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terça-feira, 10 de novembro de 2020

Oração para pedir a Deus o bom uso das doenças - Blaise Pascal

  
                                                     Blaise Pascal (1623 - 1662)


Trad. Andrei Venturini Martins 

[I] (362a) – Senhor, cujo espírito é tão bom e tão doce em todas as coisas, e que sois tão misericordioso, que não somente as prosperidades, mas mesmo as desgraças que acontecem com vossos eleitos, são os efeitos de vossa misericórdia, concedei-me a graça de não agir como pagão no estado onde vossa justiça me submeteu: que como um verdadeiro Cristão eu vos reconheça como meu pai e meu Deus, em qualquer estado que me encontre, já que a mudança da minha condição não causa a vossa, porque vós sois sempre o mesmo, embora eu esteja sujeito à mudança, e vós não sois menos Deus quando afligis e punis do que quando consolais e usais de indulgência. 

[II] (362ab) – Me destes a santidade para vos servir, e dela fiz uso totalmente profano. Enviai-me agora a doença para me corrigir: não permitais que eu use dela para vos irritar com minha impaciência. Eu usei mal da minha saúde, e por isto me tendes punido justamente. Não tolereis que eu use mal de vossa punição. E, já que a corrupção da minha natureza é tal que me torna vossos favores perniciosos, concedei, ó meu Deus, que vossa graça toda poderosa torne vossos castigos salutares. Se eu tive o coração pleno de afeição ao mundo enquanto ele teve algum vigor, aniquilai este vigor para minha salvação, e tornai-me incapaz de desfrutar do mundo, seja por fraqueza do corpo, seja por zelo da caridade, para somente desfrutar de vós. 

[III] (362b-363a) – Ó Deus, diante de quem eu devo prestar uma conta exata de todas as minhas ações ao fim de minha vida e ao fim do mundo! Ó Deus, que não deixais subsistir o mundo e todas as coisas do mundo, senão para exercitar vossos eleitos ou para punir os pecadores! Ó Deus, que deixais os pecadores endurecidos no uso prazeroso e criminoso do mundo! Ó Deus, que fazeis morrer nosso corpo e, na hora da morte, desligais nossa alma de tudo aquilo que ela amava no mundo! Ó Deus, que me arrancais neste momento de minha vida de todas as coisas às quais me liguei e onde coloquei meu coração! Ó Deus, que deveis consumar no último dia o céu e a terra, e todas as criaturas que eles contêm, para mostrar a todos os homens que nada subsiste senão vós, e que assim nada é digno de amor senão vós, já que nada é durável senão vós! Ó Deus, que deveis destruir todos estes ídolos vãos e todos estes funestos objetos de nossas paixões! Eu vos louvo, meu Deus, e vos bendirei todos os dias de minha vida, porque vos agradou antecipar aquele dia espantoso em meu favor, destruindo todas as coisas a meu respeito, na fraqueza em que me sujeitastes. Vos louvo, meu Deus, e vos bendirei todos os dias da minha vida, porque foi de vosso agrado sujeitar-me à incapacidade de desfrutar das doçuras da saúde e dos prazeres do mundo, e porque aniquilastes, de alguma forma para meu proveito, os ídolos enganosos, estes que aniquilareis efetivamente para a confusão dos maus no dia de vossa cólera. Concedei Senhor, que eu julgue a mim mesmo depois desta destruição que promoveste a meu respeito, a fim de que não me julgueis vós mesmo depois da total destruição que fareis da minha vida e do mundo. Porque, Senhor, dado que no instante de minha morte me encontrarei separado do mundo, desnudado de todas as coisas, somente em vossa presença, para responder à vossa justiça por todos os movimentos do meu coração, concedei que eu me considere nesta doença como em uma espécie de morte, separado do mundo, desnudado de todos os objetos de meus apegos, somente em vossa presença, para implorar de vossa misericórdia a conversão de meu coração; e que assim eu tenha um consolo extremo disto que vós me enviais agora, uma espécie de morte para exercer vossa misericórdia, antes que vós me envieis efetivamente a morte para exercer vosso julgamento. Concedei, portanto, ó meu Deus, que do mesmo modo que antecipastes minha morte, que eu antecipe o rigor de vossa sentença, e examine a mim mesmo antes de vosso julgamento, para encontrar misericórdia em vossa presença. 

[IV] (363ab) – Concedei, ó meu Deus, que eu adore em silêncio a ordem de vossa providência adorável sobre a conduta da minha vida; que vosso flagelo me console e, tendo vivido no amargor de meus pecados durante a paz, que eu saboreie as doçuras celestes de vossa graça durante os males salutares com que vós me afligis. Porém eu reconheço, meu Deus, que meu coração está tão endurecido e cheio de ideias, de preocupações, de inquietudes e de apegos do mundo, que a doença não mais que a saúde, nem os discursos, nem os livros, nem vossas Escrituras sagradas, nem vosso Evangelho, nem vossos mistérios mais santos, nem as esmolas, nem os jejuns, nem as mortificações, nem os milagres, nem o uso dos Sacramentos, nem o sacrifício de vosso Corpo, nem todos meus esforços, nem aqueles de todo o mundo conjuntamente, não podem fazer absolutamente nada para começar minha conversão, se vós não acompanhais todas estas coisas de uma assistência totalmente extraordinária de vossa graça. É por este motivo, meu Deus, que eu me dirijo a vós, Deus todo poderoso, para vos pedir um dom que todas as criaturas conjuntamente não podem me conceder. Eu não teria a ousadia de vos dirigir meus gritos, se qualquer outro pudesse atendê-los. Porém, meu Deus, como a conversão do meu coração, a qual vos peço, é uma obra que ultrapassa todos os esforços da natureza, não posso me dirigir senão ao autor e mestre todo poderoso da natureza e do meu coração. A quem gritarei, Senhor, a quem recorrerei, se não for a vós? Tudo aquilo que não é Deus não pode preencher minha expectativa. É o próprio Deus que eu peço e procuro, e é a vós somente, meu Deus, para quem me dirijo para vos obter. Abri meu coração, Senhor, entrai neste lugar rebelde que os vícios ocuparam. Eles o mantêm submisso; entrai nele como em uma casa forte; porém, amarrai, inicialmente, o forte e potente inimigo que a domina e tomai em seguida os tesouros que nela estão. Senhor, tomai minhas afeições que o mundo tinha roubado; roubai vós mesmo este tesouro, ou melhor, retomai-o, já que é a vós que ele pertence, como um tributo que eu vos devo, já que vossa imagem está impressa no tesouro. Vós nele tínheis a sua imagem modelada, Senhor, no momento de meu batismo que é meu segundo nascimento, mas ela está totalmente apagada. A ideia do mundo está tão gravada neste tesouro que a vossa não é mais cognoscível. Só vós pudestes criar minha alma: só vós podeis criá-la de novo. Só vós pudestes modelar vossa imagem nela: só vós podeis modelá-la de novo e nela reimprimir vosso retrato apagado, isto é, Jesus Cristo meu Salvador, que é vossa imagem e o carácter de vossa substância. 

[V] (363b) – Ó meu Deus, um coração é feliz quando pode amar um objeto tão encantador que não o desonre de modo algum e cujo apego lhe seja tão salutar! Sinto que eu não posso amar o mundo sem vos desagradar, sem me prejudicar e sem me desonrar e, entretanto, o mundo é objeto de minhas delícias. Ó meu Deus, uma alma é feliz quando vós sois as delícias, já que ela pode abandonar-se para vos amar, não somente sem escrúpulo, mas ainda com mérito! A felicidade da alma é firme e durável, já que sua espera não será frustrada de modo algum, porque vós não sereis destruído jamais, e nem a vida, nem a morte, jamais separarão a felicidade do objeto de suas delícias; ao mesmo tempo, [vós sois aquele] que arrastará os maus com seus ídolos dentro de uma ruína comum, unirá os justos convosco em uma glória comum; e do mesmo modo que uns perecerão com os objetos perecíveis aos quais estão apegados, outros subsistirão eternamente no objeto eterno e subsistente por si mesmo ao qual estão estreitamente unidos. Oh! Que felicidade estão aqueles que com uma liberdade total e uma inclinação invencível de sua vontade amam perfeitamente e livremente aquele que eles são obrigados a amar necessariamente! 

