero. – São Paulo: Editora UNESP, 2001. 65p.

ROHDEN, Humberto. Pascal: o homem que apelou da razão para o coração e de Roma para Deus. – 3ª edição. Alvorada Editora e Livraria Ltda., 1981. 82p.

VELARDE, Robert. Greatness and Wretchedness: The Usefulness of Pascal’s Anthropological Argument in Apologetics. Christian Research Journal, v. 27, p. 32-40.