[VI] (363b) – Completai, ó meu Deus, os bons movimentos que vós me dais. Sede o fim deles como sois o princípio. Coroai vossos próprios dons, porque eu reconheço que estes são vossos dons. Sim, meu Deus, e bem longe de pretender que minhas preces tenham mérito que vos obrigue a concedê-las necessariamente, reconheço humildemente que, eu, tendo voltado às criaturas meu coração, que vós não tínheis moldado senão para vós, e não para o mundo, nem para mim mesmo, não posso esperar nenhuma graça senão de vossa misericórdia, já que não tenho nada em mim que possa obrigá-lo a isto [a concedê-la], e todos os movimentos naturais do meu coração, encaminhando-se em direção às criaturas ou a mim mesmo, só podem vos irritar. Portanto, vos agradeço, meu Deus, pelos bons movimentos que me dais, e mesmo por este que me dais, de poder agradecê-Lo. 

[VII] (363b-363a) – Tocai meu coração para o arrependimento de minhas faltas, já que, sem esta dor interior, os males exteriores, pelos quais tocais meu corpo, serão uma nova ocasião de pecado. Concedei-me conhecer bem que os males do corpo não são outra coisa senão a punição e a figura conjunta de todos os males da alma. Porém Senhor, concedei também que eles [os males do corpo] sejam o remédio da alma, me fazendo considerar, nas dores que sinto, aquela que não sentia em minha alma, embora toda doente e coberta de úlceras, já que, Senhor, a maior das doenças da alma é a insensibilidade e aquela extrema fraqueza que havia retirado dela [da alma] todo sentimento de suas próprias misérias. Fazei-me senti-las [as misérias] vivamente, e que a vida que me resta seja uma penitência contínua para lavar as ofensas que cometi. 

[VIII] (364a) – Senhor, embora minha vida passada tenha sido isenta de grandes crimes, de cujas ocasiões vós me distanciastes, ela foi para vós, entretanto, muito odiosa pela negligência contínua, pelo mal uso de vossos mais augustos sacramentos, pelo desprezo de vossas palavras e de vossas inspirações, pela ociosidade e a inutilidade total de minhas ações e de meus pensamentos, pela perda de todo tempo que vós não me tínheis dado senão para vos adorar, para procurar em todas as minhas ocupações os meios de vos agradar, e para fazer penitência pelas faltas que se cometem todos os dias, e que são ordinárias mesmo para os mais justos, de maneira que a vida deva ser uma penitência contínua sem a qual estamos em perigo de decair de sua justiça. Desta maneira, meu Deus, sempre fui contrário a vós. 

[IX] (364a) – Sim, Senhor, até aqui sempre fui surdo às vossas inspirações: desprezei vossos oráculos, julguei de forma contrária àquela com a qual vós julgais, eu contradisse as santas máximas as quais vós trouxestes ao mundo desde o seio de vosso Pai eterno, e segundo as quais julgareis o mundo. Dissestes: “Bem-aventurados são aqueles que choram, e desgraçados aqueles que são consolados”. E eu disse: “Desgraçados aqueles que gemem, e felizes aqueles que são consolados”. Eu disse: “Felizes aqueles que gozam de uma vantajosa fortuna, de uma reputação gloriosa e de uma saúde robusta”. E por que os reputei felizes, senão porque todas estas vantagens lhes forneciam uma facilidade muito ampla de desfrutar das criaturas, isto é, de vos ofender? Sim, Senhor, confesso que estimei a saúde um bem, não porque ela é um meio fácil de servir-vos com utilidade e para consumar mais cuidados e vigílias a vosso serviço, nem para a assistência do próximo, mas porque, a favor dela [saúde] eu podia abandonar-me com menos comedimento na abundância das delícias da vida e melhor desfrutar dos seus funestos prazeres. Concedei-me a graça, Senhor, de reformar minha razão corrompida e de conformar meus sentimentos aos vossos. Que eu me estime feliz na aflição e que, na impotência de agir exteriormente, purifiqueis de tal forma meus sentimentos que eles não repugnem mais aos vossos, e que assim vos encontre dentro de mim, já que não posso procurar-vos fora por causa de minha fraqueza. Porém, Senhor, vosso Reinado está em vossos fiéis, e o encontrarei dentro de mim, se nele eu encontro vosso Espírito e vossos sentimentos. 

[X] (364ab) – Porém, Senhor, que farei para vos agradecer por difundir vosso Espírito sobre esta miserável terra? Tudo aquilo que sou vos é odioso e não encontro nada em mim que vos possa agradar. Eu não vejo nada em mim [que vos possa agradar], Senhor, só minhas dores que têm alguma semelhança com as vossas. Portanto, considerai os males que sofro e aqueles que me ameaçam. Vede com um olho de misericórdia os flagelos que vossa mão me tem feito, ó meu Salvador, que amastes vossos sofrimentos até a morte! Ó Deus, que não vos fizestes homem senão para sofrer mais que qualquer homem para salvação dos homens! Ó Deus, que não vos encarnastes depois do pecado dos homens e que não tomastes um corpo senão para sofrer nele todos os males que nossos pecados mereceram! Ó Deus, que amais tanto os corpos que sofrem, que escolhestes para vós o corpo mais devastado de sofrimento que jamais tinha estado no mundo! Tende [como] agradável meu corpo, não por ele mesmo, nem por tudo aquilo que ele contém, pois tudo nele é digno de vossa cólera, mas pelos males que ele suporta, que só podem ser dignos de vosso amor. Amai meus sofrimentos, Senhor, e que meus males vos convidem a me visitar. Porém, para concluir a preparação de vossa morada, concedei, ó meu Salvador, que se meu corpo tem isto [os sofrimentos] em comum com o vosso, que ele sofra por minhas ofensas, e que se minha alma tenha também isto em comum com a vossa, que ela esteja na tristeza pelas mesmas ofensas; e que assim eu sofra convosco, e como vós, no meu corpo e na minha alma, pelos pecados que cometi. 

[XI] (364b) – Senhor, concedei-me a graça de acrescentar vossas consolações aos meus sofrimentos, a fim de que eu sofra como Cristão. Não peço para ser isento das dores, pois esta é a recompensa dos santos: mas peço para não ser abandonado às dores da natureza sem as consolações do vosso Espírito, pois esta é a maldição dos Judeus e dos Pagãos. Não peço para ter uma consolação plena sem nenhum sofrimento, pois esta é a vida na glória. Não peço também para estar na plenitude dos males, sem consolação, pois este é um estado do Judaísmo. Mas peço, Senhor, de sentir conjuntamente as dores da natureza por meus pecados e as consolações de vosso Espírito por vossa graça, pois este é o verdadeiro estado do Cristianismo. Que eu não sinta as dores sem consolação, mas que sinta dores e consolo ao mesmo tempo, para chegar, enfim, a não sentir mais senão vosso consolo sem nenhuma dor. Porém, Senhor, tendes deixado esmorecer o mundo nos sofrimentos naturais sem consolação antes da vinda do vosso Filho único; agora vós consolais e aliviais os sofrimentos de vossos fiéis pela graça de vosso Filho único; e [enfim] preencheis com uma beatitude totalmente pura vossos santos na glória de vosso Filho único. Estes são os admiráveis degraus pelos quais conduzis vossas obras. Me tirastes do primeiro: concedei-me passar pelo segundo, para chegar ao terceiro. Senhor, é a graça que vos peço. 

[XII] (364b-365a) – Não permitais que eu esteja em tal distanciamento de vós, que possa considerar vossa alma triste até a morte e vosso corpo abatido pela morte por meus próprios pecados, sem me alegrar de sofrer tanto no meu corpo quanto na minha alma. Pois, que há de mais vergonhoso e, entretanto, de mais comum nos Cristãos e em mim mesmo que, enquanto vós suais sangue para a expiação de nossas ofensas, vivemos nas delícias [?]; e que Cristãos fazem voto de estar convosco, senão aqueles que pelo batismo renunciaram o mundo para vos servir, senão aqueles que juraram solenemente, à frente da Igreja, de viver e de morrer convosco, senão aqueles que fazem voto de acreditar que o mundo vos perseguiu e crucificou, senão aqueles que acreditam que vós vos expusestes à cólera de Deus e à crueldade dos homens para remi-los de seus crimes [?] – só estes, digo, que creem em todas estas verdades, que consideram Vosso corpo como a hóstia que se entregou para salvação deles, que consideram os prazeres e os pecados do mundo como o único motivo dos Vossos sofrimentos, e o mundo mesmo como Vosso carrasco, procuram, para lisonjear seu corpo, estes mesmos prazeres, em meio a este mesmo mundo –; e como estes, que não poderiam, sem fremir de horror, ver um homem acariciar e querer bem o assassino de seu pai que se entregaria para dar a vida a ele [ao filho], podem viver como eu fiz, com plena alegria, entre o mundo que sei ter sido verdadeiramente o assassino daquele que reconheço por meu Deus e meu Pai, que se entregou para minha própria salvação e que carregou em sua pessoa a pena de minhas iniquidades? É justo, Senhor, que tenhais interrompido uma alegria tão criminosa como aquela na qual eu repousava na sombra da morte. 

[XIII] (365ab) – Portanto, retirai de mim, Senhor, a tristeza, que o amor por mim me poderia dar, dos meus próprios sofrimentos, e pelas coisas do mundo, que não alcançam a medida das inclinações de meu coração e não atentam à vossa glória, porém, colocai em mim uma tristeza conforme à vossa. Que meus sofrimentos sirvam para apaziguar vossa cólera. Concedei nisto uma ocasião para minha salvação e para minha conversão. Que, de hoje em diante, eu não deseje saúde e vida senão a fim de empregá-las e dá-las a vós, convosco e em vós. Não vos peço nem saúde, nem doença, nem vida, nem morte, mas que vós disponhais de minha saúde e de minha doença, de minha vida e de minha morte, para vossa glória, para minha salvação e para a utilidade da Igreja e de vossos santos, dos quais espero por vossa graça fazer parte. Só vós sabeis aquilo que me é conveniente: sóis o soberano mestre, concedei aquilo que quiserdes. Dai-me, retirai-me, mas conformai a minha vontade à vossa; e que, em uma submissão humilde e perfeita, e em uma santa confiança, me disponho a receber as ordens de vossa providência eterna, e que eu adore igualmente tudo aquilo que me vem de vós.

 [XIV] (365b) – Meu Deus, concedei que, em uma uniformidade de espírito sempre igual, eu receba todas as formas de acontecimentos, já que nós não sabemos aquilo que devemos pedir, e que, por este motivo, não posso desejar um [acontecimento] antes do outro sem presunção, e sem me tornar juiz e responsável das consequências que vossa sabedoria quis justamente me esconder. Senhor, sei que eu só sei uma coisa: que é bom vos seguir e que é mal vos ofender. Depois disso, não sei o que é o melhor ou o pior em todas as coisas. Não sei o que me é proveitoso da saúde ou da doença, dos bens ou da pobreza, nem de todas as coisas do mundo. É um discernimento que ultrapassa a força dos homens e dos anjos, e que está escondido nos segredos de vossa providência que adoro e que não quero aprofundar. 

[XV] (365b) – Portanto, concedei Senhor, que tal como eu seja, que me conforme à vossa vontade; e que, estando doente como estou, vos glorifique nos meus sofrimentos. Sem eles não posso chegar à glória; e mesmo vós, meu Salvador, nela [à glória] não tendes querido chegar senão por eles [sofrimentos]. É pelas marcas de vossos sofrimentos que vós fostes reconhecido por vossos discípulos, e é também pelos sofrimentos que vós reconheceis aqueles que são vossos discípulos. Reconhecei-me então como vosso discípulo nos males que eu suporto tanto no meu corpo quanto no meu espírito pelas ofensas que cometi. E, já que nada é agradável a Deus se não lhe for oferecido por vós, uni minha vontade à vossa, e minhas dores àquelas que tendes sofrido. Concedei que as minhas tornem-se as vossas. Uni-me a vós; preenchei-me de vós e do vosso Espírito Santo. Entrai no meu coração e na minha alma para ali sofrer meus sofrimentos e para continuar a suportar em mim aquilo que vos resta sofrer em vossa Paixão, que vós findais em vossos membros até a consumação perfeita do vosso Corpo, a fim de que, estando pleno de vós, que não seja mais eu quem viva e quem sofra, mas que seja vós que vivais e sofrais em mim, ó meu Salvador: e que assim, tendo uma pequena parte dos vossos sofrimentos, vós me preenchais inteiramente da glória que eles vos condescenderam, na qual viveis com o Pai e o Santo Espírito, por todos os séculos dos séculos. Amém!

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MARTINS, Andrei Venturini. Prece para pedir a deus o bom uso das doenças. Revista Último Andar (ISSN 1980-8305), n. 26, 2015.  Clique aqui:

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O ESTOICISMO E O CETICISMO: AS DUAS VIAS FILOSÓFICAS PARA A CONSTRUÇÃO DO PARADOXO ENTRE GRANDEZA E MISÉRIA EM BLAISE PASCAL



Resumo 

Blaise Pascal é o filósofo do paradoxo, pois, para ele, a verdade é a reunião dos contrários. Em sua antropologia, o homem é analisado como um ser paradoxal, ao mesmo tempo grande e pequeno, fraco e forte, grande e mísero. Essas contradições estão presentes em todos os homens, mas, a maior parte dos filósofos ao longo da história do pensamento Ocidental enxergou apenas um dos lados, ou seja, baseou-se numa visão unilateral e limitada do homem. Este artigo tem como objetivo analisar as duas vias filosóficas, pelas quais Pascal constrói o paradoxo entre grandeza e miséria, como aspecto fundamental para o estudo e compreensão do homem. Para isso, ele se apoia especialmente em dois filósofos, Epiteto e Montaigne, mostrando que, a ‘verdade’ de cada corrente filosófica opera como desqualificadora da ‘verdade’ da outra. Mas, para Pascal a verdadeira compreensão do homem, está na reunião dessas duas dimensões contraditórias, ou seja, paradoxais. 

Palavras-chave: ser paradoxal; estoicismo e ceticismo; grandeza e miséria; paradoxo, compreensão do homem.

Para acessar o o artigo na íntegra, CLIQUE AQUI

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Blaise Pascal: um cristão devoto (séc. XVII)

Pascal viveu sucessivamente em Saint-Etienne, Paris (a partir dos oito anos), Rouen (aos dezesseis), depois retornou a Paris, onde levou uma vida rica e livre como homem, graças à herança de seu pai, que leva-o a ser considerado por alguns, com razão, como libertino.

Na realidade, Pascal, tendo se beneficiado de uma sólida educação cristã, é animado por uma fé fervorosa, em particular após sua leitura dos autores jansenistas, em 1646. Ele tinha então 23 anos e esse período pode ser considerado como primeira conversão. 

Depois segue um período "mundano", durante o qual ele se dedicou às ciências.  Em 1654, quando chegou perto da morte após um acidente de ônibus, na ponte de Neuilly. 

Ele então teve uma visão religiosa, uma êxtase que ele descreveu nessas famosas palavras do Memorial: Fogo. Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos filósofos ou dos estudiosos [...] Certeza. Certeza. Sentimento. Alegria. Paz. Alegria, alegria, alegria, lágrimas de alegria. que ele costura no casaco. Ele então multiplicou retiros espirituais no convento de Port Royal.

Depois dos 35 anos, Pascal experimentou sérios problemas de saúde, em special dores de estômago e dores de cabeça, posteriormente diagnosticados como provenientes de insuficiência renal crônica e danos cerebrais, de origem genética. 

Em 1662, ele teve convulsões e morreu em Paris. É nesse ponto que se encontra em seus objetos pessoais feixes de folhas nas quais foram observadas reflexões, classificadas em uma ordem provisória. Eles são publicados e o trabalho assim composto, Pensées de Pascal, rapidamente se torna um sucesso de livraria.

Da mesma forma, foi apenas um século após sua morte que outra obra fundamental de Pascal foi publicada: Sobre o espírito geométrico e a arte da persuadir, que se tornara um clássico da filosofia matemática.

De fato, do ponto de vista literário, os únicos textos publicados durante sua vida são as Provinciais , uma série de cartas nas quais ele defende o jansenismo e critica a casuística dos jesuítas. Essas cartas, com um humor sutil e feroz, deliciam toda Paris e exercem uma profunda influência sobre Montesquieu, que reterá o processo para suas Lettres persanes, ou Rousseau.

Mas são os Pensamentos que permanecerão para a posteridade como obra-prima desse gênio versátil, que soube ser ao mesmo tempo teólogo, matemático, físico, inventor e filósofo. Eles constituem um clássico da literatura francesa e continuam a exercer uma forte influência na filosofia e na teologia.


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Fonte: clique aqui:

 

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Blaise Pascal e o pessimismo político


“A história mundial não é nada além de uma série de catástrofes esperando pela catástrofe final.”
Emil Cioran


Lluvia de toros o “Disparate de toritos”, Francisco Goya


Por: Ricardo Mantovani*

Estados e governantes são parte de um grande castigo que se abate sobre a humanidade: eis uma tese que pode ser facilmente depreendida da filosofia de Pascal. Mas por que o pensador teria uma visão tão pessimista da política? Vejamos.

Blaise Pascal (1623-1662) foi um eminente cientista, tendo, dentre outros grandes feitos, inventado a máquina de calcular e desenvolvido o famoso cálculo das probabilidades. Aliás, Pascal foi um dos grandes nomes envolvidos na polêmica demonstração da existência do vácuo, fazendo frente àqueles que, na época, julgavam ser incompatível a existência do vazio absoluto com a existência de um Deus Todo-Poderoso e Todo-Criativo (mais ou menos como aqueles que, ainda hoje, julgam ser incompatível a existência divina com a existência do globo terrestre que, por conta disso, tentam, a todo custo, achatar, tornar plano…).

Quanto às teses filosóficas de Pascal, pode-se dizer que se encontram reunidas, quase todas, numa obra conhecida, atualmente, como Pensamentos: escrito inacabado, composto por mais de mil notas pessoais que, não fosse a morte prematura do autor, serviriam de base a uma Apologia da religião cristã. Que não se pense, contudo, que as ideias desenvolvidas nos Pensamentos calam fundo apenas naqueles que compartilham da fé do escritor. As investigações filosóficas de Pascal nunca pressupõem a aceitação de dogmas teológicos ou de inextricáveis teses metafísicas. Ao invés disso, o filósofo costuma iniciar seus arrazoados descrevendo um fenômeno prontamente detectável (como o amor-próprio que nos corrói a todos) ou, ainda, elaborando imaginativamente uma situação tão verossímil quanto possível. Ora, é precisamente desta última maneira que procede Pascal ao tentar responder uma das questões centrais da filosofia política, por conta da qual muita tinta foi gasta, sobretudo ao longo dos séculos XVII e XVIII: como surgiram os primeiros Estados?

O pai do direito internacional moderno, Hugo Grotius (1583-1645), vê no homem um ser naturalmente sociável, que busca o convívio de seus semelhantes pelo mero prazer de sua companhia — e que, portanto, funda os primeiros corpos políticos simplesmente para dar uma vazão mais tranquila a seus instintos gregários. Thomas Hobbes (1588-1679), por seu turno, em seu famigerado Leviatã, assegura que, na ausência de qualquer poder político, a existência humana se desenrola de modo miserável e violento, já que, naturalmente, os indivíduos só se ocupariam de sua autopreservação. Ainda segundo Hobbes, é exatamente o ressentimento dos contínuos dessabores próprios a essa situação – na qual todos estão em guerra contra todos — que leva os homens a estabelecerem entre si um contrato que os coloca sob um poder comum, precisamente aquele do Estado, o qual é soerguido no intuito de mediar e pacificar suas relações.

Pois bem. Do ponto de vista de Pascal, é um erro acreditar que os Estados surgiram como uma decorrência espontânea de nossa pretensa sociabilidade — como quer Grotius — ou, ainda, como o fruto de um pacto voluntário e racional celebrado por um grupo de indivíduos — como gostaria Hobbes. Desmistifiquemos a origem dos corpos políticos: os Estados são filhos do combate, da conquista e da consequente subjugação dos vencidos.


Quando figura a situação que teria dado origem aos primeiros Estados, Pascal nos pinta um quadro violento, no qual vemos pequenas gangues (chamadas pelo filósofo de “partidos”) digladiando-se até que uns virem senhores e outros virem escravos. Todavia, Pascal nos chama a atenção para um fato nada desprezível: os vencedores da guerra fundadora não têm interesse em continuar sendo vistos como conquistadores violentos, apressando-se para “legitimar” o poder que se encontra em suas mãos.

É aí que o engodo toma conta da cena e os mitos começam a ser criados aos borbotões. De acordo com as ideologias que vão, aos poucos, sendo engolidas pelos dominados, os novos líderes não devem seus privilégios ao resultado contingente de um embate bélico, mas, por exemplo, à “pureza” de seu sangue, à superioridade de sua raça, ou, ainda, ao arbítrio inelutável de alguma divindade.

Mas como os governantes conseguem levar a cabo a tarefa de escamotear as raízes perversas de seu status? Pascal responde: através do espetáculo. Assim como os juízes e os médicos — que vestem roupas pomposas para fingir que têm uma ciência que, na realidade, estão longe de possuir —, os governantes, diz o filósofo, rodeiam-se de toda parafernália possível para, desta maneira, impressionarem o comum dos homens. Como poderiam os vulgos não se sentirem inferiores perante indivíduos fanfarrões, que dispõem de tantas riquezas, que têm à sua disposição tão espalhafatosas tropas ou que, como ocorre nas democracias modernas, gozam de tanto “apoio popular” (mesmo que este seja, eventualmente, forjado por algum instituto de pesquisa)? Se a força fundou os Estados, é definitivamente o marketing que os sustenta.

Levando em conta estas duras verdades, Pascal escreve uma pequena obra, os Três discursos sobre a condição dos grandes, em que se dedica à ingrata tarefa de preparar um futuro duque para os desafios que sua posição lhe trará. Neste texto, o filósofo, ao invés de prescrever ao jovem aristocrata as mais altas virtudes, limita-se a lembrar-lhe de que, ao fim e ao cabo, não é nem melhor nem pior do que aqueles que virá governar. Ainda que o povo vos tenha por um ser superior, diz Pascal, deveis recordar-vos de que, no limite, foram eventos acidentais que vos alçaram a tão alto patamar!

Realista como sempre, Pascal sabe que um conselheiro jamais conseguiria tornar virtuoso um político, tarefa deixada a cargo de santos homens ou, quiçá, da Graça. No entanto, o pensador não finaliza seu terceiro Discurso sem antes prescrever a seu pupilo que seja liberal para com seus súditos. Um governante cioso de seu posto deve, sempre que possível, distribuir bens e honrarias. Tal medida, certamente, não tornará seu governo justo — até porque, do ponto de vista pascaliano, um governo justo é algo humanamente impossível de ser construído. Não obstante, manter os corpos e os egos do povo alimentados evita as revoluções: e é precisamente disto que se trata, já que as convulsões sociais são o maior dos males que podem acometer uma sociedade.

Isto introduz o último ponto que gostaria de ressaltar do pensamento político pascaliano. Mesmo que os Estados sejam filhos da violência e vicejem graças à criação de mitos, Pascal não crê que possamos deles abdicar (como gostariam Bakunin e Rothbard) ou mesmo que possamos melhorá-los (como, em vão, tentaram os “deuses” das revoluções francesa e bolchevique). Os homens — governantes e governados — são podres e qualquer tentativa de instalar o Paraíso na Terra só intensificará seu odor nauseabundo. Caso não tivéssemos afrontado o Criador, ainda fruiríamos de sua paz. Hoje, entretanto, só nos resta aceitar, na medida de nossas forças, os desmandos da corja dominante que não faz senão nos aviltar. E que Deus nos dê paciência!
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MANTOVANI, Ricardo. Blaise Pascal e o pessimismo político. In: Estado da Arte (Revista de culturas, ideias e artes).Publicado em 21/05/2020. 

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* Ricardo Mantovani
Ricardo Vinícius Ibañez Mantovani é Doutor em Filosofia pela USP. Coordenador e professor do curso de Pós-Graduação em Ética e Filosofia Política da Faculdade Paulo VI e pesquisador do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP LABÔ.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Blaise Pascal - prodígio científico e espiritual



"O coração tem suas razões que a própria razão desconhece."


"Quem precisa de Deus? O homem pode fazer isso sozinho." Assim reivindicava a filosofia racionalista que capturou a imaginação da França do século XVII. Seus campeões, Voltaire e Descartes, entre outros, tentaram criar uma visão de mundo governada completamente pela razão.

O matemático e físico francês Blaise Pascal, embora criado no auge do pensamento iluminista, achou a razão inadequada: "O último passo da razão é o reconhecimento de que há um número infinito de coisas que estão além dela". Ele concluiu: "O coração tem suas razões, que a própria razão desconhece" - uma afirmação que logo se tornou a principal crítica do racionalismo e o ponto de partida para uma defesa da fé cristã que ainda hoje influencia as pessoas.

Prodígio científico

A mãe de Pascal morreu quando ele tinha três anos e seu pai mudou com a família de Clermont-Ferrand, na França, para Paris, onde passou a ensinar Pascal e sua irmã. Aos 10 anos, Pascal iniciou alguns experimentos originais em matemática e ciências físicas. Para ajudar seu pai, que era cobrador de impostos, ele inventou o primeiro dispositivo de cálculo (alguns chamam de o primeiro "computador").

Com esta última invenção, ele fez um nome para si mesmo (aos 19 anos) E começou sua carreira científica ricamente diversa. Ele testou as teorias de Galileu e Torricelli (que descobriram os princípios do barômetro), culminando em sua famosa lei da hidráulica, que afirma que a pressão na superfície de um fluido é transmitida igualmente para todos os pontos do fluido. Ele acrescentou documentos importantes sobre o vácuo, o peso e a densidade do ar e o triângulo aritmético. Ele desenvolveu a teoria da probabilidade, que ainda é usada hoje. Ele inventou a seringa, o elevador hidráulico, e é creditado por ter inventado o relógio de pulso e mapeado a primeira rota de ônibus em Paris. 

"Noite de fogo"

Durante todo o tempo, Pascal estava explorando o mundo espiritual, que estava passando por uma revolução em toda a Europa. Enquanto o pietismo floresceu na Alemanha e a santidade wesleyana se espalhou pela Inglaterra, a França católica estava sentindo os efeitos do jansenismo - uma forma de agostinismo que ensinava a predestinação e graça divina, ao invés de boas obras, como vital para a salvação.

Em 1646, Pascal entrou em contato com o jansenismo e apresentou-o a sua irmã Jacqueline, que finalmente entrou no convento de Port-Royal, um centro do jansenismo. Pascal, no entanto, continuou a lutar espiritualmente: ele lutou com a dicotomia entre o mundo e Deus.

Então, em 23 de novembro de 1654, Pascal experimentou uma "conversão definitiva" durante uma visão da crucificação:

"Das dez e meia da noite às doze e meia... FOGO... Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, e não dos filósofos e sábios. Certeza. Certeza. Certeza. Sentimento. Alegria. Paz."

Ele gravou a experiência (chamada "Memorial") em um pedaço de pergaminho, que levou com ele o resto da vida, costurado dentro do casaco. Ele iniciou uma associação ao longo da vida com Port-Royal - embora, ao contrário de sua irmã, nunca tenha se tornado um "solitário".

Paixão por Cristo

Suas maiores obras não são apenas obras-primas da prosa francesa, mas também excelentes defesas da fé cristã.
Les Provinciales, 18 ensaios considerados brilhantes ironia e sátira, atacou os jesuítas e defendeu a demanda dos jansenistas por um retorno à moralidade e à crença de Agostinho na graça divina. A igreja católica colocou Les Provinciales no índice, condenando-o, mas sem reprimir a controvérsia que provocou.

Pensées, uma coleção dos "pensamentos" de Pascal que ele pretendia apresentar como uma apologia, foi publicada após sua morte. Nele, Pascal retratou a humanidade como suspensa entre miséria e grandeza, e desamparada sem Deus. As pessoas tentam evitar o abismo envolvendo-se em distrações. Pascal denunciou a ideia de que somente a razão e a ciência podem levar uma pessoa a Deus. Somente experimentando Cristo as pessoas podem conhecer a Deus.

A crença vem do "coração", que, para Pascal não era apenas sentimentos e sentimentos, mas a intuição que entende sem ter que usar a razão. E a graça de Deus faz com que isso aconteça: "Não se surpreenda ao ver pessoas simples que acreditam sem argumentar. Deus as faz amá-lo e odiar a si mesmas. Ele inclina seus corações a acreditar. Nunca acreditaremos com uma fé vigorosa e inquestionável, a menos que Deus toca nossos corações; e creremos assim que ele o fizer."

Nas Pensées, Pascal também apresenta seu famoso argumento pela fé: a aposta. Como a razão não pode dar uma certeza absoluta, argumentou ele, toda pessoa deve arriscar acreditar em alguma coisa. Quando se trata da fé cristã, ele disse, uma pessoa sábia aposta nela porque: "Se você vence, ganha tudo; se perde, não perde nada."

Voltaire e outros estudiosos denunciaram Pascal como um fanático desanimador. Incontrolável ou não, ele viveu a maior parte de sua vida com um corpo frágil, e suas muitas doenças finalmente cobraram seu preço aos 39 anos.

Fonte: https://www.christianitytoday.com/history/people/evangelistsandapologists/blaise-pascal.html. Acesso em 11/10/2019. 

quarta-feira, 3 de julho de 2019

CADERNOS ESPINOSANOS [USP-SP]: n. 40 (2019): ESPECIAL BLAISE PASCAL




APRESENTAÇÃO


O novo número dos Cadernos Espinosanos dedica-se à filosofia de Blaise Pascal, notória e multifacetada figura do pensamento seiscentista que se dedicou aos mais diversos campos do saber: da geometria à apologia, da física à ética. Os artigos apresentados tiveram por base algumas das conferências e comunicações do Colóquio Pascal, realizado no Departamento de Filosofia da USP em junho de 2017, com organização dos pesquisadores Luís César Oliva, João Cortese e Ricardo Mantovani, também organizadores deste número. O leitor encontrará nas  páginas  seguintes  reflexões sobre o famoso argumento da aposta, sobre as relações entre o  finito e o infinito, sobre os limites de conhecimento, sobre a argumentação  cética e até mesmo sobre a presença de Pascal na obra de Fernando Pessoa. A diversidade dos artigos reflete bem a diversidade da obra deste instigante filósofo. Completam o número uma tradução do opúsculo pascaliano Prefácio sobre o Tratado do Vácuo e uma resenha.

Artigos disponíveis em: 
< http://www.revistas.usp.br/espinosanos/> 


Boa leitura!
Os Editores


segunda-feira, 1 de julho de 2019

PARADOXOS DA CONDIÇÃO HUMANA: GRANDEZA E MISÉRIA COMO PARADOXO FUNDAMENTAL EM BLAISE PASCAL


DEPOIMENTOS...

ANDREI VENTURINI MARTINS, pesquisador, escritor e professor de filosofia do Instituto Federal de São Paulo, estudioso de Pascal no Brasil que fez parte da minha BANCA DE DEFESA DO MESTRADO (2016) e BANCA DE QUALIFICAÇÃO DE DOUTORADO (2019) gravou essa mensagem sobre meu livro.


FLÁVIO HAMILTON, um cara que tenho a honra de chamar de AMIGO. Um HOMEM que, desde os tempos que iniciamos juntos no teatro (há mais de 20 anos), nutro uma admiração especial. Atualmente, ATOR profissional, um dos poucos da nossa geração do (GTCCP) que tem representado o nosso país além das fronteiras nacionais com zelo e competência ímpares. Gentilmente gravou esse vídeo falando do meu livro... 


CRISTINE REIS OITTICA, professora, Mestre pela PUC-SP, estudiosa de Pascal gravou esse vídeo sobre o meu livro...


JOÃO BRANCO, um amigo que o destino colocou no meu caminho há mais de 20 anos, professor, ator, diretor de teatro com quem aprendi lições que fizeram e fazem a diferença na minha vida. Um empreendedor cultural que não mede esforços para dar a Cabo Verde e ao mundo o melhor de si. Ele gravou esta mensagem sobre meu último livro 


THAIS ROSA, Mestre em Engenharia de Produção e Gerente de Projetos gravou esse vídeo sobre meu livro.


RICARDO MANTOVANI, professor, escritor, estudioso do Pascal [Doutorando na USP], já publicou duas obras sobre seus estudos pascalianos, gravou esse vídeo sobre meu livro...


JOÃO PAULO BRITO, "Jota" para os mais íntimos, um amigo de longa data, ator, diretor, mas, sobretudo, um excelente comunicador e um profissional de excelência que muito faz para a cultura de Cabo Verde.Ele gravou esse vídeo falando sobre o meu livro "Paradoxos da Condição Humana".


Uma indicação de peso feita pela Cecília Milagros, minha filha que me ajuda a crescer como 'HOMEM' e entender cada vez mais "OS PARADOXOS DA CONDIÇÃO HUMANA"...


PRISCILLA LUNDSTEDT ROCHA, (minha Linda), companheira e parceira que me incentiva e apoia em todos os momentos. Ela mais do que ninguém, sabe o quão foi difícil a "gestação" e o "nascimento" dessa obra... Ela gravou esse vídeo falando um pouco sobre os 👉PARADOXOS DA CONDIÇÃO HUMANA👈



PARA ADQUIRIR UM OU MAIS EXEMPLARES, CLIQUE NO LINK: <https://www.eviseu.com/pt/livros/825/paradoxos-da-condicao-humana/ >. 

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Paradoxos da condição humana: grandeza e miséria como paradoxo fundamental em Blaise Pascal - Apresentação

A grandeza do homem é grande por ele conhecer-se miserável; uma árvore não se conhece miserável. É então ser miserável conhecer (-se) miserável, mas é ser grande conhecer que se é miserável [PASCAL, 2005, p. 40]

Arlindo Nascimento Rocha[1]

Influenciado pela cultura pós-moderna, a maioria dos homens tende a cumprir a maldição do homem atualizado para definir a ilusão de que, quanto mais perto estamos da informação global, mais perto estaremos da sabedoria, e, consequentemente, mais felizes seremos. Esta miopia é parcela da nossa atual cultura, ou seja, do último homem interpretado como uma ‘paródia’ da tirania do bem-estar físico, típico da nossa época. O comum dos homens está convencido da sua dignidade, o semissábio denuncia sua fragilidade, mas, o sábio descobre que a sua verdadeira dignidade reside no pensamento, que não deveria referir unicamente à dimensão epistemológica, uma vez que, é imprescindível a dimensão ética em que a dignidade humana deveria manifestar-se através do reconhecimento da sua grandeza miserável. Entretanto, o grande problema, é que a maior parte dos homens comporta-se contrariamente a essa advertência e buscam o conhecimento e a felicidade onde não podem encontrá-los, uma vez que, a maioria das pistas a serem percorridas, são como circuitos fechados, redondos ou elípticos, não levam a lugar nenhum, e servem apenas para correr em círculos, assevera Morin.

Contemporâneo de Descartes, Blaise Pascal vive uma época que procura enaltecer as potencialidades humanas e principalmente a existência racional do homem. Sendo a razão aquilo que nos distingue, somente o seu uso autônomo e integral, pode ser o caminho para a realização humana. Embora Pascal tenha vivido no contexto histórico do século XVII, cuja característica mais forte, foi o racionalismo cartesiano, distingue-se profundamente, nos princípios e nas consequências do estilo de pensamento que marcou de maneira decisiva os rumos da Filosofia Moderna.

No horizonte da sua Apologia está o conhecimento de Deus e do homem, mais precisamente, a tentativa de compreender a natureza humana através de sua procedência divina e a tentativa de compreender algo de Deus por via de sua imagem impressa no coração do homem. Daí, a existência contraditória representada pela nobreza da criatura divina e na abjeção, por ter renegado a Deus. Por isso, a salvação do homem depende de uma graça misteriosa absolutamente gratuita. Portanto, existe em nós, uma grandeza que deriva da nossa origem divina e do destino que a criatura deve cumprir, retornando ao seu criador, e, uma miséria, proveniente do pecado original, pelo qual a criatura preferiu a afirmação da sua sabedoria, à harmonia que deveria caracterizar a relação do homem e Deus.

Esta obra é uma versão modificada da minha dissertação de mestrado: Paradoxos da condição humana: grandeza e miséria como paradoxo fundamental em Blaise Pascal, apresentada ao Programa de Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 2016, sob a orientação do professor Doutor Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé. Nossa pesquisa encontra-se intimamente ligada à Filosofia da Religião, e retomamos o estudo do pensamento pascaliano com a pretensão de ampliar a discussão e a reflexão sobre a natureza humana, que é certamente, um dos aspetos que mais inquietou nosso filósofo. Por isso, nosso objetivo principal foi o de analisar a concepção paradoxal da natureza humana, presente na filosofia de Blaise Pascal, em sua dimensão existencial, como ser essencialmente contraditório, onde enfatizamos a relação entre ‘grandeza e miséria’, como paradoxo fundamental, cujo centro da reflexão é o homem decaído e investigar a ideia de uma individualidade do homem que reconhece sua própria identidade. Nossa análise foi temática, com o enfoque histórico, antropológico, epistemológico e psicológico.

A obra está dividida em cinco capítulos, onde analisamos inicialmente o contexto histórico da França do século XVI; os precursores do conceito de natureza humana; a visão antropológica do homem pascaliano antes e depois do pecado original; os limites do conhecimento racional, que são colocados pela condição da própria finitude humana e das múltiplas insuficiências; e, por último, lançamos o olhar sobre a epistemologia e a psicologia pascalianas, que guardam uma relação estreita com sua antropologia, e, enfatizamos conceitos como: imaginação, tédio e divertimento como marcas da insuficiência humana.

Espero que esta obra seja do proveito de todos os pascalianos, amantes, estudiosos ou não de sua obra, pois, esta será mais uma contribuição que nos ajudará na árdua tarefa de levar a todos um pouco mais sobre Pascal e o seu legado. Que o mesmo possa servir de instrumento de conhecimento, pesquisa e reflexão, pelos que se interessam por questões relativamente à condição humana e levam a sério tudo o que diz respeito ao homem – criatura em busca de si mesmo e em evolução continua através da ciência, da filosofia, da teologia e de todas as outras ciências cujo objeto principal é o homem.


“O erro hereditário de todos os filósofos é basear-se no homem de uma época particular e depois transformar isso numa verdade eterna”.
Friedrich Nietzsche


PARA ADQUIRIR UM EXEMPLAR É SÓ CLICAR NO  LINK: 

Referência
ROCHA, Arlindo Nascimento. Paradoxos da condição humana: grandeza e miséria como paradoxo fundamental em Blaise Pascal. 1ª ed. – Maringá: Viseu, 2019, p. 15 a 17.  




[1] Autor da obra PARADOXOS DA CONDIÇÃO HUMANA, uma adaptação da dissertação de Mestrado apresentado na PUC-SP sob a orientação do Dr. Luiz Felipe Pondé em 2016.

segunda-feira, 25 de março de 2019

A existência de Deus: um dos problemas fundamentais da Filosofia da Religião



Arlindo Nascimento Rocha[1]

Resumo: 

Compreender Deus em sua totalidade é preciso primeiramente compreendê-Lo no espírito humano como Ser Absoluto e Supremo, Ser existente e não negado na esfera racional. Portanto, se Deus é o ser que existe na razão, deve-se analisa-Lo filosoficamente e, por meio da reflexão racional e, posteriormente,  afirmá-Lo no espírito. Ao afirmá-Lo no espírito o que constitui a essência da nossa espiritualidade, podemos aferir que Deus não pode ser negado e passa a existir de forma 'Absoluta' contra qualquer dúvida. Por isso, nos próximos parágrafos refletiremos sobre um dos problemas fundamentais da Filosofia da Religião, ou seja, a existência de Deus. 

A existência de Deus: um dos problemas fundamentais da Filosofia da Religião

Em nosso entender, qualquer texto sobre Filosofia da Religião impõe-se como tarefa inicial clarificar suas formas de expressão e a de indicar seus principais temas. Nesse aspecto tanto uma como outra, ou seja, ‘Filosofia’ e ‘Religião’ são conceitos considerados polissêmicos, mas, segundo Paine (2013, p. 101) “longe de ser um sintoma de indefinibilidade, é antes marca de hiperdefinibilidade tal abundância de definições”. Isso é de certa forma corroborado por Kolakowski (1927-2009) em sua obra Philosophie de la religion publicada em 1985. Nessa obra, segundo Pena (1999,p.23), “nem a filosofia nem a religião dispõem de conceitos claros e bem definidos, no sentido de terem sua aceitabilidade consagrada por todos os especialistas”, mas, em nosso entender, essa ‘indefinibilidade’ ou ‘hiperdefinibilidade’ é muito mais discutida quando se trata da religião, “afinal, seja em termos histórico-etimológico seja em termo de teorização contemporânea, não há unanimidade ou equívoca universalidade acerca daquilo que se quer dizer com religião” (AHN apud PICH, 2013, p. 143). Entretanto, ao relacionarmos historicamente os dois conceitos é possível segundo Paine (2013) elencar três tentativas, a saber: (1) filosofia é religião (identidade), ou seja, uma aproximação íntima que se assemelha a uma fusão; (2) filosofia e religião (paralelismo), saberes distintos e inconfundíveis, tanto no método quanto no conteúdo; (3) filosofia na religião (teologias e metafísicas religiosas) uma vez que a cooperação entre ambas gerou grandes teologias, tanto no entendimento da primeira como serva da segunda, no caso do cristianismo, como também em correntes comparáveis como o Judaísmo e o Islã. 

Para clarificar as formas de expressão e indicar os principais temas em torno da Filosofia da Religião, foram trabalhados inicialmente autores como Grondin, Schaefler, Bilimoria, Taliaferro, Plantinga, Philips, e, posteriormente outros como, Paine, Pich, Graham Oppy, Nancy K. Frankenberry, Schilbrack, Yujin Nagasawa, só para citar alguns exemplos que foram abordados no sentido de entender como a Filosofia da Religião vem se posicionando face às outras disciplinas já consolidadas e qual tem sido seu papel na fundamentação epistemológica da Ciência da Religião, pois, como se sabe, ela pode ser entendida como análise e justificação dos fundamentos filosóficos da religião em geral tendo em conta seu interesse por todas as religiões e formas de religiosidade inclusive as contemporâneas. Isso fica explícito a partir do que é afirmando por Taliaferro, pois, segundo ele,
A filosofia da religião explora questões filosóficas que nascem da reflexão sobre a natureza e a verdade da crença religiosa e sobre os significados da experiência religiosa. [...] relaciona-se integralmente com a metafísica, a epistemologia, a ética, a filosofia da mente e outras áreas, das quais a história da filosofia não é uma das menos importantes [...] (TALIAFERRO, 2009, p. 445).
Ainda segundo o mesmo autor, a diversidade religiosa levou muitos a repensar suas crenças particulares e atualmente o estudo da Filosofia da Religião tem crescido bastante com o estabelecimento de novos periódicos dedicados a essa disciplina (Ibid.). Entretanto, como disciplina autônoma de fato, ela afirmou-se somente a partir do séc. XVIII, distanciando paulatinamente da Metafísica e da Ética, muito embora, acredita-se que o diálogo entre ambas é tão antigo como a própria filosofia. Então, pode-se considerar que ela é uma reflexão sobre o ‘fenômeno’ religioso, tendo em conta que está presente em todas as culturas. Nesse sentido segundo Grondin (2012) a primeira tarefa da Filosofia da Religião é redescobrir as indagações para as quais a religião é uma resposta, pois, acredita-se que ela oferece respostas sólidas sobre a existência. Por isso, ela reflete e questiona se a forma prática de vida que se designa como ‘religião’ é racionalmente plausível e o que se pressupõe como realidade é verdadeiro. Croatto (2010, p. 22) destaca Hegel (1778-1831) como sendo o precursor moderno da Filosofia da Religião e reconhece seus antecedentes em Kant (1724-1804), o impulso dado por Schleiermacher (1768-1834) e Schelling no séc. XIX, assim como a contribuição de Ricoeur (1913) e Henry Duméry (1920-2012). Ambos legaram obras importantes para a Filosofia da Religião.

De acordo como Frankenberry (2016), atualmente é possível identificar três trajetórias distintas em Filosofia da Religião, a saber: 1) o estudo comparado das tradições religiosas através do emprego de uma pluralidade de metodologias e perspectivas filosóficas; 2) uma abordagem centrada nos argumentos sobre a existência de Deus; o problema da linguagem religiosa; os desafios do positivismo lógico; e, o problema do mal; 3) e, finalmente, uma terceira abordagem em que a Filosofia da Religião formou alianças com áreas como método e teoria no estudo da religião, ética e o estudo científico-social da religião. Nessa pesquisa termos como foco, a segunda abordagem, mais especificamente, como referimos no título acima refletiremos sobre o tema A existência de Deus como sedo um dos problemas fundamentais na história da Filosofia da Religião, embora Schilbrack (2014) em seu artigo What is philosophy of religion afirme que este assunto não deve ser limitado apenas a afirmações sobre Deus, mas também deve incluir as reivindicações filosóficas de religiões politeístas e não-teístas, tendo em conta que, “o raio de ação da Filosofia da Religião é muito mais amplo, pois, terá de tomar posição em face de todas as filosofias que ocasionaram violência e foram redutivas em relação à religião” (TERRIN, 2003, p. 32). O conceito de Deus, segundo (ZILLES, 2004, p. 11) é um dos mais antigos, mais universais e mais fecundos do patrimônio cultural da humanidade. Por isso, esse tema sempre preocupou os filósofos desde a filosofia pré-socrática até nossa era, esse assunto tem sido amplamente discutido principalmente por teólogos e filósofos da religião. Nesse aspecto, os que atacam os argumentos a favor da existência de Deus criticavam sua forma argumentativa; e, os que defendiam, aceitavam sem sentido implícito. Entretanto, essa questão continua em aberto, pois, ela não foi solucionada, e, apesar dos argumentos de ambos os lados pode-se concluir que se não há provas da existência de Deus, também é verdade que não existem provas da sua não existência. No entanto, é plausível afirmar que, “poucos argumentos na história da filosofia produziram tanto debate quanto essas famosas tentativas de defender a Deus sem fazer referência à experiência sensível” (WILKINSON, 2014, p. 136).

Se consideramos que a filosofia teve início com os assim chamados pré-socráticos, cujo principal objeto de estudo era a natureza, em Sócrates (469 a.C.-399 a.C.) assistimos uma mudança de objeto de estudo que passa a ser o homem, em seguida Platão (427/347 a.C.) criou o mundo das ideias e finalmente Aristóteles (384 a.C./322 a.C.) trouxe ao mundo real as concepções ideais do mundo das ideias do seu mestre. Mas, neles todos é possível verificar que a reflexão sobre Deus não passou despercebido a começar por Talles de Mileto (624 a. C.- 546 a.C.) a quem se atribui a célebre passagem segundo a qual “tudo está cheio de deuses” ou ainda a célebre frase de Heráclito de Éfeso (535 a.C. - 475 a.C.) convidando os visitante a entrar em sua cozinha: einai gar kai enthautha theus, “pois, aqui também existem deuses” (LANGLOIS, et al 2009, p. 14). Superando o período clássico veio a Idade Média onde surgem vários filósofos tentando provar a existência de Deus, muitas vezes com argumentos difíceis de serem entendidos. Entre eles podemos citar o argumento ontológico de Santo Anselmo[2] (1033-1109) e as cinco vias da prova da existência de DeusSão Tomás de Aquino (1225/1274). Lentamente chegamos a Descartes (1596-1650), Pascal (1623-1662), Hume (1711-1776), Kant (1724-1804), e, finalmente, Nietzsche (1844-1900) e seu pensamento cético, tendo ele, segundo Pena (1999), proclamado no final do século XIX a morte de Deus, e, essa conclusão Nietzschiana “foi acompanhado de um processo de distanciamento da filosofia ocidental da religião e da Filosofia da Religião e, finalmente, surgiu o pensamento analítico que parecia destruir tudo” (ZILLES, 2004, p. 45), pois, ele argumentara que, não haveria lugar para Deus num século totalmente dominado pela relevância alcançada pela ciência [...] o mundo já dominado pelo pensamento mecanicista, não oferecia mais espaço para reflexões do estilo teológico ou metafísico (PENNA, 1999, p.17). Entretanto, ele seria superado pelo pensamento existencialista de Sartre (1905-1980), e, contrariamente à Kierkegaard (1813-1855) que colocara o homem diante de Deus e da sua eternidade, Sartre afirmava que o homem é uma paixão inútil que está entregue a sua própria sorte e é o único responsável pelo seu próprio destino.

Diferente de Anselmo, Aquino e Descartes, Blaise Pascal não acredita nas provas sobre a existência de Deus, e questionava: afinal, Deus existe ou não existe. Para que lado pendemos? Ele não pretendeu chegar a Deus através de provas racionais, mas, a partir do funcionamento do homem, recorrendo ao paradoxo, ou seja, a dualidade entre a sua miséria e a sua grandeza. Em sua Apologia destaca-se a tentativa de compreender a natureza humana através de sua procedência divina e a tentativa de compreender algo de Deus através de Sua imagem impressa no coração do homem. Daí, a existência contraditória representada pela nobreza da criatura divina e na abjeção, por ter renegado a Deus. Desde Pascal, costuma-se opor o Deus dos Filósofos ao de Abraão, Isaac e Jacó. Para ele, o primeiro seria o de Descarte ou o de Espinoza, ou seja, um Deus racional que funda o cálculo metódico que criou o mundo e o homem, enquanto que o segundo seria o Deus que toca o sujeito no seu íntimo. Pascal nega categoricamente a possibilidade de provar a existência de Deus através dos argumentos ditos racionais, pois, para ele, por mais que sejam belos e bem elaborados, eles serão sempre insuficientes, e sustenta que,
Se há um Deus, ele é infinitamente incompreensível, uma vez que, não tendo as partes nem limites, não tem qualquer comparação conosco. Somos, pois, incapazes de conhecer, quer aquilo que ele é, quer se ele é. Assim sendo, quem ousará compreender a tarefa de resolver essa questão? Não somos nós, que não temos nenhum ponto em relação a ele (PASCAL, 2005, p. 159). 
Para os que acreditam que seja possível provar Sua existência racionalmente, Pascal, insiste em sustentar as limitações da razão, pois, segundo ele, “a razão nada pode determinar a esse respeito” (ibid.), uma vez que, ela é fraca, insuficiente e limitada, e, só nos proporciona o conhecimento do milieu (meio). Segundo ele,
Conhecemos, pois, a existência e a natureza do finito porque somos finitos e extensos como ele. Conhecemos a existência do infinito e ignoramos a sua natureza porque ele tem extensão como nós, mas não tem limites como nós. Mas, não conhecemos nem a existência nem a natureza de Deus porque ele não tem nem extensão e nem limites (PASCAL, 2005, p. 159). 
Entretanto, ele defende que, pela fé conhecemos Sua existência e pela glória sua natureza, mas, isso só será possível através da Aposta, pois, ao invés das demonstrações racionais ele defende as provas históricas do cristianismo e o raciocínio que ressaltam a razoabilidade da doutrina da Queda, por isso, sua Aposta não visa provar a existência de Deus, mas levar o incrédulo a aceitar que é melhor apostar na Sua existência do que na Sua não existência, pois, quando se aposta contra o infinito (Deus) perdemos sempre, então, para Pascal, “é preciso apostar” (ibid.). A Aposta, segundo ele, é a atitude mais racional, pois, aquele que aposta na existência de Deus não tem nada a perder e tudo a ganhar, a salvação e a vida eterna, por isso, é preciso olhar para aquilo que traz maior benefício. Ele afirma que não temos escolha entre o acreditar ou não, pois, se “você vence, você ganha tudo, mas se você perde, você não perde nada. Assim, sem hesitar, aposte que Ele existe”(Ibid.).

Entretanto, para alguns críticos, a Aposta de Pascal é uma falácia argumentativa denominada falso dilema, em que se tenta restringir o número de possibilidades quando, na realidade há muitos outros. Entre eles pode-se citar o britânico Richard Dawkins (1941), ateu confesso que, em seu entendimento, a Aposta de Pascal, só poderia ser, quando muito, um argumento para se fingir a crença em Deus, pois, segundo ele, o acreditar não é algo que esteja sujeito à decisão, um rumo por que se opta (DAWKINS, 2018). Matt Dillahunty (1969) ex-presidente da Atheist Community of Austin é outro ateu que afirma que a Aposta é uma falsa dicotomia, pois, ela ignora todas as outras possíveis religiões, ignora outros paraísos e outros infernos, faz a afirmação de que adorar e acreditar não custa nada, presume que a crença esteja sujeito ao arbítrio e que, determinando que se tenha uma aposta segura, e que se pode ir adiante e escolher acreditar, e, por isso, é uma das coisas mais ridículas. Entretanto, muitos cristãos acreditam que Aposta de Pascal, reforça e incute nos crentes a coragem para decidir em prol da existência de Deus. 

Mais recentemente, e ainda versando sobre essa questão na tentativa de superar as diversas visões que os crentes, filósofos e cientistas têm em relação a Deus, na introdução da obra Abordagens Científicas da Filosofia da Religião,Nagasawa (2012) reflete sobre a questão da existência de Deus e usa os seguintes termos O Deus de Abrão, o Deus dos filósofos e o Deus dos cientistas. Segundo ele, na primeira é chamada de abordagem sobrenatural, pois, os crentes tentam compreender a existência e natureza de Deus através de meios sobrenaturais, na segunda os filósofos tentam compreender a existência e natureza de Deus através do pensamento racional e analítico, e, na terceira, ou seja, na abordagem científica, os cientistas tentam compreender a existência e natureza de Deus, apelando para a pesquisa empírica e estudos científicos. Esta é uma interessante combinação das duas abordagens tradicionais acima. Nesse aspecto, segundo Hock (2010, p. 15), “uma perspectiva de cooperação entre a Ciência da Religião e a Filosofia da Religião está se abrindo no esforço partilhado em prol de uma linguagem científica comum, com base em padrões e modos de procedimento metodologicamente claros”. 

Considerações finais:

Depois de tudo o que foi investigado e escrito, não restam dúvida, sobre a importância da Filosofia da Religião como área de conhecimento que reflete sobre questões cruciais entre Filosofia e Religião, mas, seu objetivo não é tornar as pessoas religiosas, pois, o trabalho dos filósofos não visa doutrinar o público, ensinar ou incentivar as pessoas a serem crentes, principalmente no que tange a existência ou não de Deus, pois, o desejo de conhece-Lo é como a busca de um cego a caminho do desconhecido, e, partindo de uma frese de Lessing, um suspiro sem palavras dirigido a Deus é a melhor maneira de adorá-Lo. Mas, torna-se inevitável não concordar com a sentença Nietsche sobre a morte de Deus, pois, ele sustenta que com isso a história do Ocidente atinge o ápice do niilismo, embora vozes contrárias dizem que Ele esteve, está e estará sempre presente nas pequenas ações e coisas simples, e, os mais otimistas não duvidam que estudos hoje clássicos mostram a influência da ideia de Deus e as concepções teológicas exercem sobre a ciência importantes influências, por isso, muitos defende que Deus é a maior ideia inventada pelo homem, mas, dele pouco ou nada sabemos, pois, Ele escapa à verificação científica, a ordem do ser e nossa linguagem será sempre insuficiente na sua tentativa de expressar o inefável. 

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Referências

CROATTO, José Severino. As linguagens da experiência religiosa: uma introdução à fenomenologia da Religião. – 3ª ed. – São Paulo: Paulinas, 2010.
DAWKINS, Richard. A desilusão de Deus. – Rio de Janeiro: Leya, 2018.
FRANKENBERRY, Nancy. Enduring questions in philosophy of religion: a response to Neville and Godlove. American Journal of Theology & Philosophy 37, no. 1 (2016): 36-52.
GRONDIN, Jean. Que saber sobre filosofia da religião. – Aparecida, SP: Editora Ideias & Letras, 2012.
HOCK, Klauss. Introdução à ciência da religião. Tra. Monika Otterman. - São Paulo: Edições Loyola, 2010. 
KOŁAKOWSKI, Leszek. Philosophie de la religion. – Paris: Fayard, 1985.
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[1] Doutorando em Ciências da Religião – (PUC-SP) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; bolsista da CAPES. E-mail.arlindonascimentorocha@gmail.com.

[2] Segundo Pena (1999, p. 70), um dos argumentos mais discutidos, mais criticados é, todavia, mais presentes em toda a história da filosofia, é o argumento ontológico proposto por Santo Anselmo de Canterbury. Parte-se de uma afirmação de que Deus é um ser perfeito, daí decorrendo a necessidade mesma de sua existência [...] a rejeição do argumento foi enfaticamente efetuada por Kant, quando denunciou não ser a existência um predicado [...].